O Brasil é um País singular. Nação jovem, foi oficialmente "descoberta" por navegadores portugueses há pouco mais de 500 anos. Antes do período colonial, habitavam estas terras índios das mais diversas origens e características.
Guaranis, Ianomâmis, Tupinambás, Caiapós, Kraós, Pataxós e outras denominações se multiplicavam em milhares de tribos espalhadas pela terra exuberante batizada de Ilha de Vera Cruz. Além dos conterrâneos de Camões, os cinco séculos seguintes marcariam a chegada a estas bandas de milhões de imigrantes. Europeus de todos os cantos - italianos e espanhóis, principalmente - se misturaram aos índios, aos portugueses, aos japoneses e a milhões de negros trazidos contra a vontade, desde a África, como escravos.
O brasileiro contemporâneo é o fruto desta miscigenação praticamente única no mundo. Tão forte e intensa que sequer é possível falar em típico físico nacional. Qualquer um - e todos - podem ser brasileiros. Uma loira alta de olhos azuis é brasileira tão autêntica quanto a menina franzina de pele escura e olhos puxados. E ambas não são menos brasileiras do que o negro retinto de músculos definidos. Por isso mesmo, somos um povo tão bonito e sensual, alegre, naturalmente carinhoso e extrovertido.
São brasileiros alguns dos maiores esportistas de todos os tempos, muitos dos músicos, vários escritores. Nossos empresários construíram companhias que hoje se espalham por todos os continentes. Há uma série de boas razões para definir o orgulho de ser brasileiro. Da exuberância natural de nosso País aos traços estonteantes da modelo considerada a mais bela do mundo, dos malabarismos com a bola de Pelé aos textos de Machado de Assis, sobram razões para nos encher de orgulho.
Há também mazelas que nos deprimem. Desigualdade social, violência, ignorância. Mas é uma delas, em especial, que nos envergonha e enoja acima de todas as outras: a péssima índole e a quase total ausência de caráter de parcela significativa da classe política nacional. Este mal, que sucessivas gerações de brasileiros fracassaram em combater, insiste em desafiar nossas virtudes, nossa capacidade de realizar, nosso amor próprio. Os políticos nacionais são, sem nenhum exagero, a escória da sociedade, o que há de pior, com cada vez mais raras - e honrosas - exceções.
Não faltam defeitos comuns a esta parcela majoritária dos políticos brasileiros. A começar pelo despreparo. Poucos têm mínima noção de seu papel na sociedade. Não se trata de exigir diplomas ou doutorados para quem queira exercer atividade política, mas ter o mínimo de noção do que fazer deveria ser prerrogativa obrigatória a qualquer candidato. Tem vereador que sequer sonha com as funções de um legislador e confunde a cadeira nas Câmaras Municipais com a tarefa de um despachante. Há prefeito que vê no paço municipal a extensão de seus interesses particulares. Muitos parlamentares parecem imaginar que o Congresso Nacional é balcão de negócios e sua função é esparramar, como praga, os apadrinhados pelos milhares de cargos públicos nas centenas de estatais.
Tome-se como exemplo os últimos acontecimentos envolvendo um certo José Rybamar Ferreira de Araujo Costa. É possível que seu nome de batismo não soe familiar, mas o apelido todos conhecem. José Rybamar é ninguém menos que José Sarney, o ex-presidente da República que hoje comanda o Senado. Há semanas Sarney enfrenta pesadas e sérias denúncias de corrupção.
Primeiro, por ter usado do expediente de usar "atos secretos" para toda sorte de nomeações e ações que desejava manter escondidas da opinião pública. Foi quando os tais "atos secretos" se tornaram públicos é que foi possível saber que boa parte do clã Sarney se espalha por diversos cargos do Senado. Primos, netos, namorados dos netos e afilhados políticos vivem do nosso dinheiro. Até o mordomo de Roseana, a filha de Sarney que também é governadora do Maranhão, era pago pelo Senado. Claro, com salário de gerente de multinacional: R$ 12 mil mensais, mais benefícios.
Como na política brasileira o poço nunca tem fundo, descobriu-se neste final de semana que a família Sarney e suas empresas respondem ainda a nada menos de 17 ações fiscais movidas pela Receita Federal. Os suspostos crimes cometidos são típicos de mafiosos ou de gente que opera no mesmo nível: remessa ilegal de recursos para o exterior, falsificação de contratos de câmbio e lavagem de dinheiro.
Apesar de todas as evidências, Sarney continua impávido. Segue na presidência do Senado. Apoiado, tristemente, pelo presidente da República. Lula chegou a declarar, durante a semana, que "Sarney não é uma pessoa qualquer". E que sua biografia merecia "atenção", como se a condição de ex-presidente atenuasse a gravidade dos crimes pelos quais é acusado.
É óbvio que político ruim não é exclusividade do Brasil.
Denúncias e escândalos contra políticos pipocam em todos os cantos do mundo. A diferença entre o Brasil e os países civilizados é o que acontece depois que a sujeira se torna pública. Enquanto em terras estrangeiras o denunciado se envergonha e renuncia - quando não, se mata ou é preso - por aqui o que impera é a indiferença e o deboche.
Nossa classe política perdeu de vez a vergonha na cara. É como se toda a diginidade de nossos representantes tivesse se esgotado com o sangue de Getúlio Vargas. O ex-presidente da República, em pleno exercício do poder, foi capaz de por fim à própria vida quando viu seu nome envolvido numa mal explicada emboscada contra um adversário político. O nome de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio, apareceu entre os possíveis mandantes. Bastou para que o presidente, que já enfrentava intensos ataques, decidisse "deixar a vida para entrar na história". Deu um tiro no peito. De vergonha.
Sem nenhuma apologia ao suicídio, é no mínimo redentor observar como, em muitos casos, homens públicos que têm a honra atingida optam por pôr fim à própria vida. Nesta espécie de harakiri - o ritual do suicídio como forma honrosa de morrer eternizado pelos samurais japoneses - o acusado "limpa" a reputação e tenta proteger sua família oferecendo a própria vida.
Não faltam exemplos, alguns deles, dramáticos. Budd Dwyer, político americano, viu seu nome envolvido num esquema de corrupção na Pensilvânia em 1987. Para os padrões brasileiros, coisa pouca, de US$ 300 mil. Envergonhado, Dwyer convocou a imprensa e, depois de jurar inocência, matou-se com um tiro na própria boca. Ao vivo.
Mais recentemente, em 2007, o Ministro da Agricultura do Japão, Toshikatsu Matsuoka, enforcou-se após ver seu nome ligado a um escândalo de desvio de dinheiro público. O volume de recursos surrupiados por Matsuoka beira o ridículo para os padrões nacionais: menos de US$ 150 mil em doações irregulares de empreiteiras.
Neste ano, em maio, na Inglaterra, o ministro-adjunto da Justiça, Shahid Malik, renunciou ao cargo após ser acusado de infringir o Código de Conduta de Ministros para Gastos Pessoais. O crime de Shahid foi pagar com dinheiro do governo jantares e viagens. O volume financeiro era irrisório. O escândalo levou o primeiro-ministro, Gordon Brown, a pedir desculpas ao povo britânico.
No mesmo mês, o ex-presidente da Coréia do Sul, Roh Moo-hyun, pulou de um penhasco. O suicídio aconteceu dias depois de Roh depor a uma comissão que investigava uma denúncia de suborno. "Sinto muito por ter desapontado vocês. Não tenho mais coragem de aparecer em público", lamentou, envergonhado.
Cinquenta e cinco anos depois do tiro no peito de Vargas, os políticos brasileiros trocaram de vez a vergonha pelo escárnio. Zombam de nós, sem pudor. É deputado que se "lixa para a opinião pública", é parlamentar dono de castelo que acaba absolvido pelo Conselho de Ética, é presidente do Senado que continua no exercício pleno de uma das funções mais importantes da República mesmo atolado num mar de lama. Ninguém se desculpa, ninguém renuncia, ninguém se envergonha. E, muito pior, nenhum deles se mata. Pobres de nós, brasileiros.
<b>CORRÊA NEVES JÚNIOR </b>
<i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br
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