De novo. E sempre...


| Tempo de leitura: 4 min

Lembrança nítida da madrugada em que nasceu o terceiro filho: chuva torrencial, raios riscavam o céu, trovões pareciam anunciar o fim do mundo

Entretanto, a música do rádio do carro que me transportava à maternidade se contrapunha à baderna do lado de fora do carro: tocava ‘Butterfly’, sucesso na época, melodia tranqüila, melodiosa, terna e delicada. Não sabíamos o sexo do bebê. Ele mexia muito: é homem, vaticinava minha avó. A barriga estava bastante redonda: é mulher, afirmavam as comadres. Nomes? Depois escolhe, deixa nascer primeiro. Eu não podia comer milho, que tinha azia: vai ter bastante cabelo, garantiram. Ainda interno, embolou do lado da barriga tornando-a disforme e esquisita e não houve cutucão que o tirasse de lá: vai ser teimoso, apostaram. Parou de mexer: ficou dias sem dar mostra de sua presença. Chorei um bocado. Conversei com ele, pedi um sinal, passei suavemente a mão na barriga, massageei com carinho. Nada. Aí, entreguei para Deus. Desprezei, ele reagiu: deu-me dica de como lidar, no futuro, com seus amuos. Nasceu. Sexo masculino, forte, sadio, não tinha um fio de cabelo, olhos azuis, uma boca linda e insaciável. Chorava alto, reclamando: não gostou de ser tirado do lugar aconchegante onde estava. Não tinha nome: Ricardo? Guilherme? Henrique? Fernando?

Dei-lhe nome de rei, cresceu. Foram várias as fases. Certa época encanou que fazia parte da seleção brasileira de futebol. Varava semanas vestido de camiseta e calção verde-amarelo, chuteiras e meia. Em outra, não desgrudou do skate: tombos, arranhões, hematomas. Sobrevivemos. Assistiu ‘Guerra nas Estrelas’, tornou-se o Han Solo, acho que já procurava sua Princesa Léa. Sobrevieram em épocas diferentes Lego, Forte Apache, brinquedos eletrônicos, computador, música, banda.

Ah! as birras... Tem até registro fotográfico. Dobrava o corpo ao meio, encostava a testa nos joelhos, lambuzava a cara, punha a mão na boca, esperneava e berrava e berrava. De repente, parava. Levantava-se, ainda dando aqueles suspirinhos entrecortados de criança quando chora muito e avisava: ‘Acabou.’ E partia para outra atividade. Aprendemos a esperar pelo aviso. Nunca escondeu a paixão pela mãe, razão pela qual ganhou a alcunha de Édipo. Quando ia dormir na casa de amigos, preparávamo-nos: na madrugada, o pedido para ir buscá-lo, porque estava se sentindo mal: coisa estranha, estava tão bem. Não conseguia explicar a súbita indisposição. Era só chegar em casa, acomodar-se na cama dos pais, encostar na Jocasta, desmaiava de babar. O irmão mais velho soube defini-lo bem: ‘cabeça de homem e coração de menino’. Para descrever-lhe a personalidade, que se firmou, nunca mudou, poderíamos dizer que é realmente doce, meigo, sincero, honesto, trabalhador, obstinado, teimoso, esperto e curioso.

Lá um dia, ao concluir o colegial, foi embora para longe. Não arrumei suas malas, não discordei da nova experiência, já sabia que quando ele resolvia, era melhor concordar. Quase morri na despedida do meu garoto. Voltou dois anos depois. Homem. Então, encontrou sua princesa. Apaixonou-se por ela. Ficaram noivos. Resolveram passar o resto da vida juntos. De comum acordo decidiram tudo sobre o casamento. Nos mínimos detalhes. Casaram-se. No período que antecedeu o casamento, fiquei de olho para evitar que ele se dobrasse ao meio, como nas birras antigas. Dispensável: entendiam-se bem, respeitavam-se, eram parceiros. Liguei o pisca-pisca para interferir. Cuidadosa e delicadamente me dispensaram. Ambos sabiam com exatidão o que queriam. Assisti a tudo como num filme: participando, sem intervir. Chorei (um pouquinho) na cerimônia religiosa. Fiquei o tempo todo, emocionada e feliz. O bicho pegou na hora que foram para a lua-de-mel. Acompanhei o banho do recém-casado, ajudei-o a se vestir. Pegou a bagagem, voltou-se
para olhar seu quarto de solteiro. Nó na garganta, dor insuportável na parte de trás do joelho, lágrimas subiram e comecei a falar fino. Disse para mim: ‘Começou.’

(Nota da Lúcia – dia 7 de novembro ele faz aniversário, razão pela qual eu repito esse texto, publicado quando ele se casou, em julho de 2000, para dizer que sou louca por ele.

POLÊMICAS
As reações do Prefeito Sidnei Rocha na nova Rodoviária e sua avaliação sobre vereadores, não foram delicadas. Bem, ele sempre se preocupou mais em ser competente que bonzinho. Avaliando a cidade, deu certo. E média, para ele, é só o café com leite. Nunca primou pela paciência com a mesmice e burrice, nunca deixou de se manifestar com todas as letras e sílabas, veemência e paixão. Mil vezes transparência, que alfinetadas e indiretas.

PARADEIRO
Um dos pavilhões da Francal recebeu, oficialmente, o nome de Américo Pizzo, cidadão que trabalhou durante anos para a empresa que, nascida aqui, mudou-se para São Paulo em 83. Durante a administração anterior, a placa com o nome dele sumiu. Apagaram a memória daquele trabalhador. Ninguém sabe dizer de quem foi a iniciativa de fazer desaparecer placa, nome e lembrança do digno cidadão. Nem apontar o paradeiro da placa.

NOMINAÇÕES
É preciso definir os sentimentos. Não defini-los significa mantê-los fantasmas, que são imbatíveis. Convém dar nome e identificar aquilo que se sente, para poder combater a angústia que provocam. Comecemos: ‘Ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é não querer que o outro tenha.’ (Zuenir Ventura).

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários