Tias


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Antigamente tínhamos tias. Irmãs do pai, irmãs da mãe. Até irmãs dos avós. Dentre elas, tias solteiras. Ou viúvas sem filhos. Especialíssimas.

Moravam com os irmãos, claro: onde já se viu tias morando sozinhas. As mulheres desses irmãos (também tias, sem consanguinidade) penavam com a hóspede permanente, para quem construíam apartamento fora do corpo da casa, no quintal. Toda casa tinha quintal, naquele tempo. Os maridos das tias de verdade, irmãs das tias solteiras, nem reclamavam tanto assim: elas faziam as vezes de ajudantes das suas esposas na organização doméstica, olhavam as crianças pequenas, acompanhavam o crescimento delas e iam desempenhando tarefas, de acordo com a demanda: preceptoras escolares, motoristas eventuais, acompanhantes nos hospitais em caso de doenças e, mais tarde, quando as meninas cresciam e queriam ir a bailes, quem as levava? As tias. Elas que, ótimo, não tinham o faro das mães. As tias, que moravam com os irmãos e irmãs, geralmente tinham pouca escolaridade, profissão nenhuma. Consideravam bênção o acolhimento da família e faziam de tudo para continuarem elemento neutro na dinâmica do grupo. Quer dizer, geralmente mesmo, porque a experiência conta de tias de meter medo no Belzebu. Poucas, mas conta.

Em Uberlândia, cidade natal de minha mãe, morava a imensa família Araújo, da qual fazia parte vovó Ritinha, caçula da primeira leva dos seis filhos que o bisavô Francisco teve com Maria Cândida: Didinha, Antônio, Benedito, Fia, Oswaldo e Ritinha. Viúvo, ele se engraçou com alguém e produziu Candinha, que trouxe para morar com os outros filhos. Casou-se pela segunda vez e teve Laura, Emílio, Helena e Badiinha. Morreu. Não tivesse morrido, teria mais uma penca de filhos. Era muito rico, jogou demais, ficou bastante pobre. E algumas das filhas foram morar com os irmãos. Didinha, solteira, e Fia, viúva, foram para a casa de Benedito, cuja mulher Zazá, acolheu as cunhadas. E de bom grado, por incrível que pareça. Laura foi para a casa de Badiinha e Alfredo, que também nunca reclamou.

Tias solteiras são misteriosas e possuem segredos. Didinha era a matriarca da família. Poderosa. Contavam que teria sido apaixonada por guapo rapaz que lhe fez alguma desfeita e ela lhe recusou o perdão. Tenho dela um caderno de folhas em papel vegetal - com marca d’água e tudo - cheio de ilustrações desenhadas e coloridas e manuscritos com poesias de amor, algumas de sua autoria, não sei dirigidas a quem. Há, também, prescrições com poções mágicas para dar fim a malestares, ataques, achaques e frescuras em geral. No envelope, grudado no lado interno da capa dura, há cartas do bisavô para os filhos. Há fotos. Há um passado imenso. Relíquia, retrato fiel de priscas eras. Tia Fia cantava enquanto joeirava sacas de arroz e feijão. Uma melodia em especial: Alza Manolita, valsa de Leo Daniderff – que até ontem não fazia a mínima ideia de quem fosse até procurá-lo, e achá-lo, na internet – com versão de Edmundo André. Tia Laura não tinha grandes talentos como as irmãs, e lutou a vida inteira com a balança. Uma vez, depois do almoço, eu a encontrei encostada na parede da sala de almoço, com os braços abertos, na mesma posição do Cristo Redentor. O cheiro da feijoada ainda estava no ar, imaginei que o rega-bofe tinha sido o máximo. E tinha. Ela havia se excedido à mesa e aquela posição era simpatia para eliminar gordura. Coisas de tia.

Atualmente viramos tias. Chamam-nos tias, gente que nunca vimos antes. Tratam-nos por tias amigos e amigas dos filhos, cujos pais nem nos cumprimentam direito. Somos tias dos meninos de rua. Dos alunos das escolas onde lecionamos, quando não de desconhecidos oferecidos de qualquer idade. Afeto, entende? Essa prática é manifestação afetiva, justificam. Mas era só o que faltava. Amiga malcriada e respondona quando a chamam assim, com intimidade indevida, revida: ‘Desculpa, mas não sou sua tia: não sou irmã da sua mãe, nem do seu pai. Pode me chamar pelo nome, por títulos, até por dona. De tia é que não.’ Desconfio que a família dela também é de Uberlândia porque lá a palavra tia tem, ainda, outro significado que não remete à meiguice, à delicadeza, muito menos evoca doces lembranças da infância da gente.

REFRÃO
O roteiro da música que tia Fia cantava - Alza Manolita - é trágico. O palco é Madri. A linda Manolita ama o toureiro Pedro. Ele promete que ‘enquanto vida tiver, jamais será de outra mulher’. Sugere que ela vá ‘à buena dicha’ se duvida, e pergunte às cartas pois ‘as cartas não mentem jamais.’ Pedro vai tourear e Cacilda, a outra, futrica. Manolita volta à cartomante que confirma a fidelidade do amado.Todavia, parte-lhe o coração, revelando que Pedro não será mais dela porque acabou de morrer na arena – dos touros, não na de Cacilda. Morreu, sim: as cartas confirmam, e ‘as cartas não mentem jamais’.

NATAL
Se você estiver sem tempo e desalentada, anime-se: há, na cidade, oferta sensacional de mão de obra para a decoração de sua casa para o Natal. Seu trabalho será apenas separar enfeites que já possui e sinalizar como deseja que sejam colocados. Profissionais competentes e gabaritadas vão até sua casa, montam a árvore. Por valor justo. Depois é negociar os extras.

APAGÃO
Quarta-feira, vinte e uma horas. Sem chuva. Do nada, as luzes se apagam. Falta total e absoluta de energia. O computador desliga. O portão eletrônico pifa. Breu na rua. Tateando no escuro, acha-se a bolsa e, dentro dela, o celular. Com a ajuda da luz do celular, localiza-se vela. Cadê os fósforos? A menos que seja fumante, quem se lembra de deixar fósforos à mão em plenos anos 2011? Metade da cidade ficou às escuras pensando na vida, sem outra coisa para fazer, durante mais de vinte minutos. Ou vinte horas?

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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