Bizarrices


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Não há absurdo que não se espalhe pela internet. Ainda assim, nada é páreo para o episódio que envolve um pedreiro francano.
Não há absurdo que não se espalhe pela internet. Ainda assim, nada é páreo para o episódio que envolve um pedreiro francano.

“A pior das loucuras é, sem dúvida,
pretender ser sensato num mundo de doidos”
Erasmo de Rotterdam,
humanista holandês


O mundo está completamente globalizado. A informação, abundante e diversa, flui de um ponto a outro do planeta sem barreiras. Não há evento relevante que demore mais do que uns poucos segundos para se espalhar por todo mundo, difundido nos mais improváveis idiomas. É tudo imediato, público e global. Claro que nem só de coisa séria vive nossa aldeia global. A mesma internet que possibilita acompanhar problemas relevantes que impactam povos inteiros serve também para disseminar acontecimentos bem menos edificantes, mas não menos interessantes. Não há bizarrices ou absurdos que não se espalhem pela rede feito vírus, reproduzidos por sites de notícias mundo afora. Garimpar estas idiotias pode ser um passatempo divertido.

Gregory Perelman, um genial matemático russo de 44 anos, é um bom exemplo. No início deste ano, ganhou um prêmio de US$ 1 milhão por ter desvendado a Conjectura de Poincaré, um enigma que desafiava matemáticos de todo o mundo há mais de cem anos. O problema era considerado um dos sete desafios do milênio até ser desvendado por Perelman. O homem, estranho como poucos, surpreendentemente rejeitou o dinheiro. Não que estivesse em condições de esnobar. Perelman vive num apartamento minúsculo em São Petersburgo na solitária companhia de baratas. A mobília é escassa, nada além de uma mesa, um banquinho e um lençol sujo. Ao ser informado por um repórter de que tinha direito ao prêmio milionário, nem se deu ao trabalho de abrir a porta. “Tenho tudo o que quero”, resmungou. O dinheiro continua intocado.

Andrea Fletcher e John Ozimek formaram até o Natal de 2009 um insuspeito casal britânico. Vivendo juntos há anos, Andrea e John criaram três filhos. Duas meninas, de 16 anos, resultados de relacionamentos anteriores, e um garoto, hoje com seis anos, fruto da união de ambos. No início de 2010, John, um respeitado jornalista e escritor, surpreendeu sua família. Gentil, inteligente e dedicado marido, anunciou que não se sentia confortável na sua condição de homem. E que passaria a se vestir como mulher, com direito a saia, sapato alto e muita maquiagem, além de adotar um novo nome: Jane Fae. Homens que se descobrem homossexuais depois de anos de uma vida heterossexual são relativamente comuns. Nada comum foi o que aconteceu com o casal depois da revelação. Pragmática, a mulher de John Ozimek resolveu simplesmente “aceitar” o fato de que seu marido agora era mulher. Comprou para John/Jane roupas, perfumes femininos e insistiu em manter o casamento. “Eu continuo a amar essa pessoa, não importa se é homem ou mulher”, sentenciou. E assim, desde fevereiro de 2010, Andre Fletcher e Jane Fae formam um casal lésbico - se é que o termo se aplica - singularíssimo. A família, até onde se teve notícias, seguia junta e feliz.

Ron Sveden é um morador de Brewster, no estado americano de Massachusetts. Aos 75 anos, lutou por meses contra um enfisema pulmonar. Preocupado, submeteu-se a um raio-X na expectativa de que os médicos anunciassem algum tipo de tumor. Nada disso. O sr. Sveden tinha um problema, mas de natureza completamente distinta. A inflamação e o desconforto que sentia eram provocados por um pé de ervilha que brotou dentro de seus pulmões. Segundo os médicos, uma ervilha que fazia parte da refeição de Ron Sveden tomou o caminho errado ao ser ingerida, ganhou as vias áreas e alojou-se no seu organismo, onde germinou. Operado em agosto, Sveden melhorou imediatamente. A planta removida já estava com 1,25 cm.

Aqui em Franca, o ano de 2010 também foi fértil em casos esquisitos. Para ficar apenas nos mais notórios, houve em agosto o caso do cadáver trocado pela funerária que apresentou para a família, entristecida, um outro corpo vestindo as roupas de seu ente querido, numa situação quase impossível de se entender. No mês de setembro, a história do casal da Vila Scarabucci que, sabe-se-lá com base em quê, resolveu buscar novas fronteiras do prazer cortando com um estilete o saco escrotal. O rapaz foi socorrido - com a bola do saco exposta - e passou por cirurgia. Não menos bizarro, novembro revelou a história de um outro casal que praticava sexo com entusiasmo incomum na zona Norte da cidade. A unidade de resgate acionada constatou que o rapaz, um mecânico de 31 anos, fraturou o próprio pênis enquanto transava com sua parceira. Ele foi socorrido uivando de dor. Entende-se.

Sui generis, acompanhamos ainda neste ano o episódio em que uma advogada francana acordou assustada, sozinha, trancada dentro de um ônibus. O veículo, que faria o longo trajeto entre Franca e Brasília, quebrou próximo a Ituverava. O motorista transferiu todos os passageiros - menos a advogada - para um outro ônibus e seguiu viagem. O veículo quebrado ficou estacionado na rodovia. Quando acordou de madrugada para ir ao banheiro, a mulher tomou um susto. O ônibus estava vazio, parado no acostamento e trancado. Sem ter a quem recorrer, usou o celular para acionar o pai. E esperar o resgate.

Por fim, houve o dia de fúria protagonizado por uma instrutora de autoescola que, numa sequência inacreditável, tentou colocar fogo no carro do ex-marido, comeu, bebeu e saiu sem pagar de uma loja de conveniência, foi interceptada dirigindo uma moto sem habilitação na companhia de um travesti, ameaçou estudantes e invadiu uma escola pública, quebrou uma mercearia no jardim Tropical e, grand final, colocou fogo num dos quartos do motel Vip. Presa, ganhou a liberdade três horas depois. Enfurecida, saiu da cadeia e foi direto ameaçar familiares do ex-marido. Acabou presa de novo. E, semanas depois, novamente em liberdade, segue aprontando.

Todos estes casos são emblemáticos de quão particular pode ser a natureza humana, do motorista que abandona a passageira trancada dentro do ônibus ao sujeito que vê brotar um pé de ervilha nos próprios pulmões, do mecânico que quebra o pênis durante uma noite de sexo ao russo miserável que ganha US$ 1 milhão e abre mão do dinheiro. Nada disso é páreo, no entanto, para o que aconteceu aqui na nossa Franca há três anos, um caso que não encontra equivalente em nenhum lugar do mundo. É simplesmente único.

Foi em setembro de 2007 que um pedreiro francano de 59 anos deu nova dimensão à definição de estupidez. O sujeito encostou no muro de uma residência do jardim Aeroporto III e começou a emitir uns grunhidos esquisitos. A moradora do local, uma artesã, acordou com a sinfonia inusual. Preocupada, ela e o marido foram ver o que acontecia. A cena que testemunharam era inenarrável. O tal pedreiro transava vigorosamente com o muro, usando um buraco na construção como parceira nesta cópula do absurdo. Preso, o pedreiro não se intimidou. Sacou uma Bíblia e passou a pregar enquanto esperava o delegado para que desse sua versão para os fatos. Dois detalhes importantes. O pedreiro era casado. E o muro, chapiscado.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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