Perto de Deus


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<b>"Rex Christianissimus"</b> <i>Rei cristianíssimo, título conferido a Luis IX, rei da França, posteriormente São Luís</i> A história de França é repleta de Luises importantes. Os três mais famosos - e conhecidos - foram o XIV, o XV e XVI, monarcas cujos reinados, sucessivos, somam mais de 100 anos entre os séculos 17 e 18. Luís XIV foi o construtor de Versailles, o homem que idealizou - e ergueu - o mais imponente e impressionante palácio de que se tem notícia, não importa com qual construção, de que lugar do mundo, da época que for, se faça a comparação. Coroado aos 4 anos de idade, conviveu longos anos com um tutor e regente, o cardeal Mazarino, que respondia pelos destinos do reino enquanto o jovem Luis XIV crescia e se preparava. Com a morte de Mazarino, decidiu que era hora de governar. Recusou novos regentes e tomou, sozinho, as rédeas da monarquia francesa. "L`etat c`est moi" (O Estado sou eu), bradou o confiante rei de apenas 23 anos, deixando muito claro aos súditos - e especialmente à nobreza, sempre disposta a aderir a um golpe qualquer que lhe assegurasse mais vantagens - quem mandava por ali. Venceu guerras, expandiu os domínios da coroa e durante longos 72 anos foi soberano da França. Passou para a história como o Rei Sol, símbolo de monarca absolutista que governa com amplos e totais poderes. O Rei Sol foi sucedido pelo Duque de Anjou, que viria a se tornar Luis XV. O duque jamais deveria ter sido monarca. Muitos outros estavam antes dele na linha de sucessão, como vários filhos de Luis XIV, além de seu pai e seu tio. Mas quis o destino que nenhum deles sobrevivesse a Luis XIV. Assim, coube ao pequeno Duque de Anjou a tarefa de se transformar em Luis XV. E, de governar a França. Tal qual o bisavô, Luis XV tornou-se rei ainda criança - aos cinco anos. Mas diferente deste, seu reinado não ficaria marcado por nenhuma obra espetacular nem por qualquer grande conquista para a França. Perdeu muitos territórios ultramarinos e, por conta de um estilo de vida perdulário, aliado a sua fraqueza, endividou enormemente a coroa. Antes de morrer, aos 64 anos, fez uma previsão aterradora. "Depois de mim, o dilúvio". É possível imaginar que até mesmo Luis XV se surpreenderia com o grau de acerto de sua previsão. Seu neto e sucessor, Luis XVI, foi o último monarca antes da revolução francesa. Nomeou bons ministros, tentou recuperar as contas públicas, mas sem apoio do clero e da nobreza, que detestavam sua mulher, Maria Antonieta, e azarado por um período de desastres naturais que arruinaram as colheitas e agravaram enormemente a fome da população mais pobre, Luis XVI não teve como evitar a fúria revolucionária. Acabou preso, deposto e degolado antes de completar 40 anos, no período turbulento da Revolução Francesa que ficou marcado como os Anos de Terror. Não é nenhuma coincidência que os três mais conhecidos reis da França carreguem Luis no nome. O trio homenageia um predecessor tão ilustre quanto, soberano da França no século XIII, o rei Luis IX - ou São Luis, para os católicos. Filho de Luis VIII, subiu ao trono em 1226, aos 12 anos de idade. Coube à sua mãe, a rainha Branca de Castela, a gestão enquanto era preparado. Assumiu o trono efetivamente aos 20 anos. Foram intensas as transformações que produziu. No campo econômico e administrativo, criou e instalou uma comissão para controlar as finanças do reino e nomeou inspetores gerais, funcionários públicos a serviço da coroa. Proibiu que juízes, oficiais e demais funcionários públicos destacados para as variadas províncias, adquirissem bens, dificultando a corrupção, bem como vedou a eles a nomeação de seus filhos, freando o nepotismo. Implantou a figura do juiz extraordinário, que tinha a missão de revisar as decisões de juízes designados para as províncias, criando uma espécie de corte de Apelação. Intransigente com a corrupção, tinha um jeito muito particular de mostrar que levava as coisas a sério. Se algum funcionário era flagrado numa atitude indevida, o rei impunha a si mesmo uma severa penitência. Luiz IX acreditava que se tinham errado era, antes de tudo, por sua falha em nomeá-los para aquela missão. Claro que os responsáveis pelo erro eram também severamente punidos e obrigados a devolver o que tinham tomado indevidamente - ou a reparar o erro que houvessem cometido. Proibiu os duelos - até então, forma usual de resolução de conflitos - e organizou e normatizou as profissões exercidas sob seus domínios. Custeou ainda a construção de edifícios, escolas e catedrais, além de incentivar o desenvolvimento das artes, especialmente a de temática religiosa. No campo político, Luis IX celebrou vários tratados de paz, inclusive um que abriu caminho para o fim da sangrenta - e interminável - Guerra dos Cem Anos, que colocou por mais de um século França e Inglaterra em conflito permanente. São Luiz fez tudo isso em plena Idade Média, época marcada nos livros de história como Idade das Trevas. As mudanças promovidas em seu reinado foram tão intensas e profundas que o período ficaria marcado como o "século de ouro de São Luís". Luis IX era também profundamente religioso, influência da educação oferecida por seu pai. Liderou duas Cruzadas, a Sétima e a Oitava, rumo ao Oriente, para libertar "os lugares sagrados", especialmente o Santo-sepulcro. Fracassou na primeira e morreu durante a segunda Cruzada, aos 56 anos, em Túnis, no norte da África, onde tentava angariar apoio do sultão para invadir o Egito. É claro que as Cruzadas, em que pese a necessária contextualização da motivação religiosa e do período histórico, foram uma aberração, fonte de muita dor e milhares de mortes. Mesmo assim, durante as mais de duas décadas que duraram suas tentativas de libertar os lugares sagrados do Cristianismo, Luiz IX não fez apenas guerra. Promoveu também pactos políticos com governantes da África e da Ásia Central. Mas foi sua motivação religiosa que produziu uma das mais belas e tocantes expressões artísticas - ou de fé, para quem é devoto - de todos os tempos. Um templo onde se pode experimentar, ainda hoje, uma emoção única, difícil de se traduzir. Tudo começou em 1239, muito antes de Luis IX sair em Cruzada, quando resolveu comprar do Imperador de Constantinopla, Balduíno II, o que se acreditava ser a coroa de espinhos de Cristo. Pagou uma fortuna pela relíquia. Para abrigá-la, mandou que construíssem, em Paris, numa ilha no meio do rio Sena, que corta a cidade, a Sainte-Chapelle (Santa Capela). A igreja é pequena. Ficou pronta em 1248. Tem 15 lindíssimos vitrais, mosaicos com cores que vão do vermelho e ouro ao verde e azul, e que narram mais de mil passagens bíblicas. É tudo de uma beleza tocante, singela, as cores explodindo com força diante de qualquer fiapo de sol. Não há excessos nem exageros neste templo deslumbrante que custou, paradoxalmente, apenas um terço do que Luiz IX pagou pelas supostas relíquias de Cristo. Muitos turistas que passam por Paris visitam a Sainte-Chapelle, mas pouquíssimos conhecem um segredo bem guardado. Todas as tardes, quase que sem exceção, depois que a Igreja fecha ao público, grupos de no máximo 80 pessoas são admitidas na capela superior, que era reservada apenas ao rei e sua família, para uma experiência singular. Para chegar à capela é preciso subir uma estreita escada em espiral. Vencido o pequeno esforço, lá em cima umas poucas cadeiras dispostas acolhem os integrantes do grupo. Pontualmente às 19 horas, quintetos de cordas (quatro violinos e um violoncelista) acompanhados de um cravista executam o mais belo repertório de música clássica que se possa imaginar. Acompanhar As Quatro Estações de Vivaldi no frio de Paris, na escuridão cortada por luzes de velas da capela real da Sainte-Chapelle, custa pouco - e vale por uma vida. As notas saídas apenas dos instrumentos - não há caixas de som, nem microfones ou amplificadores - são refinadas pelo talento dos grupos de músicos que se alternam nas apresentações diárias, reforçadas pela acústica espetacular. Na penumbra quebrada pela luz tênue, imerso numa capela com quase mil anos de história e marcada por tanta devoção, impossível não flertar com o divino, com o que nos transcende e está acima das explicações possíveis. É mágico, único. E, também - com exceção de quem já experimentou a graça de um milagre - o mais perto de Deus que se pode chegar neste mundo. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR </b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br

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