‘A verdade se corrompe tanto
com a mentira como com o silêncio’
Cícero, filósofo grego
O Comércio publicou, há exatos 7 dias, reportagem sobre as graves acusações que pesam contra o anestesista José Rubens Perani Soares. A informação de que o médico é suspeito de molestar sexualmente pacientes anestesiados em pleno centro cirúrgico dos hospitais da cidade, inclusive menores de idade, foi obtida com exclusividade pelo repórter Edson Arantes, fruto de corajoso trabalho investigativo. A denúncia, manchete no domingo, provocou forte impacto e, como sempre em casos polêmicos, alguma reação contrária. Faz parte.
De todos os argumentos contrários à divulgação da identidade do médico, há um deles comum à maioria dos comentários: ‘e se ele for inocente?’. Para quem pensa desta forma, a imprensa só poderia identificar o acusado após sentença judicial definitiva. Invocam a ‘presunção da inocência’ para sustentar a tese de que, até o término da ação judicial, um acusado é sempre inocente. E, como tal, não poderia ter sua imagem e reputação expostas. É uma lógica simplista, perigosa e, evidentemente, equivocada.
No próprio âmbito do judiciário, é comum haver decisões contraditórias e que mudam ao longo do tempo e das distintas instâncias. Nem por isso os críticos da imprensa acusam os promotores de Justiça de leviandade porque uma denúncia não foi, eventualmente, acolhida. É claro que, se o MP formaliza denúncia contra alguém, instantaneamente sua vida se transforma, constrangimentos começam, aflições surgem, a família sofre. Vale o mesmo para eventual sentença condenatória de primeira instância, o que nem de longe implica dizer que um juiz foi ‘canalha’ ou ‘sensacionalista’ porque sua sentença acabou reformada por tribunal superior.
Esperar que a imprensa só exerça o seu papel depois do trânsito em julgado é transformar jornalistas em historiadores. A estes últimos cabe esperar o distanciamento de tempo necessário para uma leitura profunda de fatos e personagens. Quanto aos jornalistas, compete o registro do fato presente, denunciar e criticar, acompanhar as idas e vindas de um caso, suscitar dúvidas, apontar contradições, dar espaços para quem acusa e garantir voz a quem é acusado.
Os críticos da imprensa parecem exigir dos jornalistas uma precisão divina. ‘E se for inocente’, perguntam, quase sempre em tom acusatório, como se tivéssemos meios de ter certeza absoluta do que houve antes de publicar um fato qualquer. Ninguém tem certeza de coisa alguma, nem mesmo no Judiciário. No máximo, sólidos elementos e convicções. O que devemos é agir com absoluta seriedade e responsabilidade, de acordo com princípios éticos e após rigorosa apuração dos fatos. A partir daí, é legítimo publicar, sempre que houver interesse público, respeitadas as particularidades de cada caso. Exigir que saibamos de antemão quem é inocente ou culpado é demanda muito além do razoável.
Se esta tese prevalecesse, ninguém saberia que o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, é acusado de corrupção. Que o médico Conrad Murray, que acompanhava Michael Jackson, pode ter administrado doses excessivas de um remédio que contribuiu decisivamente para sua morte. Que o ex-presidente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, foi acusado de estupro por uma camareira. Que o ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva, teve um comportamento estranhíssimo na liberação de milhões de reais para ONGs. Que o ainda todo-poderoso José Dirceu pode ter comandado um dos maiores esquemas de corrupção da história do país. Que o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, recebia malas de dinheiro de fornecedores. Alguns são réus sem sentenças definitivas, outros nem isso. A imprensa do Brasil e do Mundo deu ampla e detalhada cobertura aos fatos, independente da fase processual e de sentença condenatória definitiva. É o papel que lhe cabe.
No caso do médico José Rubens Perani Soares, é fundamental lembrar que a denúncia foi tão contundente que, a partir dela, o Ministério Público ouviu testemunhas, vítimas, o acusado e, depois de analisar tudo isso, decidiu pedir sua prisão e a cassação do direito de exercer a medicina. Além da ação do MP, as acusações foram suficientemente assombrosas para que os dois hospitais para os quais prestava serviços - Santa Casa e Unimed - o desligassem sumariamente de seus quadros. O médico, surpreendentemente, aceitou tudo passivamente. Fechou seu consultório e mudou-se para Ribeirão Preto. Não esbravejou da demissão involuntária, não procurou o Conselho Regional de Medicina para reclamar de perseguição, não explicou que motivação teria a enfermeira para ‘inventar’ tão grave denúncia. Tudo isso aconteceu antes que o jornal veiculasse uma linha sequer sobre o caso. Publicada a denúncia, o médico manteve silêncio. Calou-se. Foi uma opção sua.
Pode ser que o médico José Rubens Perani Soares seja inocente. Também pode ser que ele seja culpado. Cabe à imprensa acompanhar os passos desta história, registrando o que for possível apurar, publicando a versão do acusado se em algum instante ele aceitar falar, buscando desvendar em que circunstâncias aconteceram os alegados abusos. A população tem direito de saber o que acontece. Esta é a nossa razão de existir. E desta missão não abriremos mão. Nunca.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.