Desgaste inútil: discussão entre o prefeito e funcionários da Cometa


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O que realmente importa é que tudo o que houve jamais poderia ter acontecido. Não com o prefeito na condição de protagonista
O que realmente importa é que tudo o que houve jamais poderia ter acontecido. Não com o prefeito na condição de protagonista

‘Reagir com raiva costuma não dar certo.
Sem ódio, agimos de modo mais eficaz’
Dalai Lama,
líder budista


O prefeito Sidnei Rocha (PSDB) entregou numa bandeja aos seus adversários toda a munição de que precisavam para infernizá-lo até o término do mandato. De quebra, ‘ganhou’ de presente um inquérito policial que, ainda que conclua por sua inocência, tem potencial para aborrecê-lo e criar constrangimentos por muitas semanas - e, claro, chegar com todos os seus reflexos ao período eleitoral. Tudo isso por conta de uma discussão inócua sobre um assunto irrelevante: a cor da parede e a afixação de avisos no guichê da viação Cometa no terminal rodoviário.

É impossível saber neste instante o que aconteceu, de fato, na tarde do último dia 19 no terminal de ônibus. Como o prefeito se recusa a comentar o que houve, tem-se apenas a versão de seus acusadores - e um vídeo, que nada revela além de pouco edificante troca de insultos. Mas como as imagens - gravadas por quem acusa Sidnei Rocha - não mostram o início da confusão, não dá para saber porque a situação chegou ao ponto de ebulição.

São distintas as versões, todas plausíveis, e nenhuma certeza. O ponto comum entre elas é que o prefeito fiscalizava as obras de reforma da rodoviária quando, por alguma razão, se indispôs com dois funcionários da Cometa. Houve mútua troca de ofensas e uma quantidade considerável de provocações perpetradas pelos funcionários que o acusam de agressão. O resto é pura conjectura. Mas independente da realidade dos fatos, o que realmente importa é que tudo o que houve jamais poderia ter acontecido. Pelo menos, não com o prefeito de Franca na condição de protagonista.

Ninguém espera de Sidnei Rocha um comportamento pacificador, do tipo ‘deixa disso’. Não é da sua natureza. Sidnei Rocha é brigador, um homem do confronto e da batalha. Ele não apenas é assim, como também gosta disso. Foi com estes atributos que construiu sua imagem pública e é por essas características que foi eleito - e reeleito - prefeito. Recuperou as finanças e a autoestima do francano, impulsionou a cidade e virou uma quase-unanimidade. É certo que o bom momento econômico que o país experimentou, alavancado pela gestão eficiente do presidente Lula, também contribuiu para um resultado favorável, mas seria injusto afirmar que o cenário nacional foi preponderante para os resultados de sua gestão. Os méritos são dele - e de sua equipe. É um feito.

Ainda assim, e por mais que seu temperamento explosivo tenha gerado, eventualmente, bons resultados, é bastante desagradável assistir ao prefeito de Franca discutindo de forma áspera com dois funcionários no meio da rodoviária. Pior ainda é constatar que, depois do incidente, estes foram demitidos da empresa onde trabalhavam, ainda que, oficialmente, não haja conexão entre uma coisa e outra. O mal estar resultante independe de razão, de pertinência, de causa e efeito.

É verdade que o prefeito é uma autoridade e, como tal, não deve ser desrespeitado, mas também é verdade que, exatamente pela liturgia do cargo que ocupa, expor-se gratuitamente deveria ser comportamento fora de cogitação. No caso de Sidnei, trata-se de uma situação paradoxal. Dos últimos prefeitos, talvez ele seja o mais devotado à simbologia do cargo que ocupa. Nunca se ouviu falar de indiscrições com relação à sua vida privada, ninguém o acusa de ser mau pagador, não se tem notícia de bebedeiras, escândalos ou outros comportamentos incompatíveis com a função pública para a qual foi eleito. Exatamente por isso é incompreensível que Sidnei Rocha insista em andar sozinho, como se fosse fiscal de obras e não a autoridade máxima da cidade, batendo boca com munícipes aqui e ali. Quase sempre sem assessores e acompanhado apenas pelo motorista, Sidnei Rocha expõe-se por todos os cantos, como se a Franca que governa hoje fosse a mesma província que comandou há trinta anos.

É erro grave. Os tempos são outros, a população multiplicou-se e, apesar da aprovação maciça que ostenta, o número daqueles que desgostam do estilo ‘Sidnei Rocha’ tem crescido, muito por conta da sucessão municipal que se aproxima. Além disso, nunca é demais lembrar que a época do ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’ está definitivamente sepultada no passado. Vivemos um outro momento, em que as hierarquias estão menos sedimentadas e as autoridades, muito mais vulneráveis. Andar acompanhado por uma equipe mínima que possa ajudá-lo, inclusive, a distender ânimos mais exaltados, não é sinal de fraqueza, mas de prudência, virtude que se espera de qualquer um e, em doses muito maiores, de quem lidera.

Agora é hora de juntar os cacos, o que não será tarefa fácil. Há dois funcionários demitidos que o ameaçam com ações indenizatórias, há um inquérito policial em curso, há um vídeo que certamente será bastante reproduzido no período eleitoral por quem deseja se sentar em sua cadeira. Sidnei Rocha caminha para o final de seu mandato, mas ainda há muito trabalho pela frente. Concluir a reforma da rodoviária, entregar o novo pronto-socorro, resolver o imbróglio do viaduto e manter o controle das finanças são desafios consideráveis que, se vencidos, podem fazer de sua gestão uma referência por muitos anos. Bater boca no meio da rua é deslize inútil que pouco contribui para lustrar sua biografia.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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