O amor nunca morre


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Fiz o teste. Antes preciso contar a história. Minha filha estava no Canadá, eu estava de viagem marcada para lá, ia visitá-la

Ela pediu que eu levasse uma roupa muito bonita e muito chique porque passaríamos por Toronto, incluída no roteiro porque tínhamos que ver lá um musical maravilhoso, do qual todos os jornais e revistas falavam. Só para aguçar o desejo, informou que iríamos à mais antiga casa de espetáculos da cidade que ficara fechada décadas e fora restaurada para receber a peça.

Participaríamos da inauguração, noite de gala. O musical se chamava O Fantasma da Ópera e o vestido dela, que também teria de ser chique, poderíamos comprar na Eaton’s, mesmo. Ah! E que o jantar era por conta dela. Imaginei que seria no McDonald’s. O teatro sofrera primoroso e demorado trabalho de restauração: ao entrar naquele ambiente art nouveau - luzes, espelhos, mármores, metais e flores - senti-me transportada para o começo do século passado. As mulheres, com roupas longas e casacos de pele, brilhavam no escuro e no claro - antes, durante e depois do espetáculo. Os homens usavam smoking, gravata borboleta, cabelos penteados para trás, sobretudo preto e cachecol de seda branca. Procurei por Stewart Granger: ainda não conhecia Colin Firth.

Ambas nos apaixonamos pelo Fantasma da Ópera - peça e o próprio. Fiquei infeliz com o final da história: achei Raul, o namorado de Christine, um chato de galochas, ele não merecia ficar com ela. Péssima escolha! Mil vezes o instigante Fantasma, pensei. As músicas são maravilhosas e a chatinha All I Ask of You (que Raul canta com ela) não chega aos pés do The Phantom of the Opera, com a qual o Fantasma a seduz.

Recentemente O Fantasma da Ópera ganhou continuação. Não sabia. Com músicas do mesmo Lloyd Webber, chama-se Love Never Dies. O Fantasma não morreu como foi sugerido na primeira peça. Fugiu e foi para Coney Island, onde montou teatro. Lá um dia, dez anos depois, Christine, casada e com filho, recebe convite anônimo para cantar nos EUA. Proposta irrecusável: está pobre, Raul é alcoólatra e perdeu todo o seu dinheiro. Quem a contratou? Um picolé se acertar... Fantasma e Christine se reencontram antes do espetáculo pelo qual ela receberá uma fortuna e tirará o pé do lodo. E aqui entra o teste, ao qual me referia: nenhuma mulher, entre todas que viram o primeiro espetáculo e para quem tive oportunidade de relatar a continuação que, como eu, desconheciam, deixou de suspirar fundo.

Quando conto como e quando se reaproximam e se mostram novamente insuportavelmente atraídos, a expressão delas é misto de surpresa, alívio e (muita) alegria. Todas nós torcíamos - embora algumas em segredo - pelo Fantasma. Era o óbvio, não me dei conta: que mulher não se apaixona por fantasma? Criamos mentalmente a personagem, colocamos nela tudo que nossa alma feminina deseja ver no homem amado: paixão, determinação, coragem, ousadia, romantismo, delicadeza, garra, perseverança, sensualidade, sensibilidade, sinceridade, dinamismo e amor.

Fantasmas não existem? Nós os criamos... A frustração é que, embora estejam nos nossos sonhos, são os Raul que nos acordam nas manhãs. Ah! E o pai do filho de Christine é o Fantasma. Como diria minha amiga, de forma insinuante: ‘Entendeu?’

1. ‘Jaqueline Roriz foi inocentada. Graças a Deus: cheguei a pensar que o País estava tomando jeito!’ (Publicado no Facebook)
2. A dama em questão - deputada federal pelo PMN-DF - foi flagrada em vídeo recebendo dinheiro no conhecido esquema ‘Mensalão do DEM’. Pois não é que foi absolvida por 265 votos contra 166 e 20 abstenções, da acusação de quebra de decoro parlamentar? Dizem, ela teria ficado ‘emocionada e satisfeita’ com a sábia decisão dos colegas, que votaram de forma secreta.
3. Para o deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP), ‘é evidente que o voto secreto contribuiu para a absolvição. O Parlamento se afasta da sociedade quando utiliza o voto secreto, fica na contramão da vontade da sociedade. O melhor caminho é acabar com o voto secreto.’ Discordo: o melhor caminho é acabar com os deputados. E senadores. Senão eles voltam: olha o Zé aí; olha o Palocci aqui; olha o Sarney ali.
4. Não será apenas ‘o voto que acabará com a nojeira existente na Câmara e no Senado’ (Cláudio Bindemann no Facebook). Concordo: é preciso dar Educação e ensinar Ética e Moral aos jovens, porém os jovens precisam estar conscientes, lúcidos, caretas e com disposição para ouvir-nos. ‘Estamos cansados de tanta corrupção! O povo não tem mais paciência’ (O mesmo Cláudio). Discordo: quando começa novo BBB o povo descansa. Quanto à paciência, o povo tem sim: basta ler os índices de aprovação popular que os maiores corruptos brasileiros apresentam.
5. Noel - Poeta da Vila. Rafael Raposo e Camila Pitanga fazem Noel e Ceci. Durante os diálogos, as insinuações da origem da inspiração para várias frases e sentidos de sambas - seus e de companheiros - que se tornaram clássicos da MPB. Muito divertido descobrir cada uma delas, durante o filme. Trecho de Não tem Tradução, do próprio: ‘Essa gente hoje em dia que tem a mania de exibição; não entende que o samba não tem tradução no idioma francês. Tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro: já passou de português. Amor lá no morro é amor pra chuchu; as rimas do samba não são I Love You. E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny... só pode ser conversa de telefone!’

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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