Perdas


| Tempo de leitura: 4 min
Ao longo destes onze meses, o ritual de comparecer ao velório para se despedir de alguém conhecido foi muito além do que seria aceitável
Ao longo destes onze meses, o ritual de comparecer ao velório para se despedir de alguém conhecido foi muito além do que seria aceitável

‘Sofrer e chorar é viver’
Fiódor Dostoiévski
, escritor russo


Desde cedo aprendemos que a vida é composta de ciclos que se abrem e fecham, que se repetem em algumas ocasiões e noutras tantas eclodem uma única vez ao longo de nossa existência. São ideias abstratas e complexas, cujos ensinamentos começam ainda na infância, dentro de casa, com exemplos e atitudes que vemos em nossos pais, e cujas lições seguimos tomando por toda a vida.

Na escola, quem tem a sorte como eu de passar por professoras excepcionais, como as ‘tias’ que me educaram na Dinâmica Espiral, as queridas Leni, Erotildes, Sueli, Heloísa, Consuelo, Beth, Marina, Lucia, Vera, entre tantas outras, toma desde cedo contato com conceitos complexos como a finitude da vida. E com a ideia de que, como qualquer ser vivente também nós, humanos, estamos sujeitos às leis universais da natureza. Nascemos, crescemos, nos desenvolvemos, envelhecemos e, um dia qualquer, mais cedo ou mais tarde, independente de quão grandiosa ou medíocre tenha sido nossa trajetória neste mundo, é certo que morreremos. Trata-se de uma regra sem exceção.

Mas tudo isso, por mais que seja compreendido, raramente é verdadeiramente assimilado nos nossos primeiros anos. Com raras exceções, é na adolescência que passamos a ter dimensão mais real do impacto - e da força - destas verdades imutáveis. É quando começamos a ver a morte de perto. Vão-se alguns avós, eventualmente um conhecido morre de forma abrupta. Meu ritual de passagem foi com um amigo de infância, Gustavo Spessoto Pimenta, morto precocemente aos 15 anos num estúpido acidente de carro. Nunca me esqueci de sua imagem no caixão, tão absurda, tão inverossímil. Era inconcebível que meu amigo com quem andava de bicicleta pelas ruas da Vila Flores estivesse, naquele instante, morto. Estava.

As lágrimas derramadas pelo Guga, apelido carinhoso do Gustavo Pimenta, foram as primeiras de muitas outras que viriam na sequência. Com o fim da juventude e o início da fase adulta, vi partir muitos conhecidos e outros tantos familiares. Sepultei meus avós, alguns tios, meu pai. Com o avançar dos anos, as idas ao velório mudaram de esporádicas para frequentes e as salas do São Vicente de Paulo, até então espaços insípidos, ganharam ares de assombrosa familiaridade.

Por mais que os anos vividos nos preparem para muita coisa, é certo que a morte é quase sempre uma surpresa desagradável - e inesperada. E sua ocorrência, por mais que inescapável, jamais é realmente aceita, ao menos na cultura ocidental, como um evento normal. É sempre um instante de dor, de angústia, de tristeza, com o qual nos acostumamos, mas que jamais admitimos como parte da normalidade que rege o dia-a-dia. É ilógico, mas é assim.

Por isso mesmo, o ano de 2011 tem sido particularmente sombrio. Ao longo destes onze meses, o ritual de comparecer ao velório para se despedir de alguém conhecido multiplicou-se muito além do que seria aceitável. Tive a pachorra de contar. Até este sábado, quando em 24 horas participei de duas cerimônias distintas - a primeira, na noite de sexta-feira, no adeus ao radialista Garcia Neto, colaborador do Comércio e avô da designer-chefe do jornal, Julia Nightingale; a segunda, na tarde de sábado, na despedida do gráfico José Pires de Lima, pai do diretor da Difusora, Everton Lima - foram dezessete idas ao velório nestes onze meses.

Neste ano terrível, vi partir gente estimada como os empresários Wagner Garcia, Geraldinho Ribeiro, Ronaldo Salomão, João Paulo Fernandes, o comunicador Mauro Pizzo e uma leitora-símbolo que nos acompanhou por gerações, Shirley Kairalla; companheiros de trabalho como o jovem radialista Gabriel Ciciliani, da Difusora; e parentes de colegas queridos aqui do GCN como os pais do Eduardo Ferreira, da Sandra Giolo, do Milton Rogério, dos irmãos Dino, Ângelo e Desirê; do Sandro Bonamin, da Mila Dias; a avó da Ariane Guimarães, a filhinha da Ângela Barbosa.

Some-se a isso um outro tipo de perda, aquela que sentimos quando gente próxima em quem depositávamos esperança, confiança e expectativa decide tomar outros rumos, muitas vezes de forma abrupta, inesperada e, quase sempre, incompreensível, para se ter dimensão de quão difícil pode ser um ano, de quão frustrante pode ser a confiança depositada em alguém que não corresponde na mesma medida. É triste, mas é assim. E neste ano, colecionei vários episódios semelhantes.

Ao longo do tempo, tenho lamentado a velocidade com que os dias transcorrem, muitas vezes impedindo que celebremos adequadamente uma vitória, que compartilhemos devidamente uma conquista, seja ela material, afetiva, espiritual. O raciocínio não se aplica a 2011. Deste ano, quero distância. Conto as horas para o Réveillon que, espero se assim o destino permitir, passarei em Rifaina, junto com minha família e no meio daquela natureza exuberante e revigorante. Farei todas as simpatias possíveis pelo encerramento deste ciclo de perdas e dor, e pelo início de um ano mais feliz. Quero que 2012 chegue logo. E que venha melhor. Porque de tristeza, 2011 já esgotou sua cota faz tempo.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários