"O médico Marcelo Rosa não teve medo de lutar pela vida"


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Marcelo Rosa merece aplausos. O médico não teve medo de lutar contra um sistema burro para garantir a vida de pacientes
Marcelo Rosa merece aplausos. O médico não teve medo de lutar contra um sistema burro para garantir a vida de pacientes

“Você nunca sabe que resultados virão da sua ação.
Mas se você não fizer nada, não existirão resultados”
Mahatma Gandhi,
líder pacifista indiano

 

Há um médico em Franca, sobre quem nada sei além de umas poucas informações, de quem me tornei admirador desde a madrugada de sexta-feira. Seu nome é Marcelo Rosa da Silva, tem 32 anos, mas não tenho a menor ideia de onde estudou ou fez residência, muito menos se é casado, tem filhos, onde mora ou o que fez da vida antes desta última semana. Além do nome e da idade, o pouco que consegui descobrir é que ele foi um dos aprovados no Concurso Público realizado pela prefeitura de Franca em 2008. Não teve a pior nem a melhor nota, mas alcançou resultado suficiente para garantir para si uma das 14 vagas de “médico emergencialista clínico geral”. Convocado, assumiu seu cargo e faz plantões no pronto-socorro municipal Dr. Janjão.


Era ali que Marcelo Rosa estava trabalhando na tarde de quinta-feira quando atendeu duas pacientes. Uma delas, já idosa, convive com as sequelas de um derrame que a confinou a uma cama. Tinha um diagnóstico de infecção urinária. A segunda mulher apresentava um quadro de falta de ar persistente. Para ambas, o médico determinou a internação para que recebessem os cuidados necessários.


Eram 19h quando o médico acionou a Crue (Central de Regulação Única do Estado), órgão responsável por autorizar internações em hospitais que tem a gestão de suas vagas sob controle do governo paulista, como a Santa Casa de Franca, em busca de leitos para suas pacientes. Foi uma longa e inútil batalha. A tal Crue, localizada sabe-se lá onde, negou autorização durante três horas, mesmo diante dos insistentes pedidos do médico. Alguém, com a delicadeza de um elefante solto numa loja de cristais, alegava simplesmente que não haviam vagas disponíveis na Santa Casa. Enquanto isso, as pacientes aguardavam no pronto-socorro por uma alternativa que, em última instância, poderia fazer a diferença entre viver ou morrer.


Às dez da noite, doutor Marcelo deu um ultimato. Se a Crue não autorizasse a internação, ele iria direto para a Santa Casa com suas pacientes. Dito e feito. Pouco antes da meia-noite, como insistiam em não liberar a internação, o médico Marcelo Rosa partiu com as duas mulheres direto para a Santa Casa. “Eu tive que sair correndo com as pacientes para não acontecer outra tragédia”, lamentou o médico, numa referência implícita ao triste episódio acontecido no mesmo pronto-socorro uma semana antes, quando Maria das Graças Viera de Souza morreu, após esperar 17 horas deitada numa maca, por um fax que autorizasse sua internação.


Doutor Marcelo desembarcou de mala, cuia e pacientes na Santa Casa. Ao chegar ao hospital, foi recebido pelo também médico Fernando Arruda, que insistiu para que ele voltasse pela manhã com as pacientes porque a emergência estava cheia. Após muita luta, o doutor Marcelo finalmente conseguiu convencer seu colega a aceitar as pacientes. Ao entrar na emergência, parece não ter acreditado no que viu: diferente das justificativas que havia recebido desde as 19 horas, a sala de emergência estava vazia.


Marcelo Rosa conseguiu que suas pacientes fossem internadas mas, incomodado com o que muito provavelmente lhe pareceu inaceitável, sacou o celular e tirou fotos do lugar. Foi hora da maior surpresa de uma noite já bastante intensa.O médico da Santa Casa não gostou do “comportamento” do doutor Marcelo. E, ao invés de se solidarizar com quem tentava apenas cumprir sua nobre missão de salvar vidas, como convém a qualquer médico, preferiu protestar. Contra o colega. Chamou a Polícia Militar para formalizar queixa contra o doutor Marcelo por ter forçado a internação de paciente sem autorização prévia. E, claro, por ter tirado fotos do local.
 

É perturbador que a Santa Casa e aqueles que agem em nome da instituição mais uma vez tentem justificar o que parece absurdo ao cidadão comum partindo para o ataque. Esquecem o principal, que é o atendimento de um paciente que precisa de ajuda imediata, e tratam de reagir contra quem só tentou fazer valer a condição mínima de atendimento para pacientes frágeis e, obviamente, carentes. Se as duas mulheres tivessem qualquer outra opção, certamente estariam na sala de atendimento de um hospital particular, e não mendigando socorro do sucateado sistema público de saúde.


Marcelo Rosa da Silva merece aplausos e apoio. Numa categoria profissional marcada por profundo corporativismo, doutor Marcelo não teve receio de se indispor com um colega e lutou, contra um sistema burro e inepto, para garantir atendimento mínimo para pacientes que estavam sob sua responsabilidade. Seria muito importante que órgãos de classe, como o Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo), e de representação política, como a Câmara de Vereadores, manifestassem publicamente o que pensam da atitude de alguém que teve dignidade para lutar pela vida de duas mulheres carentes. Um elogio é o mínimo que se espera.
 

Da Santa Casa e da tal Crue, não há muito o que esperar. O hospital, mais uma vez, se fechou e recusou-se a comentar o caso. Nenhuma palavra, nenhum pedido de desculpas. Apenas o silêncio. A Central de Regulação Única do Estado é ainda mais misteriosa. Simplesmente não aparece listada no site da Secretaria de Saúde paulista. Ali, é possível encontrar dados e informações sobre oito coordenadorias e mais de 100 departamentos relacionados. Sobre Crue, nenhuma linha, apesar do tal órgão continuar decidindo, por critérios difíceis de serem compreendidos, quem deve ou não se internado.
 

De resto, a justificativa da Crue e da Santa Casa para negar a internação só tem duas explicações plausíveis: falta de informação, o que denota incompetência, ou falta de interesse, o que implica dizer ausência de caráter de quem opera o sistema. Porque, como ficou claro graças à coragem e desprendimento de um jovem médico, espaço e vaga havia. E de sobra.

 

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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