Efemérides


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Faz 25 anos que o RPM lançou “Olhar 43”; Senna morreu há 16 anos e a loira de Top Gun passou dos 50 e virou lésbica.
Faz 25 anos que o RPM lançou “Olhar 43”; Senna morreu há 16 anos e a loira de Top Gun passou dos 50 e virou lésbica.

“Depressa: o tempo foge e arrasta-nos consigo;
o momento em que falo já está longe de mim”
Nicolas Boileau
, poeta francês

 

Carla Diaz. O nome, na legenda de uma foto estampada num site qualquer, não me dizia nada. A imagem retratava uma mulher bonita, mignon, cabelos cor de mel, sorriso largo. A expressão Carla Diaz associada àquela imagem simplesmente não me remetia a coisa alguma. Passei os olhos rapidamente pelo texto. A mulher da foto seria Khadija, a menina da novela O Clone, a mesma que eternizou o bordão “inshalá, muito ouro, muito ouro!”. Achei que fosse um erro do tal site. Afinal, como seria possível que a atriz-mirim tivesse se transformado em mulher num passe de mágica? Me lembro da novela perfeitamente, da música de abertura, da discussão sobre clonagem, da vila árabe, dos gêmeos. Quanto tempo teria se passado? Três anos, talvez quatro. Teria sido exibida antes ou depois da morte de meu pai?


Resolvi tirar a dúvida. Duas palavras no Google, clique no link da Wikipedia e um susto. O Clone, novela de Glória Perez, foi exibida pela rede Globo há praticamente uma década. Para ser bem exato, entre outubro de 2001 e junho de 2002. Estreou poucos dias após o covarde atentado terrorista às torres gêmeas, em Nova Iorque, o famigerado 11 de setembro. Portanto, Carla “Inshalá” Diaz transformou-se mesmo numa mulher. Que, aos 19 anos, namora, sai à noite, usa salto alto. E que diz ser muito comum ouvir de fãs a óbvia constatação ao associarem o nome à pessoa. “Nossa, como você cresceu!”. Entendo perfeitamente o espanto.


O momento Khadija provocou em mim algumas inquietações. Comecei a perguntar às pessoas com quem convivo se recordavam datas aproximadas de alguns marcos importantes. “Há quanto tempo foi o Rock in Rio?”. “Quando Senna morreu?”. Para meu alívio, praticamente todos erravam as respostas, como se o efeito Khadija fosse geral e tivéssemos, de alguma maneira, anestesiados pela velocidade com que o tempo avança, sem conseguir mais fechar ciclos, fazer balanços, assimilar impactos. É como se entre o hoje e ontem não houvesse mais gradações. Ou o tempo é presente, agora, ou já aconteceu, e está no passado. Um tanto assustador.


Não sei se o leitor já se deu conta, mas no ultimo dia 31 de dezembro encerramos a primeira década do século XXI. Dez anos inteiros do terceiro milênio já são passado. Parece que foi ontem que, aqui mesmo no Comércio, acompanhávamos a passagem daquele momento histórico, marcado ainda por expectativas como a do “bug do milênio”, que nunca aconteceu, mas que deixou todos assustados com a perspectiva de um defeito que paralisaria computadores de todo o mundo na virada do ano 2000. Isso para não falar da histeria que tomou conta de alguns com a possibilidade de que o mundo chegasse ao fim, suposições idiotas baseadas em interpretações falsas de passagens bíblicas ou das “profecias” de Nostradamus. Puro delírio.


Bem antes, há inacreditáveis 25 anos, dois eventos no cenário musical brasileiro deixaram marcas profundas. Foi em janeiro de 1985 que aconteceu o Rock in Rio, o grande festival. Até então, estrela da música raramente colocava os pés no país. Para o Rock in Rio vieram os grandes da época, como Queen, James Taylor, Iron Maiden, Whitesnake. No mesmo ano, Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e companhia lançaram o álbum (LP, em vinil, claro) Revoluções por Minuto. Não havia quem não cantasse “Louras Geladas” e “Olhar 43”. Tudo isso aconteceu há um quarto de século, quando Britney Spears, Beyoncé e Justin Timberlake tinham apenas quatro aninhos. O RPM não existe mais, Paulo Ricardo vive de tentar resgatar o sucesso petiscado e Luiz Schiavon virou maestro do Faustão.


São inesgotáveis os exemplos. Faz 24 anos que Top Gun - Ases indomáveis, foi lançado, estrelado por Tom Cruise e Kelly McGillis, uma loira lindíssima que fez muita gente sonhar. Hoje, esta simpática senhora de 53 anos, sucessivos casamentos e duas filhas descobriu-se homossexual. Lésbica assumida, vive tranqüila depois de experimentar, há alguns anos, um tórrido romance - nunca desmentido - com Madonna.


Foi só em 89, portanto há mais de duas décadas, que o brasileiro retomou o direito de escolher seu presidente nas urnas. Naquela época, comemoramos muito o expurgo dos fantasmas da ditadura militar e a liberdade reconquistada. A distância que nos separa hoje das eleições de 89, quando Collor venceu Lula, é praticamente a mesma que separa aquele momento da fase aguda do regime militar, que teve início com o AI-5, decreto imposto a todos pela força das armas em 1968 e que suspendeu garantias e direitos individuais. Passou num instante.


Agora, Lula é o presidente que se prepara para deixar o poder depois de oito anos, o que significa dizer também que já se vão quase 20 anos desde que o então ministro FHC lançou o Plano Real. Neste período, o país se transformou, a economia ganhou força, a população conheceu os benefícios de uma moeda estável e, apesar dos pesares, avançou. Luan Santana, o sertanejo que derrete os corações adolescentes de hoje, era um recém-nascido quando este salto começou.


Foi em 1994, há mais de quinze anos, portanto, que o maior ídolo nacional desde Pelé, Ayrton Senna, morreu num acidente na pista de Ímola, na Itália. Um milhão de pessoas acompanharam seu sepultamento. Senna tinha 34 anos quando sofreu o acidente na curva Tamburelo. Já vivi mais do que ele. Se ainda estivesse neste mundo, Senna teria acabado de completar 50 anos. Dois anos depois, um acidente aéreo colocaria fim a sete meses de carreira de um fenômeno, a banda Mamonas Assassinas. Não parece, mas já se passaram quatorze anos desde que Dinho, Bento Hinoto, Julio Rasec e os irmãos Sérgio e Samuel Reoli perderam suas vidas de forma trágica.


Já se vão cinco anos desde que meu pai morreu. Neste período construímos uma sede bonita, compramos uma rotativa nova, integramos a rádio, lançamos revistas, multiplicamos o número de funcionários. Tudo, para os envolvidos, num piscar de olhos, como se meu pai ainda estivesse por perto. Minha filha, Julia, que tinha um pouco mais de seis anos na época, tem apenas vagas lembranças do avô. É natural. Difícil é entender como, para ela, o tempo pode passar lentamente. “Pai, este ano tá tão devagar”, disparou dia desses. Discordei. Lembrei a ela que parece que o Natal foi na semana passada e que já estamos no meio do ano. Julia discorda. Para ela, as férias de julho vão demorar uma eternidade e seu aniversário de 12 anos, em novembro, fica em outro século. Inshalá! Morro de inveja da minha filha.

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