Nem que seja para ganhar dinheiro, muito dinheiro; nem se me prometerem realizar meu desejo de extinguir a bandalheira e farra do governo brasileiro, a resposta continuará ‘não’
Nada, nada me tentaria a ponto de me fazer topar voltar no tempo e viver as experiências da adolescente de 15 anos que minhas netas não acreditam, mas já fui. Claro, há coisas tentadoras: beijar meus pais, andar pisando em nuvens, rever amigos, conversar na porta de casa até tarde, subir na jabuticabeira, goiabeira e mangueira feito lagartixa, comer fruta no pé e quebra-queijo sem ter medo de quebrar dente, comprar uva-de-macaco e mastigar a fibra cheirosa, nadar no córrego dos Bagres, frequentar a piscina do seu Antônio na General Carneiro, guardar a chave de casa no vaso de samambaia, encerar a casa com Parquetina, usar Cashmere Bouquet, tomar banho com Lifebuoy, fazer planos mirabolantes para fugir de casa e ir morar sozinha numa cidade distante onde ninguém me conhecesse - essa era a melhor delas...
Lógico, há coisas maravilhosas: dançar ao som do Laércio de Franca, fazer serenatas com meus amigos, usar salto alto pela primeira vez, ter cintura fina de pilão, insubordinar-me contra a bibliotecária do IETC que não me deixava nem chegar perto do Jorge Amado, roubar o Amante de Lady Chatterley do fundo da gaveta de mamãe. Sem dúvida, há coisas deliciosas, feitas às escondidas: ir à Colegial, ao footing da Praça Matriz, dar bola para rapaz muito mais velho e sacana, contrariar preceitos familiares e correr riscos pegando carona.
Todavia, a possibilidade de voltar no tempo, principalmente aos anos 60, me dá calafrios. Sobram-me motivos para afirmar que se Martin Mcfly me convidasse, eu não toparia. Se eu voltasse para aqueles anos teria que voltar a tomar, como todas as mocinhas da época, Vaca Preta, a mistura de Coca-cola com sorvete. Até arrepio: a espuma que se forma ao redor do copo tem a aparência da espuma da sujeira que se forma ao redor do ralo da pia, quando está entupida. Teria que usar vestidos piniquentos, cujos tecidos são a cara das cortinas de richelieu da casa da minha avó e modelos que faziam-nos parecer capa de bojão de gás na época - por causa da cintura fina - ou capa de liquidificador, dessas compradas nas lojas de R$ 1,99.
É só olhar as fotos de antigamente. Estremeço ao lembrar. Para executar os mirabolantes penteados, cuja forma na nossa cabeça fazia os moços perguntarem atrevidamente ‘vaca voa?’, seria uma odisséia. Teríamos que ficar com bobs na cabeça o dia inteiro – olho a dona Florinda do Chaves, e tenho vontade chorar –, usar cerveja como fixador capilar e pôr, depois da cabeleira seca, como enchimento para o coque ficar alto, rolo de Bombril inteiro sob o cabelo desfiado. É mole?
Teria que abdicar da delícia de ter carro – todo mundo andava a pé. Não poderia usar calças compridas – era roupa de homem. Teria que comprar um conjuntinho de ban-lon – toda mocinha tinha – e o tecido sintético entrava nas felpinhas da unha. Odiava o meu. Teria que usar Modess – absorvente higiênico para menstruação – que parecia colchão, de tão grosso – bandeiroso demais! E seria obrigada a concordar que manga verde com leite faz mal. Não. Definitivamente, não!
TRÂNSITO
Marcelo mudou-se para Franca ao acompanhar a esposa, funcionária pública. Era taxista em São Paulo e continua aqui com a mesma profissão. Diz que nunca viu trânsito pior. Que o motorista francano não tem educação; faz conversões como bem entende; pouco sinaliza suas intenções; atravessa sinais fechados; se crê superior: ou mais jovem, ou mais velho, ou carro melhor, etc; ultrapassa pela direita; corta a frente dos outros veículos; desrespeita limite de velocidade; desconhece o significado dos sinais de trânsito. Diz também que há razões para as tristes estatísticas de mortes por acidente.
LP
“Louco por você”, raríssimo LP de 1961, gravado por Roberto Carlos, nunca foi relançado em CD, nem regravado em vinil. Dizem, o Rei quer morrer quando falam nele. Ruinzinho mesmo, e ele tem razão. O produtor do disco bastardo, Carlos Imperial, também assina o primor de rock intitulado Ser Bem, composto quando o Rio ditava normas, condutas e comportamento para a alta sociedade brasileira. Um horror a melodia. Letra medonha.
ROCK
‘Ser bem é no Copa debutar. É sair todo domingo/ Na revista do Couchar. Ser bem é andar de Cadillac. É dizer que está ‘in love’/ Mesmo que seja de araque. Toda garota bonitinha tem mania/ De ser elegante da Bangu. Quer ver o seu nome/ Na coluna todo dia/ Pertinho do Jorginho, ao lado do Didu. Ser bem é na Hípica jantar. É no Jockey desfilar/ E de noite no Sacha’s com Baby juntinho dançar./ Mamãe que quero ser bem!’
VERBO
Recomeçar. Existe verbo com significado mais bonito? Começar de novo. Possibilidade de fazer melhores escolhas; plantar flores diferentes; ir por outros caminhos; rescindir erros e repetir outros. Fazer o que não se quis ou deixou de fazer por orgulho, besteira, incompetência ou preguiça. Ou medo. Há pouco descobri que posso conjugá-lo todos os dias, de maneiras diferentes e ainda escolher se aquele específico recomeçar será transitivo direto, indireto, intransitivo. Ou predicativo - do sujeito ou do objeto.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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