Os sentidos de necessário, prático, fundamental, supérfluo, funcional e seus relativos andam embaralhados na minha cabeça
Limpar meu ambiente de trabalho ou doméstico é necessário. Para limpar legal, devo ter instrumentos práticos, bem como eliminar o supérfluo para realizar um serviço de manutenção adequado. Seria fundamental, portanto, para simplificar o futuro, deixar de comprar coisas desnecessárias. Ficar apenas com o funcional. Seria.
Descobri que ando em tempo de charme, de vaidade, adoro estar rodeada de coisas inúteis, desnecessárias, encontrei um prazer imenso em pecar pelo excesso. Não foi descoberta elaborada. Foi constatação surgida quando, por problemas afetivos, resolvi pôr ordem nas minhas propriedades. Abri portas e gavetas fechadas (e bagunçadas) por longo tempo. Ao selecionar os objetos, tentei me lembrar das razões pelas quais os havia adquirido. Alguns, comprei para ‘quando’ precisasse. A maioria desses quando ainda não chegou. Não custa esperar que me cheguem. Só para dar idéia da tranqueira, tenho armazenado kit alemão de ‘agulhas para consertar sofás e poltronas’. Pode? Possuo discos que nunca ouvi. O de grupo musical do Congo, em particular. Não entendo uma palavra e me dá desespero ouvir aqueles tambores repetindo a mesma cadência. Pego o disco, fecho os olhos, lembro-me da cidade onde o comprei, da tarde linda que fazia, da companhia agradável da minha filha. Ouvir, jamais. Guardo o ícone da recordação. Há livros que nunca abri. Folheio, mas não percebo qual a razão para ter gasto dinheiro com eles. O do Paulo Coelho, em especial.
Implicam, rebato repetindo a orientação de vovó: ‘Quem guarda o que não presta, tem o que precisa’. Precisam de tirinhas de plástico - daquelas que fecham saco de biscoito - para amarrar o raminho da orquídea? Tenho! Chave de fenda estrela? Papel para embrulhar presentes? Fitas e Flores? Tenho, também. Guardo roupas de época, revistas antigas, bilhetes de amor dos filhos recém alfabetizados, perucas, bijuterias. Superei vovó na arte de guardar quinquilharias. A última foi comprar radinho de mesa, igual ao dos meus pais, de quando eu era menina - fio terra para segurar e tudo. Formato antigo, sintoniza AM e FM, opção que não havia naquele tempo. Não ouvirei César Ladeira, nem de Alencar. Nem Parada dos Maiorais, Balança Mas Não Cai. Só de olhá-lo, mesmo desligado, lembro-me de tempo feliz. Isso não tem preço... E, em plena era MP3, ver uma neta virar e revirar o dial do radinho e, ao ouvir a chiadeira perguntar ‘O que é isso, vó?’ é como dar sinal de partida para eu contar histórias de antigamente. Toda avó precisa ter radinho de mesa! (Releitura de texto publicado em 1998)
PAIS
‘Pai nosso que está em nossa vida, santificada seja essa sua presença. Venha a nós a sua assistência, seja real o reconhecimento do seu esforço, assim em casa, como no seu trabalho. Que venha sempre de Você a nossa alegria. Que tenha sempre saúde e sabedoria, e que nos sirva de exemplo, em cada dia. Perdoe nossas ofensas, assim como perdoaremos nossos filhos que um dia poderão nos ofender. Que a gratidão e o agradecimento por seus esforços permaneçam por todo o sempre. E que, ao louvarmos sua imagem em nossos corações, sua presença se torne constante tanto em nossas vidas, quanto na de nossos descendentes. Amém.’ (À guisa de homenagem tardia aos pais.)
JANET
Tinha acabado de ter bebê, ela foi me visitar. Eu não estava, ela deixou com meu filho de seis anos um presente para o nenê, e um beijo para mim. Quem era? Perguntei. ‘Não sei, mãe, mas era uma mulher de novela.’ Foi fácil descobrir. Era Janet Pedro Jacintho, xará da Clair, mãe da minha amiga Carmen Lígia, da Bebé, do Mauro e do Jorge. A história ficou no folclore familiar e toda vez que nos encontrávamos, lembrávamos dela. Depois de período de dor, Janet partiu nesta quarta-feira.
ENDEREÇO
O presidente Lula teria comprado casa nos Jardins, em São Paulo, capital, para montar seu memorial. Primeiro, memorial é ato de consideração que acólitos e amigos prestam: fica descabido o próprio homenageado tomar tal iniciativa. No mínimo, impropriedade. Segundo, o endereço está errado: mais correto se fosse em São Bernardo, seu berço.
TEXTO
‘Agradecemos a presença dos nossos amigos na comemoração do 40º aniversário de nosso casamento. Agradecemos a disponibilidade demonstrada quando cada um se afastou da comodidade e conforto de seu espaço de origem, para o encontro conosco. Agradecemos partilharem conosco este momento e aceitarem viver a aventura, o incomum, o inusitado, com total desconhecimento das intercorrências dessa anuência, e o efeito das decorrências dessa aceitação que se assemelham tanto às circunstâncias da nossa própria escolha em 1971. Naquele ano optaram pela aventura a dois. Juntavam-se a coragem dele e o atrevimento dela; a tranqüilidade dele e a agitação dela; a moderação dele e a destemperança dela. (Não raro trocaram os papéis.) Como num conto de amor, aceitaram-se. Pactuaram. Conviveram. Respeitaram-se. Estão juntos ainda hoje quando a aventura deu lugar às certezas; o incomum passou a ser rotina; o inusitado transformou-se em conhecido e todas as razões se transformaram em emoções. Hoje tudo que faz sentido são os quatro filhos, os cinco netos, as noras, o genro e os amigos. E é por tudo isso que todos nós, hoje, estamos aqui. Nosso muito obrigado por terem vindo!’ (Texto meu, publicado hoje a pedido da Márcia)
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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