“Se você fica esperando, tudo o que acontece é que você fica velho”
Larry McMurtry, escritor e roteirista americano
Imagine que você seja uma professora com uma rotina apressada, repleta de aulas em turmas distintas, muitas provas para corrigir e outras tantas lições de casa para supervisionar. Ou, então, coloque-se no lugar de um advogado mergulhado em dezenas de causas dos mais diversos tipos, cheio de prazos para cumprir, visitas imperativas ao fórum e audiências que teimam em atrasar mais do que seria razoável admitir. Se preferir, veja-se no lugar de um dentista com a agenda tomada por horários preenchidos desde as primeiras horas da manhã, cada qual reservado para um paciente que espera sem muita paciência alívio para a dor insuportável que teima em não cessar.
Se passar num concurso público for o seu sonho, projete-se na condição de um servidor de carreira do Estado, do tipo que tem estabilidade garantida e que, se desejar, pode limitar-se a cumprir as tarefas para as quais foi contratado sem que ninguém faça cobranças explícitas. Caso tenha por volta de 20 anos, sinta-se na condição daqueles que têm todo o futuro pela frente, quando nenhum sonho está distante o bastante para ser considerado impossível. Se você, na outra ponta, já trabalhou bastante, pense no que faria se não tivesse mais a obrigação de uma jornada regular de trabalho, com horários fixos, e que agora pudesse fazer o que bem entendesse da vida.
Não importa muito com qual personagem mais se identifique, é bastante provável que, independente de sua escolha, finais de semana sejam para você sinônimo de descanso, relaxamento e diversão. E, ainda que faça parte da minoria para quem sábado é dia regular de trabalho, muito provavelmente você só diz presente no seu emprego porque é obrigado. Salvo raríssimas exceções, se por qualquer razão fosse facultado a você decidir, é quase certo que escolheria gastar suas manhãs de sábado de qualquer forma divertida. Valeria descer para um rancho e curtir a represa, lagartear nas piscinas de um clube, beber com amigos ou ir ao cinema no shopping. Tudo, exceto participar de uma reunião com semi-desconhecidos para discutir a qualidade da atividade desenvolvida por uma empresa da qual você é ‘apenas’ um cliente, não um dirigente ou acionista. Óbvio, não é mesmo?
Não. Pelo menos para um grupo de abnegados, que aprendi a respeitar profundamente ao longo dos últimos três anos e meio, a resposta é bastante diferente. Ana Paula Baldoíno, auxiliar administrativa; Camila Beghelli, professora; Carlos Gimenes, servidor público; Daniel Machado, pespontador; Fabrício Pizzo, advogado; Henrique Teixeira, padeiro; Janice de Oliveira Silva, professora; Luiz Eduardo Ferreira, o Duda, dentista; Maria Regina Franz di Maio, dona de casa; Plínio Vieira, médico; Susana Messias, micro-empresária; Tatiane Venuto, secretária, entre outros, são integrantes do Conselho de Leitores e Ouvintes do GCN Comunicação cujos mandatos se encerram agora.
Todos, voluntários, não receberam nada além de uma assinatura de jornal para dedicar horas importantes de suas vidas ao longo dos últimos anos para analisar, discutir e criticar o trabalho desenvolvido pelo Comércio, rádio Difusora, Portal GCN e veículos associados. Ao longo de todo este tempo, foram incontáveis os e-mails encaminhados com observações sobre como avaliavam nossa atuação. De sugestão de pauta ao protesto ácido com relação ao tom de alguma cobertura, de erros ortográficos publicados - e denunciados implacavelmente - à crítica pela ausência de cobertura em eventos que julgavam importantes, de parabéns por alguma reportagem que alcançou grande repercussão à solidariedade manifesta sempre que mal-intencionados partiram para o ataque baixo e pessoal na tentativa de desmerecer o trabalho que desenvolvemos, contam-se aos milhares as participações e manifestações dos conselheiros.
Tudo isso culminava, sempre, em intensos, longos e apaixonados debates nos nossos encontros bimestrais nas manhãs de sábado. Originalmente previstos para durar não mais de três horas, nunca houve ocasião em que isso foi possível. Via de regra, a riqueza das observações de cada conselheiro e a cobrança por explicações detalhadas sobre como determinadas reportagens foram produzidas acabavam por fazer com que os encontros raramente terminassem antes de 13h30. Na mais longa das sessões, as discussões, iniciadas às 9h30, só chegaram ao fim quando o relógio se aproximava das 16h.
Cada conselheiro tem certamente uma razão pessoal que explica porque decidiu se candidatar para uma função temporária que nada oferece além da possibilidade de discutir e contribuir para o desenvolvimento e aprimoramento do padrão jornalístico de veículos de comunicação que circulam na cidade onde vive. Ainda assim, tenho convicção de que cada um também é em boa medida um cidadão idealista, que acredita na importância do envolvimento pessoal para a construção de uma sociedade mais justa. E que, neste contexto, entende que o papel de uma imprensa séria, ética, decente e equilibrada não é apenas importante. É, também, fundamental. E decisiva.
Um ciclo chega ao fim hoje, outro tem início. Nada menos de 155 pessoas apresentaram seus nomes com o objetivo de se tornar um dos novos 12 conselheiros do GCN Comunicação. A relação de 13 candidatos por vaga é mais acirrada do que em muitas faculdades. Definir o grupo de conselheiros foi uma tarefa complexa. E uma tremenda responsabilidade. O grupo escolhido será empossado em janeiro para um mandato de 12 meses. Caberá a eles a missão de nos ajudar a alcançar um jornalismo de nível cada vez mais elevado, sem perder as características que tão fortemente unem Comércio, Difusora, as revistas e o portal à população de Franca e região. Seis homens e seis mulheres, com idades que variam de 17 a 75 anos e profissões que vão de blogueiro a eletricista, passando por dentista, professor e advogado, têm desde já a missão de nos avaliar, garantido o direito de livremente dizer - e ver publicado - o que pensam sobre o que fazemos, como fazemos e porque fazemos.
Ao grupo cujo mandato se encerra, muito obrigado, uma vez mais. Sentiremos falta da cobrança firme e assertiva do Carlos; da pressão da Camila por mais proximidade com as escolas; da obsessão do Duda por um padrão estético clean e minimalista; da espontaneidade dos jovens Henrique, Daniel e Ana Paula; do apoio permanente do Fabrício Pizzo em defesa da liberdade de expressão, da cobrança da Tatiane por pluralidade religiosa. Um grupo de conselheiros se renova, mas não se desfaz. Todos continuam convidados a seguir nos criticando. Sempre.
Um grande abraço aos conselheiros que se despedem hoje. E até breve.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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