Cheiro de rosas


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Foi por volta do começo dos anos 70. Haveria um noivado na família, pais e parentes da noiva tinham relação de amizade com Chico Xavier

Sabia-se, ele viria à cidade fazer a cerimônia de troca das alianças. Faz tempo, isso. Foi naquela época em que noivado era o período que antecedia o casamento, caracterizado pelo uso de alianças na mão direita. Cerimônia interessante: o rapaz – que todo mundo estava careca de saber namorava a moça e tinham, ambos, intenção de casar mais cedo ou mais tarde – iria com seus pais e família, num dia marcado, ‘pedir a mão da moça em casamento’ para os pais dela.

Concedida a mão, fazia-se festa. Naquela, em particular, as atenções estavam divididas entre o noivado propriamente dito e a presença do médium espírita. A figura de Chico Xavier impressionava de imediato. Estatura mediana, já assumira o uso de chapéu de lã parecido com o modelo inglês ivy cap, aquele usado por Sherlock Holmes. Óculos. Calado, observava tudo, principalmente as pessoas. Falava, só quando abordado. Tímido, tentava passar despercebido entre os convidados. Feito o noivado, espalhamo-nos pela casa, não me lembro bem das suas palavras durante o culto, acho que eu estava distante e ele quase sussurrava.

No dia seguinte agendaram-lhe visita à minha sogra, cuja residência ficava perto daquela da família anfitriã do ilustre visitante. Visita no mínimo bizarra. Ela era católica de carteirinha, tinha medo das manifestações que, diziam, Chico Xavier provocava. Mas ele foi. Solicitado, fez uma oração. Quem estava na sala, no mínimo ficou arrepiado. De repente, um cheiro de éter muito forte inundou o ambiente e, em seguida, um suave perfume de rosas o substituiu. Ele parecia levitar. Impressionante. Distribuição de casa modelo antigo, da sala onde estávamos, vimos quando algum tempo depois ele se dirigiu ao banheiro. Foi, não encostou em nada no curto percurso, voltou para onde estávamos. No dia seguinte, e por muitos dias ainda, a água que era retirada da talha colocada no pequeno hall de distribuição onde havia portas que conduziam ao banheiro, ao quarto de costura, outra à cozinha e por onde ele passara, cheirava a rosa. Reposta várias vezes, não perderia o perfume. Insípida, incolor, todavia cheirosa. Incrível. Memorável.

O tempo passou, muitos anos passaram. Nem por isso meu coração se comoveu. Tive avós espíritas, não herdei deles a fé. Vovó Ritinha, avó materna, participava das reuniões do Centro Espírita Amor e Caridade, em Uberlândia. Chico Xavier tinha afeto especial por ela. Todos os livros que publicava, autografava e enviava para sua casa. Aprendi a reconhecer, quase quando comecei a ler, a delicada e redonda letra da assinatura de Chico.

Os livros de vovó foram minha parte da herança, deixada quando ela partiu. Durante reforma de casa, fui remanejá-los na estante. Do topo da escada, pegava um monte deles de um lado, organizava, colocava do outro lado. Cada título me lembrava vovó falando, vovó brincando comigo, vovó sorrindo, me fazendo carinho, me chamando de boba e de teimosa. Um deles, escapou-me da mão. Foi para o chão, onde caiu aberto. Um forte cheiro de rosas saiu do livro e me atordoou. Justifiquei-me que devia ser um pedaço de papel embebido em perfume, guardado ali dentro. Disse a mim mesma que estava imaginando coisa.

Desci da escada, era livro de Chico, autografado para vovó, pedindo-lhe orações. Deu-me baita saudade dela e uma vontade muito grande de também pedir-lhe orações e perguntar-lhe sobre a vida, sobre filhos, sobre tudo: volta e meia as coisas ficam muito sem sentido para mim. Histórias e considerações que me vieram à memória quando senti perfume de rosas vindo do jardim, enquanto me preparava para escrever.

TOP
Amanhã, dia 10 de setembro , a grande festa Top Franca, promovida por este Comércio da Franca. Festas do gênero mexem com todos os setores da cidade, além de exaltar e reconhecer publicamente aspectos louváveis que tornam especiais alguns cidadãos francanos. Comércio e serviços se mobilizam para a realização da grande noite. Preparados: o traje e as mãos para os aplausos.

CURIOSIDADE
As versões do filme Anna e o Rei do Sião (The King and I) – a de 1946 (Irene Dunne e Rex Harrison) e o musical de 1956 (Débora Kerr e Yul Brynner), são proibidas na Tailândia. Segundo as autoridades tailandesas há neles imprecisões históricas e, pior, a descrição do rei Mongkut denigre e banaliza o monarca e a família real. Além daqueles, o desenho animado e a versão de Jodie Foster e Chow Yun-Fat, de 1999, provavelmente sofrem a mesma censura, já que são todos baseados no saboroso livro homônimo de Margareth Landon, americana, escrito em 1944.

MINICONTO 1
‘Era uma vez um rapaz que pediu uma linda moça em casamento. Ela disse ‘Não!’. E o rapaz viveu feliz para sempre. Foi pescar, jogar futebol, conheceu muitas outras garotas. Viajou, conheceu muitos lugares, estava sempre sorrindo e de bom humor. Nunca lhe faltava grana, estava sempre rodeado de amigos, sem pressa em voltar para casa. Fazia o que queria, ninguém mandava nele. A moça teve TPM, celulite e varizes. Engordou.’ Há alguma dúvida de que o conto foi escrito por homem?

MINICONTO 2
‘Era uma vez uma moça que perguntou a um rapaz: ‘Quer se casar comigo?’. Ele disse: ‘Não!!!’ E a moça viveu feliz para sempre. Viajou, fez compras, namorou, conheceu lugares, morou na praia, trocou de carro, redecorou a casa. Sorria e estava sempre de bom humor: não tinha sogra; não tinha que lavar, passar; bebia champanhe com as amigas e ninguém mandava nela. O rapaz ficou barrigudo, careca, impotente, sozinho e pobre: nenhum homem constrói algo sem uma mulher.’ Entendeu?

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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