Tempos estranhos


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"As paixões são todas boas por natureza e nós apenas temos de evitar o seu mau uso e os seus excessos" René Descartes, pensador francês Vivi minha adolescência nos anos 80. Numa época em que o termo globalização significava pouca coisa, brasileiros acompanhavam a chegada ao país de eletrodomésticos modernos, de novos carros, de computadores, dos videogames... E, também, da latinha de cerveja de alumínio que, enfim, nos colocava em pé de igualdade com os astros do cinema americano. Podíamos, enfim, amassá-las com uma mão só. Até então, as malditas latinhas eram de um metal tão duro que exigia a força de uma bigorna para ser destroçada. Culpa das retrógradas barreiras comerciais às importações vigentes no Brasil da época que impediam, além da latinha de cerveja, avanços em áreas bem mais importantes como a de equipamentos médicos, bens de consumo ou de informática. Tudo isso era estimulante para um adolescente desta época, mas absolutamente irrelevante frente ao nosso único, grande e real desafio, aquilo que realmente nos importava e tomava nosso tempo: atrair a atenção de uma menina. Nem dava para falar que a gente queria namorar. Isso era tão difícil que sequer podia ser considerado um objetivo. Tudo conspirava contra: as opções de lazer eram parcas, adolescentes não saíam com frequência até a madrugada, pais nunca eram muito simpáticos à ideia de nos levar e buscar no que poderíamos chamar de "nossas baladinhas" - Nó na Madeira ou a "sede" do Clube de Campo no centro - e não havia nada parecido com celular, SMS ou messenger para facilitar um contato. Quando tudo isso era vencido, havia ainda um obstáculo quase surreal a ser superado: a resistência da moça. Naquela época - e nem faz tanto tempo assim - as garotas ainda se preocupavam com sua "reputação". E eram todas, sem exceção, bastante criteriosas. Uns poucos afortunados conseguiam se dar bem e, vez por outra, namoravam. Nunca fui um deles. Ainda assim, mesmo aqueles sortudos que conseguiam o feito de conquistar uma namorada para chamar de sua tinham que lidar com um desafio adicional: o romance em si era tão pueril que, na prática, havia pouca diferença - do ponto de vista do contato físico - entre namorar e não namorar. Vinte anos depois, a situação é completamente diferente. Alguma coisa muito estranha aconteceu com os nascidos a partir de 79, 80, e que hoje compõem a famosa "geração Y". Houve uma ruptura grande - e profunda - com todos os signos da geração imediatamente anterior. No caso dos relacionamentos, a cisão foi radical. Os preceitos elementares da sedução - a atração, o flerte, a tentativa, a conquista - parecem irremediavelmente perdidos. Ninguém parece muito interessado em se apaixonar ou namorar. O verbo da vez é "ficar". E todos ficam tanto, e com tal frequência, que o que poderia ser um saudável avanço acabou transformado numa rotina sem sentido. Beijam por beijar, simplesmente. Não há qualquer critério. Beijam quem acham bonito, beijam quem dá carona, beijam alguém só para não ficar sozinhos, beijam porque está tarde e ainda não beijaram ninguém... Beijam até porque a sua melhor amiga, naquela noite, já beijou. Difícil encontrar alguém hoje que, com seus vinte e poucos anos, não tenha "ficado" com pelo menos 50 pessoas diferentes. Na média, chutaria pelo menos 100 parceiros distintos para boa parte das pessoas com menos de 30 anos. Junto com a vulgarização do beijo vem, é claro, a banalização do sexo. Transam cada vez mais cedo e com cada vez mais gente. Muitas vezes, como no caso de quando "ficam", reduzem as relações às instâncias superficiais apenas porque não querem ficar sozinhas ou sozinhos. Ou, pior ainda, porque não têm nada melhor a fazer. É como se beijar ou transar fossem opções à televisão, ao cinema ou ao hambúrguer com batata frita. Longe de mim fazer julgamentos morais. Apenas me espanta a forma como as pessoas se relacionam hoje. Não há mais convites para sair, não há mais espaço para gentilezas de quaisquer espécies. Rapazes não pagam mais a conta quando saem com uma garota. É cada um na sua. Até a despesa do motel é dividida. Conheço mulheres lindas que me garantem nunca, na vida, terem saído com alguém que lhes tenha pago uma prosaica pizza com chope. Raríssimas mulheres podem, igualmente, se orgulhar de já terem recebido flores ou um bilhete apaixonado. Para ficar na terminologia contemporânea, isso simplesmente "não rola" hoje em dia. Não é de estranhar que a ausência de gentilezas somada à frivolidade dos sentimentos tenha resultado num mundo onde até as emoções são pasteurizadas, como se as relações afetivas tivessem se reduzido a um Big Mac que você "pede pelo número". Algumas pesquisas divulgadas nas últimas semanas são emblemáticas daquilo que a simples observação já indicava: vivemos tempos muito estranhos, quase incompreensíveis para quem acompanha já com olhar nostálgico.Uma destas pesquisas, divulgada pelo jornal inglês Daily Telegraph, mostra que as mulheres se importam muito mais com seus sapatos do que com seus parceiros. Das 1000 mulheres entrevistadas, 96% delas disseram já ter se arrependido de ter jogado um sapato fora, enquanto apenas 15% lamentam o fim de algum relacionamento. Para piorar, 92% destas mulheres se lembram, com precisão, do primeiro par de sapatos que compraram com seu próprio dinheiro. O número cai para 65% quando se trata de recordar o nome do primeiro rapaz que beijaram. Enquanto isso, nos Estados Unidos, uma companhia acaba de lançar o primeiro robô sexual dotado de inteligência artifical. A boneca, que atende pelo nome de Roxxxy, é capaz de simular orgasmos, de rir, falar e de chamar pelo nome o seu parceiro/dono. Além disso, a boneca, que está à venda por US$ 7 mil, "sabe" transar em cinco estilos diferentes: tímida e reservada, aventureira, sadomasoquista, garota de 18 anos e madura. Por enquanto, só estão disponíveis modelos femininos, mas a demanda é tão grande que a fabricante de Roxxxy promete lançar brevemente também uma versão masculina. Não sei qual sua opinião, mas tenho convicção da minha. Entre as emoções da adolescência dos anos 80 e a realidade de hoje, não tenho dúvida de qual prefiro. As coisas podiam ser bem mais difíceis, mas eram muito mais divertidas. Mil vezes melhor levar alguns foras antes de conseguir um beijo do que a certeza de sair e beijar - e terminar a noite com alguém que, muito provavelmente, está mais preocupada com o sapato que calça do que com seu nome. Ou então que pode sair hoje com você e amanhã com uma boneca inflável. As coisas eram decididamente mais difíceis mas, sem dúvida nenhuma, muito mais autênticas e prazerosas. Quem viveu, sabe. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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