<i>"Algumas vezes uma maioria simplesmente significa que todos os tolos estão do lado errado"</i>
<b>Claude McDonald, escritor americano</b>
Dois momentos nesta semana me remeteram às imagens de terror da Alemanha nazista de Adolf Hitler, período que representa o que de pior os seres humanos foram capazes de fazer com seus semelhantes. Cegos pela força de ideias sedutoras, uma sociedade inteira acompanhou milhões dos seus semelhantes serem dizimados das formas mais cruéis e covardes possíveis, sem chance de defesa, subjugados com a complacência apática das massas silenciosas.
O primeiro destes momentos foi bastante lúdico, na noite da última quarta-feira. Adolescentes dos sextos anos da escola Toulouse Lautrec prepararam uma peça de teatro baseada no livro O menino do pijama listrado, de John Boyne, como homenagem especial aos pais. O texto, já transformado também em filme de sucesso, narra a história de dois garotos, Bruno e Shmuel, na Alemanha nazista. Ambos nasceram no mesmo dia e, aos 9 anos, compartilham dúvidas, medos e sonhos separados por uma cerca, cada qual do seu lado. Bruno, no lado civil, livre. Shmuel, no interior do campo de concentração de Auschwitz, onde milhões de judeus como ele acabaram exterminados em fornos crematórios, câmaras de gás, fuzilados ou de inanição. A história - e a amizade - dos dois avança à medida que novas, surpreendentes e aterradoras descobertas são feitas até o desfecho, nada comum para uma fábula.
O segundo momento veio na sexta-feira com o filme Operação Valquíria, estrelado e produzido por Tom Cruise. Ambientado na mesma Alemanha nazista de O Pijama..., Operação Valquíria resgata a fracassada tentativa do coronel Claus Graf von Stauffenberg e alguns oficiais alemães de remover Hitler do poder. O plano, complexo, envolvia dezenas de colaboradores. O grupo pretendia matar Hitler. Stauffenberg fracassou e os horrores perpetrados por Hitler se estenderiam ainda por longos nove meses até que a guerra, enfim, terminasse.
Os eventos da Segunda Guerra sempre me perturbaram por todas as razões aqui já expostas. É absurdo o que seres humanos foram capazes de fazer com seus semelhantes. E, como se nada de anormal tivesse acontecido, se reunir numa festa, jantar com a família, dormir, enquanto tantos eram executados nos campos de concentração. O cotidiano da Alemanha nazista era aterrador porque, apesar da guerra, a vida seguia ordinária.
O mais espantoso é que, diferente do que o senso comum indica hoje, a Alemanha de Hitler não nasceu ditadura nem fruto de um golpe de estado. Hitler foi conduzido ao poder pelo voto popular, em sucessivas disputas eleitorais legítimas. Nas primeiras, sequer tinha ampla maioria. Foi chanceler (primeiro-ministro) e tinha inclusive um presidente acima de si, Paul Von Hindenburg. Foi só a partir da morte de Hindeburg que Hitler acumulou os cargos de chanceler e presidente. Um plebiscito - depois da aprovação do parlamento - confirmou a mudança com impressionantes 89,9% de votos favoráveis. Começara a era do "fuhrer" (líder, em alemão) Hitler. A ditadura dava seus primeiros passos.
Até o fim de seus dias, o "fuhrer" gozou de prestígio popular. Suas ideias nacionalistas e de superioridade da raça ariana sobre as demais tinham imenso apoio da população civil, que fez vistas grossas, para dizer o mínimo, à fúria expansionista e beligerante de seu líder. As liberdades individuais foram suprimidas aos poucos. Primeiro as minorias (negros, homossexuais, ciganos, polacos, deficientes físicos ou mentais) estigmatizadas como inferiores, indignas. Depois, separadas. Passo seguinte, isoladas e encarceradas. Seus membros foram então mortos, tão rápido quanto fosse possível matar. Milhões de vidas terminadas nos horríveis fornos crematórios.
Não tenho a pretensão de resumir a história do povo alemão, da segunda guerra mundial ou do holocausto em pouco mais de 1.000 palavras. Falta espaço e competência para tanto. Tampouco quero parecer exagerado ou fatalista. Mas alguns movimentos neste início de século XXI me sugerem que as duras lições da Segunda Guerra e de quão traiçoeiras podem ser medidas sectárias de inspiração "democrática" chegam a me provocar calafrios.
Uma delas é, sem dúvida, a hoje aplaudidíssima cruzada antitabaco tornada lei pelo governador paulista José Serra. A partir de uma premissa válida - cigarro faz mesmo mal à saúde - transformou fumantes em vilões e dividiu a sociedade em duas. Os que fumam, seres "inferiores" subjugados pelo vício, e os que não fumam, seres "especiais", "inteligentes", que têm direito a um mundo livre de fumaça.
Não fumo e não é de hoje. Nunca fumei um único cigarro na vida. Gosto de charutos, que consumo ocasionalmente. Portanto, não advogo em causa própria. Mesmo assim, acompanho com tristeza o que vem acontecendo nas últimas semanas. Não fumantes viraram xerifes, julgando e condenando os que fumam. A impaciência é tanta que há os que reclamam inclusive de quem fuma ao ar livre. Estes "puros" e "superiores" não fumantes se irritam profundamente simplesmente por respirar, durante dois ou três míseros segundos, a fumaça que está em seu caminho. É como se câncer fosse contagioso e transmissível pelo mínimo contato com a nicotina e o alcatrão.
O governo Serra foi muito além de legislar com base em questões de saúde pública. É uma cruzada ideológica e perigosa. O cigarro está banido de praticamente todo ambiente coletivo, não apenas os fechados. Se uma tabacaria, por exemplo, servir comida aos frequentadores, será fechada. Assim, a nenhum fumante está reservado mais o direito de beber vinho, saborear um aperitivo, tomar refrigerante ou ouvir música ao vivo em companhia de seus amigos. Nem mesmo num local destinado a fumantes. Só pode fazer tudo isso dentro de casa.
A minoria fumante está acuada e, desgraçadamente, sem forças para reagir. Vivemos num mundo intolerante, onde o "politicamente correto" impera sem que as pessoas se questionem sobre os limites da invasão do Estado na sua vida privada, sem que a sociedade questione ou se pergunte qual será o próximo passo. A mesma base legal que serviu ao governador Serra para aprovação de sua legislação antitabaco pode servir no futuro a um governante fundamentalista que defenda outras exclusões quaisquer. Por exemplo, o banimento do consumo de álcool. A proibição de livros de "conteúdo impróprio" ou que sejam contrários a determinada orientação religiosa. Ou ainda a condenação a tratamento de saúde das pessoas com orientação homossexual sob o argumento de que "não são naturais". São muitas as possibilidades, todas elas ruins e perigosas.
Adolf Hitler era vegetariano e completamente abstêmio. Sua refeição favorita era um frugalíssimo prato de ravióli acompanhado de água mineral. Cordial no trato pessoal, adorava animais. Nunca se separava de seu pastor alemão, uma cadela de nome Blondi. Acreditava que Deus intercedia em seu favor e por isso, comemorava ter resistido a pelo menos 15 tentativas de assassinato. Também era antitabagista convicto. Não permitia que ninguém fumasse em sua presença. Tinha horror a cigarro.
Hitler se imaginava o modelo da perfeição e da supremacia da raça ariana. Tantos predicados não impediram que se convertesse no pior ser humano da história, alguém capaz de conduzir o mundo a uma guerra sangrenta e a discutir, calmamente, formas eficientes de eliminar milhões de pessoas, no que ficou conhecido como "A Solução Final", a alternativa nazista para o extermínio em massa dos "inferiores" judeus, polacos, homossexuais e afins.
Somos naturalmente imperfeitos, contraditórios e distintos, com milhões de particularidades que nos definem e nos tornam únicos.
Precisamos de menos condenação e de mais paciência. Sobretudo, precisamos assimilar as nossas limitações e diferenças de fato, como narrados de forma tão pungente - e emocionante - na obra O Menino do Pijama Listrado. Não podemos fingir que nossas ações, ainda que bem intencionadas, não trazem consequência. Acima de tudo e com grande urgência, precisamos de doses maciças de tolerância. O futuro é escrito hoje. As consequências, depois, podem ser dramáticas. E irreversíveis.
<b>CORRÊA NEVES JÚNIOR </b>
<i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i>
jrneves@comerciodafranca.com.br
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