A coisa começa lentamente, toma forma e domina. Não duvide. De repente você se pega falando sobre o assunto e cumprindo ordens sem questionar. Você vira robô. Magrinho e abúlico
Um dia nutricionistas entram nas nossas vidas, quer dizer nas nossas cozinhas, dispensam nossas cozinheiras, esvaziam nossas geladeiras e olha a gente ali se submetendo. Quem diria, olha a gente aí torcendo o nariz para suculentas picanhas, lambuzados pudins, cheirosos drinques à base de coco fresco, para aquela maravilhosa lasanha - receita da Nona, rejeitando sorvete e substituindo esse cardápio por três passas (brancas), dois grãos de feijão (sem gordura), cinco folhas e meia de alface (das pequenas) regadas com um ‘nanoscópico’ fio de azeite (grego) e uma colher (de café) de arroz. Cozido. Tudo com pouco sal. Sobremesa? Fatia de massa mole sem cheiro, sem gosto, quase sem cor: gelatina?
Entrar na minha cozinha era semelhante a cruzar o portão principal da Disneylândia. Era entrar no Paraíso da Permissividade, pecar à vontade, sem qualquer medo de julgamento moral. Do lado direito, a geladeira menor: frutas prêt-à-manger descascadas e fatiadas (abacate inclusive); gelatinas coloridas (feitas com açúcar); compotas verdes (figo) e amarelas (pêssego); queijos (brancos, amarelos, embolorados); refrigerantes e cervejas; presuntos - o de Parma, inclusive; manteiga, margarina, requeijão, danones e danoninhos. No meio da semana era seguir o faro e achar iguarias como mousse de maracujá (as netas adoram). Nos finais, uma alternância: pudim de leite condensado (para o marido) ou manjar branco com calda de ameixas pretas (para mim). Uma torta ou outra, receitas de mamãe. Doce de abóbora, sempre, ora com coco - ralado, ora sem coco - em pedaço. Vez em quando, uma torta coberta com glacê de manteiga, salpicada com nozes moídas. No freezer, sorvetes. Sobre a bancada da pia, cestas de frutas - bananas, abacaxis, limões. Na outra geladeira - ao lado do fogão - vegetais, verduras, molhos, maioneses, queijo ralado, ketchups, mostardas, alcaparras, aliches, macarronada do almoço, torta do jantar, maionese, sobra do arroz, carne descongelando para entrar no cardápio do dia seguinte. Completando a volta, de volta à porta de entrada, eis sobre a prateleira ao lado da mesa da cozinha, a mini-padaria: vidros com bolachinhas, bolo em pedaços, biscoitos salgados. Meus filhos chegavam, iam direto para lá. Entravam e saqueavam, quando saíam deixavam aquela devastação. Era uma festa e farra gastronômicas. Ainda sonho com isso.
Eles nem têm vindo mais. Granolas, passas, sementes de gergelim, ração humana (pode?), pão integral, grãos diversos, geléias dietéticas, gelatinas diets, fatia média disso, porção pequena daquilo, adoçantes, ‘pense magro, pense magro!’ Minhas preciosidades gastronômicas, meus acepipes, foram trocados por estes termos que não têm calorias... e nem sonoridade: diga ‘nhoque’ ou ‘lasanha’ e depois ‘farelo de trigo’ ou ‘pouca gordura’.
Subir na balança, ver o ponteirinho descer, entrar na velha calça desbotada ou coisa assim é bom. Mas descer dela com profundas olheiras, respirar fundo para desviar o pensamento das perdas e prazeres do paladar é muito triste. Pior quando vem ao pensamento a certeza de que a vida é curta e que, dentre os animais, o homem é o único que tem o privilégio de decidir, escolher e preparar seu próprio cardápio. Não piso mais na grama. Não fumo. Não lavo calçadas ou deixo torneira aberta. Não posso mais dizer que meus bisavôs maternos eram negros. De repente todos que pusemos (e ganhamos) apelidos nos colegas de escola fomos algozes ou vítimas de bullying - com risco de prisão, se o tempo voltasse. Tornaram-se minhas obrigações atuais malhar, caminhar, vigiar a Amazônia, não jogar papel no chão, ficar magra e comer alpiste. Politicamente correta, virei eco-chata e agora - reeducanda alimentar. Isso não é vida.
ASPAS
‘É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar - bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês. Trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola...’ (Roberto Campos)
EXPRESSÃO
Amigo de muito tempo, publicitário criativo e conhecedor da natureza dos semelhantes, Lélio (primeiro nome dele) é responsável pela criação de muitas expressões curiosas, engraçadas e apropriadas, que revelam e definem as pessoas da, por vezes, magnífica fauna humana. Em volta da mesa, tomando cerveja e falando sobre conhecidas figurinhas públicas francanas e alienígenas que movem céus e terra para que ninguém esqueça seus passados deslumbrantes e não conseguem abdicar da glória um dia experimentada - já desaparecida - ele comentava: ‘Pois é. Gente que ainda não desceu do Opala...’
PASSAGEIROS
Fazem parte da lista de passageiros que ‘não desceram do Opala’ todos os ‘ex’ que não abdicam por nada dos títulos conquistados e não reconquistados, hoje vazios de glória e cabimento. Por exemplo, ex-donos; ex- eleitos para cargos políticos que não repetiram suas eleições; ex-ricos; ex-miss qualquer coisa - o título mofou, perdeu o sentido, as cortinas se fecharam e elas ainda procuram pelas passarelas. Por extensão, todo e toda ex-qualquer coisa cuja antiga notoriedade se transformou em experiência ultrapassada e sem sentido. Quem ‘não desceu do Opala’ também não percebeu que a ‘fila anda’.
OPINIÕES
Sabe quais são as três melhores coisas do mundo, segundo Roberto Carlos? Primeira: Sexo com amor. Segunda: Sexo. Terceira: Sorvete. Sabe por que, segundo Mário Prata, os spas são chamados de zoológico? Porque o usuário vira bicho: come feito um passarinho, ri que nem hiena e faz cocô feito cabrito.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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