Brasil Colônia


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<b>NOVA VIDA</B> - Estava cansado do ciclo imutável do sertão, das roças que não prosperam, do milho que morre seco sem ser colhido, da corrida atrás de caminhões-pipas em busca de um bocado d`á
<b>NOVA VIDA</B> - Estava cansado do ciclo imutável do sertão, das roças que não prosperam, do milho que morre seco sem ser colhido, da corrida atrás de caminhões-pipas em busca de um bocado d`á
<i>"A ausência de alternativas clarifica maravilhosamente a mente"</i> <b>Henry Kissinger, político americano</b> Conheci ontem um fantasma. "Pernambuco" é como se apresenta aos que têm a oportunidade de conhecê-lo. Aos olhos do Estado Brasileiro, o espectro "Pernambuco" nunca existiu nesta ou em qualquer outra vida ainda que, paradoxalmente, seja feito de carne e osso, assim como eu ou você. Aos 18 anos, não tem RG nem CPF, nunca teve carteira de trabalho, jamais contribuiu para a previdência social nem tem qualquer ideia do que seja uma conta de Fundo de Garantia. Nunca recebeu salário mensal, jamais experimentou o gostinho de gastar um 13º com presentes para os que são queridos nem o prazer de gozar justas e merecidas férias. Certidão de nascimento é possível que seja o único documento que tenha tido, ainda que não tenha certeza absoluta disso. É lá que deve estar gravado seu nome oficial, Cícero Vanesso dos Santos. Um brasileiro como eu ou você. Ou que, pelo menos, deveria ser. Não que ele seja vagabundo. Trabalha, e muito. O azar foi que "Pernambuco" nasceu na região mais pobre do Estado que lhe deu o apelido, parte de um outro Brasil, de um país que devia estar sepultado há séculos mas que teima em resistir, em desafiar nossa capacidade de construir uma nação moderna, mais justa e capaz de oferecer chances iguais a todos. Foi no distrito de "Vila do Espírito Santo", ao lado do município de São Bento do Una, que passou quase toda a vida. Na tal vila, a vida corre lenta, seca, sem perspectivas, marcada pelo ritmo duro das rodas chiadas dos carros de boi em pleno século 21. Casa grande é a que tem quatro cômodos. As mais simples, como a dele, têm um só. O piso é de chão batido. Azulejo, nunca tinha visto de perto. Quem tem sorte, caminha sobre cimento queimado. O banheiro fica ao lado. Privada de louça não tem. A latrina é de cimento, um buraco mínimo para acolher os excrementos de quem mora por ali. Banho é de água fria, na caneca. Sua avó, com quem vivia, tinha o cuidado de esquentar a água. O hábito era visto com reserva. "Esses aí tão com luxo...", criticavam os vizinhos. Cama é o eufemismo que usa para designar a tolha estendida sobre ripas de madeira apoiada em tijolos onde dormia. Ainda assim, lembra que há os que sobrevivem com menos, nas casas tortas de barro batido que ameaçam desabar sobre os que se escondem do sol forte debaixo do frágil teto de palha. "Dá medo", diz "Pernambuco". Neste Brasil miserável, as oportunidades são tão escassas quanto a chuva, que pinga vez por outra em janeiro. Só tem a roça. Menino ganha R$ 5 por dia. Homem feito, R$ 12. Claro, sem qualquer registro formal. Pelo dinheiro minguado, trabalho duro de sol a sol. Carpir, cavar, cuidar do rebanho magro de bodes e ovelhas. O dia começa com café preto e pão seco. No almoço, feijão e farinha. Se quem contrata tem condições melhores, acrescenta charque à bóia. À noite, mais do mesmo: feijão, farinha e charque. Dia feliz é dia que tem cuscuz. "Pernambuco" adora. Até bem pouco tempo, cuscuz era o que de melhor poderia haver. Nunca tinha comido lasanha, pizza, x-tudo, churrasco. Também desconhecia o que era tomar banho de chuveiro, com água quente, corrente, à vontade, ou dar descarga. Sim, apertar a válvula para expulsar os dejetos ainda pode ser um luxo para muitos neste País de tantos contrastes. Por lá, melhor sorte tem quem se aposenta. O benefício mensal fixo é visto como regalia. "Aí fica tranquilo, tá com a vida mansa", explica. Quem consegue a aposentadoria, ainda que de um salário mínimo, e junta uns trocados, pode subir um pouco na escala social. O mais prático é comprar um carrinho. E cobrar pelo transporte de vizinhos até as cidades maiores. Cobra-se R$ 2 por cabeça. É o mesmo preço que "Pernambuco" pagou para viajar sentado num banco de madeira sobre a carroceria de um caminhão até Juazeiro do Norte, no Ceará. Dia inteiro sacolejando na paisagem árida para render homenagens ao "Padim Ciço", o padre Cícero Romão Batista, polêmico religioso cultuado por milhões de nordestinos como ele. Além do aspecto puramente religioso, a aventura não deixa de ser encarada como uma excursão, um divertimento para quem tem que se contentar com tão pouco. Além de Juazeiro, há pouco a fazer para se distrair por lá. Há a sinuca nos botecos, em mesas alugadas a R$ 0,10 a partida. As rodadas de caxeta para quem gosta de carteado. E as festas juninas, promovidas uma vez por ano debaixo de tendas improvisadas com encerados. Foi quando completou quinze anos que "Pernambuco" resolveu tentar dar novo rumo à sua vida. Estava cansado do ciclo imutável do sertão, das roças que não prosperam, do milho que morre seco sem ser colhido, da corrida atrás de caminhões-pipas em busca de um bocado d`água. Sem perspectiva, tinha feito da cachaça barata sua companheira de todas as noites. Decidiu que não queria mais aquilo para si. Deixou para trás o vilarejo e embarcou num ônibus para São Paulo. E de lá, para Franca, para morar com a mãe que tinha feito o mesmo trajeto anos antes. Chegou aqui de Cometa. Achou o ônibus incrível. "Tem até cama". A água mineral oferecida aos passageiros parecia presente de Natal. "Geladinha, clarinha". Tomou quatorze copos. Nem se importava com a matula pobre onde trouxe uma bermuda e uma cueca. Além da roupa do corpo, eram seus únicos bens. Desde que chegou por aqui, "Pernambuco" tem trabalhado como servente de pedreiro. O registro em carteira ainda não conseguiu, mas o dinheiro que recebe, cerca de R$ 30 por dia, parece inacreditável. Quase tudo fica com a mãe, mas "Pernambuco" não se importa. Sorri, brinca, toma banho de chuveiro, come até se fartar, assiste televisão. Feliz, começou a sonhar. Tem um celular, economiza dinheiro para comprar roupas novas. Quer mudar de casa e viver, se possível, em Rifaina, onde uma boa família está pronta para o receber. Não se cansa de admirar a beleza da represa da Jaguara, sua água limpa e doce. Apaixonou-se por uma moça a quem dirige cartas de amor, joga bola, torce para o Palmeiras. "Pernambuco" vai morrer daqui a dois meses e isso não é ruim. É quando fica pronto seu RG. Em seu lugar, vai nascer Cícero dos Santos. Que quer voltar a estudar e aprender um monte de coisas, que quer namorar e se divertir. Que, com muito atraso mas ainda em tempo, vai ser um cidadão brasileiro. Até que enfim, como eu ou você. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR</b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br

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