Canelada: 'Lula poderia ter sido um grande estadista, mas se limitou'


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Não foram “as elites”, a quem Lula tanto gosta de culpar por seus fracassos, que o impediram de nada. Ele mesmo se limitou.
Não foram “as elites”, a quem Lula tanto gosta de culpar por seus fracassos, que o impediram de nada. Ele mesmo se limitou.

“É bem melhor pensar sem falar do que falar sem pensar”
Jô Soares
, humorista e jornalista brasileiro


Presidir o país é uma tremenda responsabilidade. E um enorme privilégio. Desde 1889, quando a República brasileira foi proclamada pelo Marechal Deodoro da Fonseca num episódio sui generis que levou o então imperador Pedro II ao exílio, apenas 35 pessoas diferentes tiveram a honra de liderar a nação. Se excluídos da lista os ditadores, os golpistas, os que herdaram o mandato com a morte do titular e os que ocuparam o cargo por poucos dias, reduz-se a menos de duas dúzias o número de pessoas que puderam ostentar o titulo de presidente do Brasil.

Há mais de 2800 dias Lula é o presidente do Brasil. Seu mandato está no fim. Restam agora apenas 68 dias até que seja convertido em ex-presidente. Ainda é muito cedo para um balanço - criterioso e minimamente isento - do real significado dos “anos Lula” na presidência da República. Uma análise histórica mais acurada exige um distanciamento impossível neste instante mas, para quem viveu este tempo, independente do grau de afinidade com o presidente ou seu partido, fica a impressão de que chegamos ao final de um bom governo, com os altos e baixos típicos de qualquer presidência.

Nos seus dois mandatos consecutivos, não houve ruptura institucional, nenhum estado de sítio. A economia seguiu forte, milhões de empregos foram criados. A miséria foi reduzida, a vida da população melhorou. Os avanços necessários nas mais distintas áreas ainda são imensos, mas é inegável que muitos passos, no caminho certo, foram dados. Assim como aconteceu com seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, o Brasil foi mantido num eixo firme, seguro, e tem conseguido avançar. A definição do Brasil como um país de terceiro mundo é cada vez menos apropriada. Falta um bom pedaço para chegarmos ao status de nação desenvolvida, mas estamos no rumo certo.

Lula poderia ter sido um grande estadista, um nome com a envergadura do francês De Gaulle, dos britânicos Churchill e Tatcher, dos americanos Washington, Lincoln, Roosevelt, Eisenhower e Kennedy, do monarca espanhol Juan Carlos, e de uns poucos outros nomes a quem a história reservou lugar especial. Carismático e inteligente, Lula tinha o apoio do mundo - e do seu próprio povo - para ser mais do que um bom presidente. Seu ego imenso, o nível medíocre de seus mais próximos assessores, a falta de vontade de ler e aprender um pouco mais sobre os processos históricos e uma visão limitada do que é o papel de um presidente e da liturgia do cargo tiraram dele a possibilidade de alcançar um nível maior. Lula foi longe, mas poderia ter ido além. Não foram “as elites”, a quem tanto gosta de culpar pelos seus fracassos, que o impediram. Foi ele mesmo que se limitou.

O problema vem desde o início do mandato. Lula parece não ter percebido que foi eleito para governar todos os brasileiros, e não apenas os que votaram nele. E que, na condição de presidente da República, deve estar acima dos partidos. Obviamente, isso não implica dizer que devesse ter rompido com sua legenda, mas manter uma distância saudável do PT não teria feito mal algum. Lula fez o contrário. Petezou a presidência da República e deixou claro, desde o princípio, que seus “companheiros” teriam tratamento privilegiado. Assim fez ao longo dos anos.

Muito mais sério, aparelhou o Estado, indicando para milhares de cargos comissionados gente do partido, colocada numa função pública apenas por pertencer ao PT. Ao invés de diminuir as tensões e o nível de beligerância da disputa política, preferiu a conflagração. Chamou para a briga sempre que uma disputa partidária ganhava repercussão. Para piorar, defenestrou o quanto pode a oposição, repetindo ad nauseam o mantra “nunca antes na história deste país”, como se fosse ele o autor de tudo que é bom, e os adversários os responsáveis por todas as mazelas.

Na atual disputa eleitoral, em movimentos assombrosos, demonstrou total desrespeito por todo e qualquer adversário político. Fez da campanha de Dilma Roussef questão de vida ou morte. Transformou a agenda de governo em agenda de campanha, misturou compromissos oficiais com encontros eleitorais, atacou oposicionistas em todos os Estados e, em rompantes incompatíveis com quem ocupa a presidência, partiu para a agressão verbal permanente.

Há poucas semanas, chegou a pregar o extermínio dos adversários políticos. “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, bradou durante discurso em Joinville (SC). Numa tacada só, arrebentou com o respeito e altivez que se esperam de um governante, disseminou ódio e ajudou a dividir um pouco mais a sociedade brasileira que deveria, pelo contrário, conciliar. Criticado, não se desculpou nem voltou atrás. Manteve o que disse, o que afasta de vez a hipótese de que suas palavras tenham sido apenas excessos de campanha.

Nesta semana, Lula meteu os pés pelas mãos outra vez. Após o incidente durante a campanha de Serra no Rio, quando os apoiadores do candidato tucano foram atacados por militantes petistas, Lula perdeu a chance de se mostrar presidencial. Ao invés disso, agiu como o jogador de futebol maldoso que adora citar em suas metáforas futebolísticas. Chutou na canela. Informado de que Serra havia sido agredido, desqualificou o incidente, acusou Serra de fingir e não esboçou um único gesto de condenação aos excessos cometidos. Pouco interessa se atiraram papel, fita crepe ou o que quer seja contra a passeata de Serra. A tentativa de agressão é que importa. Lula foi grosseiro, arrogante e, de quebra, aumentou a tensão de forma gratuita. Um Estadista teria condenado o incidente. Ligaria também para o adversário, de forma respeitosa, para prestar solidariedade. Lula não fez nada disso.

O jogo está praticamente ganho para a candidata governista e a “era Lula” se aproxima do fim. Dilma deve ganhar, mas a vitória anunciada tem perdido muito do seu sabor a cada comportamento condenável que o presidente protagoniza. Nunca é demais lembrar que o resultado final da disputa, no próximo domingo, deve apontar para um país dividido. Um pouco mais da metade quer a candidata de Lula. Um pouco menos, seu adversário. Lula deve vencer, mas não de goleada. Respeitar o jogo, as regras e os adversários é o mínimo que ele poderia fazer. Seria bom para ele, melhor ainda para a República Federativa do Brasil.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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