Romeu e Julieta


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<b>COM O COMUM, O EXTRAORDINÁRIO</B> - Sua interpretação do clássico Romeu e Julieta, a prosaica goiabada com queijo, é fantástica, executada com maestria pela chef assistente Lelê Ribeiro.
<b>COM O COMUM, O EXTRAORDINÁRIO</B> - Sua interpretação do clássico Romeu e Julieta, a prosaica goiabada com queijo, é fantástica, executada com maestria pela chef assistente Lelê Ribeiro.
<b>"Todos os homens se nutrem, mas poucos sabem distinguir os sabores."</b> <i>Confúcio, filósofo chinês</i> Tenho sobrenome português e traços árabes, herança genética de minha linhagem paterna, os Corrêa Neves. Mas a minha alma é italiana, o que devo à minha mãe e seus antepassados, os Machiavelli. Gosto de conversar, falo com as mãos, choro por qualquer bobagem e detesto me aproximar de qualquer um sem tocar. Para mim, via de regra, cumprimento tem que ter beijo e carinho deve ser público. E, como todo bom descendente de italianos, acredito que sentar-se à mesa com pessoas queridas é um dos maiores prazeres que a vida nos oferece. Não importa muito se é um almoço de domingo com a parentada reunida ou um lanche com os colegas de trabalho, se um encontro romântico a dois ou um jantar com amigos, a boa mesa tem a capacidade de acolher, de reduzir barreiras, de estimular as conversas e aproximar as pessoas. E, muito mais importante, é capaz de acariciar os espíritos. Nem é preciso muita sofisticação para que se produza o efeito desejado. Um pedaço de pão quente, fatias de queijo, um bom azeite e uma garrafa de vinho dispostos sobre uma mesa são capazes de operar pequenos milagres. É claro que se a tal mesa estiver localizada num restaurante bonito, simpático, onde haja espaço para conversa preguiçosa num ambiente acolhedor, e onde a comida seja preparada com carinho, cuidado e competência, tanto melhor. Encontros em lugares assim costumam ser mágicos, destes em que a gente torce para que não cheguem ao fim, nos quais a alma - embalada pela conversa e pelo vinho - e o espírito - reconfortado pelos cheiros e sabores - ficam leves, felizes. Historicamente, Franca teve poucos lugares assim. Há o Barão, tradicionalíssimo, que resiste ao tempo e mantém-se firme há décadas, templo do consagrado "JK" e do sempre perfeito churrasco no espeto. Mas a casa comandada por "Piu" é quase caso único. Faz companhia a ele o Frutos do Mar, que já mudou várias vezes de endereço mas que mantém intocada a qualidade de sua comida, o frescor de seus ingredientes. E o preço, às vezes um pouco acima do recomendado, de seu menu. Restaurantes há vários, dos indefectíveis "self-service por quilo", que se contam às dezenas e hoje são onipresentes, às churrascarias tipo rodízio, das pizzarias que se espalham por todos os bairros aos bolotas que, mesmo atacados, sobrevivem. Mas espaços para a conversa sem demora, para o deleite de uma viagem por sabores surpreendentes sem o inconveniente da música alta, para os vários cafés antes de pedir a conta e para os encontros sem o olhar feio de garçons apressados, são raros. Um destes lugares especiais fechou as portas há exatos dois anos. Foi no Dia dos Pais de 2007 que o Mansuetto, a casa de Pedro Lemos, funcionou pela última vez. O Mansuetto marcou época. Foi um grande restaurante. Ambiente lindo, comida excelente, carta de vinhos moderna e variada, atendimento impecável. Até hoje custo a entender o que deu errado ali, mas o fato é que, quaisquer que sejam as razões, o Mansuetto fechou. Deixou órfãos centenas de frequentadores que, como eu, tinham se acostumado com a eficiência do maitre Odair de Souza e de sua equipe, com as noites invadidas na companhia de amigos para saborear as delícias do cardápio sempre em mutação executado com esmero pelo chef Wagner da Silva. Sem o Mansuetto, a Rodovia Cândido Portinari, rumo a Ribeirão Preto, passou a ser a alternativa possível para quem buscava variações que fugissem da pizza, do rodízio de espeto ou dos bares de moçada sempre lotados. O cenário começou a mudar nos últimos meses. A sucessiva abertura de novos restaurantes em Franca reacendeu a esperança dos que esperam mais de uma casa do que pagar R$ 9,90 por quilo de comida. Três destes lugares são especiais. Café Santantonio, Feng Sushi e Azul. O trio tem em comum a concepção moderna e bem cuidada de seus ambientes, a proposta de inovar nos cardápios e na apresentação dos pratos com brigadas competentes na cozinha e equipes atenciosas e bem treinadas para servir os comensais. Tudo isso a preços razoáveis, acima do que se paga num self-service por quilo, obviamente, mas muito abaixo de casas equivalentes de outros centros, como Ribeirão Preto ou São Paulo. E com qualidade similar, o que é ainda mais surpreendente e louvável. O Santantonio, por exemplo, é muito mais que um café. Seu cardápio traz surpresas como os crostinis, entrada típica italiana feita com pão torrado coberto com tomate, presunto cru ou salmão. Há boas saladas, como a Caesar (alface, lascas de parmesão, fatias de frango). E pratos como filé com risoto de funghi (mignon grelhado com molho de cogumelos funghi, acompanhado de arroz e batatas gratinadas) ou o excepcional Paillard de filé (mignon finíssimo preparado como bife, acompanhado de fetuccine ao molho de parmesão). Tudo executado com competência pelo chef Nando Madureira, que veio de São Paulo para implantar a cozinha da casa. Experimente sem medo a boa carta de vinhos, que traz alguns óbvios italianos em companhia de excelentes surpresas argentinas e chilenas. A banana flambada com sorvete é ótima opção para quem já está cansado do chatíssimo creme de papaia com cassis presente em todos os cardápios francanos. No Feng Sushi, Danilo Vecchi Pedro e sua mulher, Viki, que moraram por anos na Europa, fizeram uma ousada aposta para o tradicional paladar francano. Criaram um Sushi Bar. Acertaram no alvo. A casa, simpática e com atendimento para lá de cordial, tem ótimos combinados de sushi e sashimi. Mas é nos temakis, uma espécie de cone de alga enrolado com frutos do mar variados, que a cozinha do Feng Sushi mostra seu vigor. Os temakis de salmão e cream cheese ou de polvo são ótimos. O prato executivo, que reúne 20 sushis e sashimis diversos (variam a cada dia), traz sempre novidades agradáveis. Mas é o Azul que reserva as melhores surpresas. O restaurante de Adriana Mendonça e de seu marido, Luís Cunha, escondido na Vila Flores, é sem dúvida o melhor de Franca na atualidade. A casa pequena e muito bem decorada, com capacidade para apenas 40 privilegiados, tem o mérito de "ressuscitar" parte importante da equipe do antigo Mansuetto. Estão lá o maitre Odair José e o chef Wagner da Silva. Que, em sua versão 2009, mostram que são capazes de ir ainda além do que já tinham feito. O cardápio, enxuto, é um primor, a começar do couvert. O pão chega quentíssimo à mesa, fumegante, acompanhado de manteiga de ervas e de coalhada. Tudo é feito no próprio restaurante, inclusive o pão. A descoberta dos sabores segue pelas entradas. Experimente a salada de grãos com mix de folhas verdes, preparada com quinoa, uma semente finíssima que lembra trigo, ou o mix de folhas verdes com presunto de Parma e figos. Para aquecer o estômago e a alma, siga sem medo o palpite de Odair e peça a "sugestão do chef", um filé mignon recheado com presunto de Parma, coberto por molho de vinho Marsalla e acompanhado por uma inusitada batata "pão de queijo", um levíssimo purê envolto numa crosta crocante. Há ainda costeletas de cordeiro muitíssimo bem preparadas, acompanhadas de um arroz picante e batatas coradas, e o tradicionalíssimo Spaghetti com Polpetta, executado na versão do Azul com picanha recheada com muçarela de búfala. Independente do quanto tenha se fartado, faça um esforço adicional e aventure-se pelas sobremesas. Se nos pratos salgados o Azul mostra que conseguiu em pouco tempo superar a qualidade do antigo Mansuetto, é nos doces que sua cozinha revela estar pronta para enfrentar em pé de igualdade qualquer restaurante de São Paulo. Sua interpretação do clássico Romeu e Julieta, a prosaica goiabada com queijo, é fantástica, executada com maestria pela chef assistente Lelê Ribeiro: um suflê muito suave, acompanhado de creme de queijo, que fecha com perfeição uma noite de prazeres. Do começo ao fim, tudo é impecável no Azul. Do atendimento ao café, do couvert à carta de vinhos com rótulos a preços bastante razoáveis dos principais países produtores, como Itália, Argentina e Chile, há muitas surpresas e nenhum tropeço. E, se você tiver sorte, pode ainda encontrar uma menina de 10 anos, esguia e de cabelos cacheados, que é vista com frequência por lá. Inteligente e esperta, a menina adora conversar e atua como embaixadora informal do restaurante. Alegre, está sempre pronta para explicar em detalhes o cardápio. Seu nome é Júlia. Minha filha. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR</b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br

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