É guerra


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A disputa pela prefeitura começou agressiva. Os prováveis candidatos parecem dispostos a matar ou morrer pelo privilégio de serem eleitos
A disputa pela prefeitura começou agressiva. Os prováveis candidatos parecem dispostos a matar ou morrer pelo privilégio de serem eleitos

‘A política é uma guerra sem derramamento de sangue;
a guerra uma política com derramamento de sangue’
Mao Tsé-Tung
, líder comunista chinês


O prefeito Sidnei Rocha (PSDB) voava em céu de brigadeiro até 15 dias atrás. Respaldado pela popularidade recorde e com caixa cheio após anos de gestão austera, Sidnei havia preparado com cuidado o anúncio de um pacotaço de obras com o qual pretendia, além de lustrar a própria biografia, também pavimentar o caminho para uma sucessão tranquila, onde fosse ele o protagonista principal - senão, o único.

Os mais de R$ 100 milhões em investimentos que anunciou na manhã do último dia 8 de julho vão transformar Franca num canteiro de obras. Uma cidade em obras é sempre uma cidade com otimisto em alta. E eleitores otimistas, resta óbvio, tendem a votar em alguém que mantenha o status quo. Bom para quem está no governo, melhor ainda para o candidato que conta com o apoio dele.

Grande estrategista, o prefeito Sidnei Rocha havia estendido ao longo dos anos seu raio de influência para muito além do seu PSDB de origem. Sidnei gosta de liderar a seu modo e a simples hipótese se ser refém de alguma estrutura partidária indócil fez com que desenhasse alternativas. Como há muito tempo o prefeito havia concluído que aves bastante inamistosas repousavam no ninho tucano, partiu para briga dentro de casa enquanto tratou também de criar opções para o caso de algum imprevisto. Para tanto, estimulou aliados e amigos fiéis a assumirem o comando de legendas pequenas e inexpressivas, mas capazes de garantir espaços e reforçar sua influência na hipótese nada improvável do tucanato local implodir.

Foi assim que transformou o então caquético PP (Partido Progressista) de Franca num partido com grande densidade e bancada de respeito na Câmara Municipal. Sob o comando de João Marcos Rodrigues, presidente da Emdef, e as bênçãos do prefeito, o partido fez 4 vereadores na última disputa. Agora, pretendia repetir a experiência bem-sucedida com o obscuro PR (Partido da República). A missão havia sido confiada ao secretário de Administração, Jerônimo Sérgio Pinto, que assumira a presidência do diretório municipal da legenda.

Sem opositores à altura, o prefeito parecia absolutamente confortável na posição de fiel da balança. O grande dilema seria definir qual nome ungir para defender suas bandeiras na disputa municipal de 2012. Até a última semana, os adversários representavam um problema menor. Desafio mesmo era identificar quem na sua imensa base de apoio teria envergadura suficiente para transformar em votos o apoio a ser conferido. E, claro, caso eleito, honrar no cargo o legado que vai herdar. Não seria por falta de legenda que os planos de Sidnei Rocha sucumbiriam. Se os espaços divididos com Roberto Engler ficassem apertados demais no PSDB, sempre haveria a possibilidade de recorrer ao PP ou ao PR para abrigar seus aliados. E, a partir dali, construir uma candidatura competitiva.

Os ventos dos últimos dias mudaram radicalmente. Duas ações, perpetradas por dois políticos ligados a partidos cuja estrutura em Franca Sidnei Rocha criou ou redefiniu, transformaram o céu límpido em horizonte com rajadas e trovoadas pra lá de cinzentas. O tempo fechou rapidamente. No entorno do prefeito, há sinais evidentes de irritação e revolta.

O primeiro golpe foi desferido na tarde de sexta-feira, 15 de julho. Uma articulação orquestrada por gente ligada à vereadora Graciela Ambrósio fez com que a executiva estadual do PP interviesse no diretório municipal do partido. Sem pedir licença nem apresentar grandes justificativas, o diretório estadual dissolveu o comando de Franca. E indicou, para comandar a legenda, ninguém menos do que a própria Graciela. Oficialmente, a vereadora disse que ‘desconhecia’ as razões da intervenção e insistiu que a decisão não tinha influência sua. Há quem acredite na versão dela. É pouca gente.

Bem mais fácil é encontrar quem tenha convicção de que, por trás de tudo, está a vontade da vereadora de suceder Sidnei Rocha. Arqui-rival do prefeito, Graciela acreditava que dificilmente conseguiria a indicação com o partido presidido por João Marcos Rodrigues. Com ou sem sua participação, o fato concreto é que o ‘golpe de estado’ no PP de Franca abriu para ela todos os caminhos.

Quatro dias depois, foi a vez do PR sofrer intervenção semelhante. Igualmente sem justificativas além daquelas derivadas do jogo político, a executiva nacional do partido decidiu dissolver o diretório municipal. O artífice da manobra tem nome, sobrenome e assume a autoria da ação: Marco Aurélio Ubiali. O deputado federal, eleito pelo PSB, articulou com os caciques do PR em Brasília a tomada de controle da legenda em Franca com um objetivo claro: enfraquecer e reduzir os espaços de Sidnei Rocha. ‘Com certeza faz parte de todo o projeto de eleições para 2012’, admitiu, sem ruborizar. Ubiali conta, para sua própria candidatura, com o PSB. O golpe no PR tem como único objetivo reduzir as opções de Sidnei Rocha e encurralar o prefeito. Nada além disso.

As ações dos últimos dias fizeram duas vítimas imediatas. Alexandre Ferreira e Valéria Marson, secretários municipais há muito tidos como prováveis candidatos à sucessão, estão sem partido. Até agora abrigados no PP, pediram sua desfiliação e esperam o horizonte clarear para decidir onde aportar. Sidnei Rocha e seu círculo íntimo certamente fazem neste instante análises e projeções. Há o DEM de Gilson de Souza, o PTB de Ary Balieiro e Sebastião Ananias, e o PMDB de Fábio Liporoni que poderiam receber os sem-partido. Se preferirem começar do zero, há uma infinidade de outras legendas minúsculas que poderiam abrigar os órfãos da administração municipal. Agora, é esperar.

De qualquer forma, é espantoso como a disputa pela sucessão de Sidnei Rocha começou cedo - e agressiva. Estamos ainda a 15 meses do pleito e os prováveis candidatos têm emitido sinais bastante claros de que estão dispostos a matar ou morrer - politicamente, bem entendido - pelo privilégio de se sentar na cadeira de prefeito. As apostas que têm feito são bastante altas - e arriscadas na mesma medida - especialmente para Graciela e Ubiali.

Que ninguém espere de Sidnei Rocha paz e tranquilidade. A um interlocutor próximo, o prefeito acusou o golpe e admitiu a irritação. ‘Pisaram feio no meu dedinho. Vai ter troco’. Como um homem da guerra, Sidnei Rocha prepara suas armas para o contra-ataque. Quem o conhece, garante que há munição de sobra. Alguém duvida de que o chumbo virá quente?

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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