<b>"Não há consolo mais refinado na velhice do que a sensação de ter concentrado toda a força de nossa juventude em obras que jamais envelhecerão"
Schopenhauer, filósofo alemão</b>
Morreu Alfredo Palermo. O homem cujo nome tem sido sinônimo de cultura e erudição, há mais de meio século, para os francanos - e boa parte dos paulistas - partiu na manhã do dia 30 de dezembro, nos instantes derradeiros da primeira década do século XXI, no leito de um hospital paulistano, onde estava internado. Aos 93 anos, Dr. Alfredo, como respeitosamente todos o chamavam, manteve até o fim a fidalguia e elegância que o distinguiam. Enquanto lutava contra a fragilidade física para escrever uma resenha do romance Leite derramado, de Chico Buarque, Dr. Alfredo reuniu forças para conseguir alta médica, deixar o hospital e celebrar no apartamento da filha, ao lado da mulher e companheira de uma vida, dona Nydia, sua última noite de Natal. De volta ao hospital, não conseguiu mais resistir à debilidade física e morreu às cinco da manhã da última quarta-feira.
Dr. Alfredo teve uma existência longeva - e incrivelmente bem-sucedida. Em nada do que se aventurou foi medíocre. Tudo fez bem, com distinção e competência. Até política. Era uma avis-rara, ser humano singular, capaz de ter múltiplos interesses, dedicar-se aos seus variados ofícios com afinco e alcançar reconhecimento por seus méritos em todos eles. Foi professor de sucessivas gerações que estudaram na rede pública fundamental. No ensino superior, fundou e dirigiu algumas de nossas instituições mais importantes e deu aulas na graduação e na extensão universitária. Foi autor de importantes obras jurídicas e também na área de ciências sociais, com livros didáticos que durante décadas foram adotados para fundamentar o trabalho de professores nas salas de aula. Além das obras didáticas, produziu também poesia, crônicas e prosa ficcional. Foi ainda advogado, com atuação em diversas comarcas, e conferencista.
De quebra, para sorte e privilégio nosso, fez da redação do Comércio sua segunda casa. Durante mais de seis décadas, emprestou seu talento e competência às páginas deste jornal. Aqui, fez de tudo. Foi redator nos anos 50, comandou o pequeno grupo de repórteres dos tempos de Alfredo Costa, foi articulista. Publicou crônicas, resenhas, artigos de opinião, contos e poesias. Dividiu com milhares de leitores sua visão de mundo, suas observações sobre os diversos países que visitava sempre que podia, sua indignação com relação às muitas mazelas de nosso Brasil. Resgatou histórias de vida de personagens há muito esquecidos e traduziu para os leigos minúcias de discussões jurídicas que tinham impacto sobre a vida de todos.
Durante praticamente 50 anos foi titular desta Gazetilha, cujas linhas hoje me atrevo a preencher. Sua dedicação quase monástica garantiu a publicação de mais de 2.600 textos ao longo de cinco décadas. De onde estivesse, fosse sua casa no Centro de Franca, um país estrangeiro ou a residência dos filhos em São Paulo onde passava temporadas frequentes, Dr. Alfredo fazia questão de enviar suas crônicas semanais. O modo de remessa acompanhava os recursos disponíveis em cada época. Me lembro de ainda criança acompanhar meu pai até a sede dos Correios, no Centro, para apanhar na caixa postal do jornal, de número 243, originais que Dr. Alfredo remetera da Europa, onde estava em viagem de turismo. Depois, as crônicas produzidas quando estava fora de Franca passaram a chegar por fax. Por último, vinham por e-mail. O professor adaptou-se aos tempos modernos e, ainda que sem grande paixão, fez do computador instrumento de trabalho. Questão de praticidade. O importante, o vi repetir mais de uma vez a meus pais, é que os textos chegassem a tempo de serem publicados. Chegaram sempre.
Além de todos os predicados intelectuais, Dr. Alfredo Palermo teve o mérito adicional de ter sido um homem educadíssimo, de um tipo que quase não se vê mais. Sem sombra de dúvidas, uma das pessoas mais elegantes e atenciosas que já conheci. Em todos os momentos importantes da história do Comércio ou de nossas trajetórias individuais, o mestre fez-se presente com um gesto amigo, uma palavra de incentivo, um telefonema de congratulações.
Guardo numa caixa de madeira as manifestações de carinho que recebo ao longo da vida. Esta semana, após sua morte, fui ao meu baú de memórias resgatar algumas destas preciosidades enviadas pelo Dr. Alfredo. De meus aniversários à inauguração de nossa sede, do lançamento de novos cadernos aos momentos de tristeza, Dr. Alfredo esteve sempre próximo com uma palavra gentil, um gesto de estímulo, uma mensagem de conforto. Destas, duas são especiais para mim. A primeira, um telegrama de 2002, quando completei minha especialização em edição de jornais. "Ao caro jornalista Corrêa Neves Junior, calorosos cumprimentos pela láurea de sua formatura. Alfredo Palermo". O texto curto era apenas a formalização de uma ligação telefônica afetuosa que fizera alguns dias antes, muito animado com as perspectivas que se abriam para mim após um ano estudando com alguns dos maiores jornalistas brasileiros, meus colegas de turma. A segunda foi um bilhete encaminhado quando completei 30 anos. "Ao caríssimo amigo que hoje aniversaria, estou enviando os mais afetuosos cumprimentos e votos de felicidade a você e todos os seus entes queridos que também estão em festa. Com os meus cumprimentos, peço-lhe que aceite, como lembrança, esta singela homenagem de um vinho `generoso` como você e como as uvas e rosas da Hungria. Abraços a você e todos os seus, do velho amigo, Alfredo Palermo".
Assim era o mestre. Além de uma inteligência privilegiada, um ser humano raro, com uma grande alma, um tipo de pessoa cada vez mais escassa. Sua existência física chegou ao fim na manhã da última quarta-feira. Mas diferente dos humanos comuns, iluminados como o Dr. Alfredo Palermo não morrem jamais. São eternos, atemporais, imortais através das obras que nos legam. O corpo de Alfredo Palermo hoje descansa. Seus exemplos - e os ensinamentos contidos em sua vasta obra - continuam mais vivos do que nunca.
<b>CORRÊA NEVES JÚNIOR</b>
<i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br
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