Ridículo


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A história caminha para fazer de Serra
A história caminha para fazer de Serra "o melhor presidente que o Brasil nunca teve", como preconizou Fernando Henrique Cardoso

“Vencer na política não é tudo: é a única coisa”
Richard Nixon
, ex-presidente americano

 

Ficou ridículo. A desesperada estratégia dos marqueteiros tucanos - que, nesta semana, em pleno horário eleitoral gratuito, colocaram no programa do candidato a presidente, José Serra, imagens do próprio ao lado de Lula, ao som de uma narrativa patética que saúda a trajetória de “dois homens de história” enquanto debocha da biografia da candidata petista Dilma Rousseff - é tão absurda quanto inútil.


Imaginar, a esta altura do campeonato, que a população ainda desconhece quem é o candidato que conta com o apoio do presidente Lula, é tomar por imbecil o eleitorado brasileiro. Todo mundo sabe que Lula é Dilma. E que Serra é tucano como Fernando Henrique, o ex-presidente responsável pela estabilidade da economia do Brasil, cujos feitos têm sido solenemente ignorados por seus próprios colegas de partido. Falta saber quem é o gênio criativo responsável pela desmiolada estratégia tucana que tenta negar o óbvio. Certamente é um sujeito com uma percepção muito singular da história. E com uma memória incapaz de reter mais do que quinze minutos de registros de qualquer natureza.


É bem verdade que não é de hoje que a nau presidencial de Serra faz água por todos os lados. Bom administrador, honesto, com reputação de inteligência acima da média e fama autocultivada de trabalhador incansável, Serra nunca foi um político conciliador nem um homem público capaz de atrair simpatias. Assim, construiu sua candidatura à presidência dentro do PSDB na base do histórico de competência gerencial à frente do governo paulista e do Ministério da Saúde, mas sem nenhum grande entusiasmo por parte da militância. Muito menos contou com apoio daqueles que foram preteridos, como o governador mineiro Aécio Neves.


Jovem, carismático e com índices de aprovação popular semelhantes aos do presidente Lula, Aécio era o vice dos sonhos de Serra. Desde o final do ano passado, quando fora descartado da indicação para a disputa presidencial, Aécio garantia que não seria candidato a vice. Ninguém o levou a sério. Foi um erro. Aécio partiu mesmo para a disputa de uma vaga no Senado. Retardou a definição do vice de Serra que, sem muitas opções, acabou escolhendo Indio da Costa, um desconhecido político carioca do Democratas. A contribuição eleitoral de Indio à candidatura tucana fica próximo do zero.


A desastrada operação de escolha do vice não foi a única bobagem da estratégia tucana. Até julho, quando as campanhas ainda engatinhavam, os principais assessores de Serra insistiam que o crescimento da candidata petista era reflexo apenas da associação de Dilma ao nome de Lula. E que, a partir do momento em que começassem os debates e o horário eleitoral gratuito, tudo seria diferente. “Serra tem conteúdo, Dilma é um fantoche”, repetiam os iluminados tucanos. Prometiam um desempenho arrasador do workaholic José Serra diante da estreante Dilma Rousseff.
 

Frustraram-se todos. No primeiro debate, promovido pela TV Bandeirantes na noite de 5 de agosto, o que se viu foi empate técnico nivelado por baixo. Serra, Dilma e Marina nada acrescentaram ao eleitor. O medo de errar era tão flagrante que os temas espinhosos foram simplesmente ignorados. Corrupção, aloprados, mensalão, apoio a regimes ditatoriais, todos estes temas delicados para Dilma Rousseff, foram deixados de lado por Serra, que encontrou dificuldades para ser assertivo até quando a bola lhe foi levantada. Logo no primeiro bloco, o moderador perguntou quais seriam suas primeiras ações efetivas em uma de três áreas prioritárias - Saúde, Educação ou Segurança Pública - caso fosse eleito presidente. Serra patinou. Arriscou uma metáfora infeliz para comparar as três áreas ao organismo humano, disse que todas são indispensáveis e, ao final, limitou-se a dizer que criaria um Ministério da Segurança Pública. Só isso. Nada sobre criação de forças especiais, de mudanças na legislação penal, de alternativas para presídios, de punição para menores infratores. Um discurso fraco e ruim, típico de quem tem medo de aposta. O problema é que em política, como na vida, quem não arrisca não ganha. Elementar.


O show de Serra que não veio na Bandeirantes também não surgiu em qualquer uma das sabatinas ou dos debates dos quais participou na sequência. Serra continuou apático, repetindo discursos insossos, como a história de sua origem humilde (“sou de origem simples, meu pai era feirante...”) ou seu de passado de exilado. Cansou. Não tem refresco, nada significa para quem tem menos de 30 anos. Não há contraponto ao governo Lula, não há crítica, não há defesa dos anos FHC, não há explicação para as privatizações, não há nenhuma ideia inspiradora. O discurso de Serra cheira a naftalina.
 

Melhor para Dilma, que assiste de camarote à queda livre de seu principal adversário, colada à imagem de Lula e sem precisar se expor muito. Enquanto Serra despenca na preferência do eleitorado, perdendo 104 mil eleitores por dia, Dilma avança 187 mil novos votos a cada 24 horas. O tucano, que chegou a ter 40% nas intenções de voto contra 29% de Dilma Rousseff (Datafolha, 16 de abril), hoje amarga 30% contra 47% da petista. Se as eleições fossem hoje, Dilma venceria ainda no primeiro turno, feito que nem seu mentor Lula conseguiu. Nada mal para quem nunca disputou uma eleição, mas caminha firme para ser a primeira mulher a presidir o Brasil.
 

Sem estratégia, sem paixão, sem discurso e sem projeto, são mínimas as chances de que Serra consiga reverter a tendência. A história caminha para fazer dele, como já havia preconizado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “o melhor presidente que o Brasil nunca teve”. Acontece. Outro ex-presidente, Tancredo Neves, o avô de Aécio que morreu antes de assumir o cargo, ensinava que “presidência é destino”. Não foi o seu e parece que também não será o de Serra. Ainda assim, o que ainda está nas mãos do tucano é como terminar esta disputa. Pode ser no papel de um bobo coadjuvante, que sai muito menor da disputa do que entrou. Ou pode ser na condição de um grande político injustiçado pelas urnas, mas capaz de apresentar propostas, apontar contradições, sinalizar rumos e discutir o Brasil. Tudo vai depender do que Serra fará nos próximos 40 dias. Ainda há tempo suficiente. Para salvar sua biografia. Ou para diminuí-la de vez.

 

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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