É muito divertido olhar a expressão das pessoas quando ouvem, em alto e bom som, que ‘é preciso pensar rico’, ao invés de ‘pensar pobre’
Passado o sobressalto, pois muitos concordam e poucos são ousados o suficiente para dizer ou declarar a mesma coisa, percebe-se que o susto provocado nem foi tão grande assim. Uma boa risada dá lugar ao risinho tímido inicial. As discussões sobre ‘riqueza’ e ‘pobreza’, sobretudo suas manifestações, variam em nível, pertinência e experiência. Em absoluto são polêmicas concernentes a questões materiais ou volume da carteira ou tamanho do cofre. Antes, sobre posturas, sobre atitudes diante de situações comuns. ‘Pobre’ pode se revelar ‘rico’ e ‘rico’ pode se revelar ‘pobre’, sob esse prisma, que dispensa a análise do saldo da conta bancária. Nesse sentido, ‘riqueza’ subentende tudo que dá prazer e sensação de plenitude – resguardados preferências e limites internos ou externos da experiência pessoal.
Pense sobre o assunto, sugiro, se é que ainda não pensou. Pré-requisito fundamental é ter bom-humor, nenhum rancor ou ranço de cultura pseudo-socialista. Faça sua avaliação e, se estiver com outras pessoas, observe as delas. O comportamento humano é variado, surpreendente, emocionante... Apresento, a seguir, sugestão de lista para o start da brincadeira.
Você: usa meia com chinelo? Encapou de plástico transparente o sofá da sala de visitas? Ainda usa a sala mais bonita de sua casa ... só para visitas? Comprou carro novo e não tirou o plástico dos bancos? Usa tom de voz mais alto que os demais, para dizer quanto pagou por seus bens? Por sua festa? Você acha que o valor da sua festa é mais importante que o prazer de tê-la feito? Você faz festa para se divertir ou ser comentada? Fica se comparando com outras pessoas? Gosta de levar vantagem? No trânsito, tem a delicadeza de dar passagem ao pedestre? Ultrapassa pela direita? Cruza a frente dos outros? Alardeia canos e dribles em qualquer vigilância? Tem prazer em ofender as pessoas, só para mostrar sua superioridade? Avalia e julga – segundo seu critério pessoal – a criatividade alheia? Na sua opinião, todos estão errados, só você está certo? Joga papel no chão? Invariavelmente atrasa nos seus compromissos? Confirma presença em eventos e não comparece? Os outros são meros turistas endinheirados, só você ‘viaja para aumentar sua cultura’? Quando essas pessoas contam suas viagens é exibicionismo; só você ‘está socializando seu conhecimento’? Deixa o celular ligado em locais que se pede silêncio? Todo mundo perto participa de sua conversa ao celular? Só compra produtos com a marca bem visível? Tomar whisky é burguês; brasileiro devia era tomar pinga mesmo? Fala alto com quem considera ‘inferior’ socialmente? Não se contém nas críticas, principalmente sobre pessoas ausentes? Compra livros com títulos estranhos, só para impressionar seu amigo intelectual? Deixa de frequentar um bom restaurante só para não ser visto ali? Priva-se de um bom vinho para não dar o braço a torcer?
A lista poderia continuar e ir longe. E há quem prefira passeio no zoológico, como diversão. A fauna humana, convenhamos, é muito mais divertida.
IRREVERÊNCIA
Jacinto de Thormes – Manoel Bernardez Müller ou Maneco Müller (1923-2005) – é criador do moderno colunismo social brasileiro, notas curtas, sobre assuntos diversos. Popularizou a ‘lista das mais elegantes’. Marcas pessoais: bom humor, inteligência e irreverência. Cochichou ao ouvido da Rainha Elizabeth. Foi assediado por Tenesse Williams. Marcou encontro com Gilberto Freyre só para lhe perguntar quem chegaria primeiro à presidência do Brasil: um negro ou uma mulher. Seu cachorro se chamava William Shakespeare Júnior. E sempre aparecia nas fotos usando pijama listrado. De seda.
PATRÍCIA
É o nome da música do repertório de Perez Prado, o mesmo de Cerejeira Rosa, Mambo Jambo, Mambo n 5. Anos Dourados, tempo de chá-chá-chás, a Patrícia faria parte da trilha sonora do sucesso de Fellini, La Dolce Vita. Tem letra em italiano, quem canta é Gigliola Cinquetti. Em português há duas versões: a de Ivon Cury de 1958 e outra, mais recente, de Caetano Veloso. Consigo ouvir Ivon Cury cantando, ao apelar para a memória. A versão de Caetano pode ser vista no Youtube. É só teclar Caetano Patrícia.
JALAPÃO
Já ouviu falar? Parque Estadual do Jalapão. Criado em 2001, é região quase selvagem do estado do Tocantins, de paisagens deslumbrantes. Chamam-no ‘deserto brasileiro’, embora seja cortado por rios, corredeiras e cachoeiras de águas límpidas e transparentes. Imensas dunas de areia, que lembram os Lençóis Maranhenses. Os aventureiros de casa voltaram contando maravilhas e curiosidades: é possível passar dias no Parque, sem cruzar com uma só pessoa: a densidade populacional é de 0,8 hab/km2. Imperdível.
LIVRO
Após indicação de A beleza salvará o mundo, de Tzvetan Todorov, a curiosidade pelo título, tema e autor. O título é frase de Dostoievski em sua obra O Idiota. O tema, histórias de três vidas passionais e trágicas: Oscar Wilde, Rainer Maria Rolke e Marina Tsvetaeva. O autor, filósofo e linguista búlgaro radicado em Paris, vencedor do Príncipe das Astúrias de 2008 – o maior prêmio de literatura da Espanha. Leitura adiada: na cidade de 330 mil habitantes não existe livraria. Estabelecimentos que também comercializam livros, embora com gentileza e disponibilidade, pedem-nos tempo para trazer as encomendas ‘de fora’.
MÁXIMA
‘O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.’ (Barão de Itararé)
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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