P*ta m**da!


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Lembrei-me de papai. Sinal de saudade, a despeito da necessidade de, às vezes, olhar para a foto no porta-retratos e redesenhar seu rosto na memória

Ele partiu há quase trinta e cinco anos. Sujeito engraçado. Cheio de contradições e incoerências: doce e amargo; chocolate com pimenta; saco de estopa e cetim; organdi e ban-lon; terremoto e brisa do coqueiro. Bonito de doer. Ensinou-nos o valor da humildade, sem com isso sequer insinuar que tenhamos posto em prática suas lições. Na observação e imitação dele, aprendi a fazer pipa, dessas de voar alto; a gostar de rir, de música italiana e dos mariachis, a não dispensar cerveja. Só não consegui torcer pelo Palmeiras: sou uma ingrata.

De tanto ouvir, aprendi a usar sua expressão mais recorrente, daquelas que - faladas ou escritas, remetem de imediato à sua pessoa: impossível ouvir a frase, sem pensar nele. Quando me assombro; quando levo susto de satisfação ou insatisfação; quando o arrebatamento me assalta; quando me surpreendo, de forma positiva ou negativa - sabe? - eu a uso.

Diante da Monalisa, falei alto, todo mundo ouviu, mas ninguém entendeu. Ao assistir concerto da Sinfônica de Franca, no comecinho da abertura, exclamei baixinho e ninguém ouviu. Ao subir na duna mais alta dos Lençóis Maranhenses, gritei, mas não tinha uma alma para ouvir. Do alto do Vale da Babilônia, na Canastra, berrei, o eco repetiu. Mais recente, no Cirque de Soleil, atônita com a beleza e surpresas do espetáculo, a frase escapou dos lábios e a neta mais próxima exclamou um ‘nossa, vó!’, que me deixou envergonhada.

Papai, simples e humilde no trato com as pessoas, à moda antiga usava tratamento cerimonioso para seus superiores na hierarquia do banco onde trabalhou. Nunca chamou amiga de minha mãe pelo nome e até as minhas, pouco mais velhas que sua filha, ela as tratava por dona e senhora. Porém, quando ficava excitado, maravilhado, surpreso, emocionado, muito alegre ou muito bravo - com, diante de, por e para contar alguma coisa de estarrecer, ele usava a expressão: ‘P*ta M**da!’, com todas as letras, no maior e bom som que podia, perto de qualquer medalhão. Aprendi com ele. Não é palavrão. É expressão eclética, simultaneamente sinal de surpresa, alegria, estarrecimento, dor ou susto.

O dia do noivado marcaria a primeira visita dos pais do até então namorado à minha casa. Meus pais eram despojados e de origem simples, amedrontaram-se com a possibilidade de gafes. Nós, os filhos, apavoramo-nos com a possibilidade de papai usar a tal expressão na frente das visitas. Foi aquela doutrinação. ‘Olha pai: cuidado! Os pais dele são gente finíssima, mas são protocolares, mais contidos, não falam palavrões’. Ele retrucava: ‘p*ta m**da não é palavrão’. ‘Eles acham que é, pai.’ As visitas chegaram. Papai, num dia de cavalheiro, mostrava-se ao longo da noite emocionado e feliz. Algum espírito brincalhão inspirou meu futuro sogro que, à procura de assunto, perguntou a papai: ‘Viu o jogo Palmeiras e Guarani ontem?’ O time verde tinha vencido com histórica vantagem. Pura felicidade, papai arregalou os faróis azuis, abrindo os braços, exclamou: ‘P*TA M**DA!’, tão alto, que os vizinhos do prédio, ouviram. Olhou para mim e pediu: ‘desculpa, filha!’.

Dia desses, estatísticas de mortes e acidentes no trânsito francano, tiraram-me o fôlego. No imaginar a intensidade da dor dos que perderam familiares e sequelas dos sobreviventes, desculpa, a revolta foi insopitável. Das entranhas eclodiu a expressão. P*ta m**da!

1 A 12
4 de outubro, Dia do Cão – ‘ O maior amor é de mãe, depois o de um cão e depois o da namorada.’ (Provérbio polaco). 7 de outubro, Dia dos Idosos – ‘Envelhecer é como morrer afogado - sensação realmente deliciosa depois que você para de se debater.’ (Edna Ferber). 11 de outubro,Dia do Deficiente Físico – ‘...Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido.’ (Rubem Alves). 12 de outubro, Dia da Criança – ‘Que coisa idiota a expressão ‘Fulano não passa de uma mera criança’. Ninguém diz de Sicrano ‘Ele não passa de um mero adulto’ (Fran Lebowitz).

13 A 18
13 de outubro, Dia Nacional do Dinheiro – ‘Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho certeza.’ (Oscar Wilde). 15 de outubro, Dia do Professor – ‘Ninguém sabe tudo. Nós aprendemos uns com os outros’ (Paulo Freire). 18 de outubro, Dia do Médico – ‘A arte da medicina consiste em distrair o paciente enquanto a Natureza cuida da doença.’ (Voltaire).

20 A 28
20 de outubro, Dia do Poeta – ‘Tenho certeza de que a poesia é indispensável, mas não me pergunte por quê.’ (Jean Cocteau). 22 de outubro, Dia do Radio Amador – ‘Rádio amador: o que é? É o avô dos Internautas. A máquina - rádio-amador; operador ou operadora - alguém com codinome e disposição para conversar com o mundo inteiro; função - várias: desde jogar conversa fora, até auxiliar pessoas com necessidades vitais. On-line! Outras informações, só com tio ou tia mais velhos; avô ou avó. Quem sabe guardaram uma máquina destas?’ (Anônimo).

29 A 31
29 de outubro, Dia do Livro – ‘Alguns livros são do tipo que, quando você os larga, não consegue pegar mais.’ (Millôr Fernandes). 30 de outubro, Dia do Comércio – ‘O verdadeiro comércio era o escambo: dou-lhe o que você precisa em troca do que me faz falta. O valor era auferido às coisas através desta transação. E a moeda era simplesmente isso: a necessidade pessoal. Bons tempos...’ (Prof. Clésio Fonseca). 31 de outubro, Dia das Bruxas – ‘Uma bruxa é fruto do amor entre a Terra e a Lua.’ (Mar-Garet Andreas).

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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