Invencível


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Hora de desistir? Não para Alencar. Essa palavra simplesmente não traz significado algum para este homem que todos os brasileiros têm aprendido a admirar.
Hora de desistir? Não para Alencar. Essa palavra simplesmente não traz significado algum para este homem que todos os brasileiros têm aprendido a admirar.
<b><i>"Verdadeiramente imoral é desistir de si mesmo" Clarice Lispector, escritora</i></b> José Alencar nasceu em Muriaé, Minas Gerais, em 1931. Pobre, começou a trabalhar na vendinha da família aos sete anos. Era um País predominante rural, recheado de milhões de oportunidades para quem tinha garra, sonhos, ambição. Foi atrás de seu destino que o menino Alencar correu quando partiu em busca de uma oportunidade. Começou a trabalhar como balconista na loja "A Sedutora", especializada em tecidos, ainda em Muriaé. Tinha 14 anos. Foi seu primeiro flerte com o negócio que seria determinante em sua vida. Três anos depois, quis um emprego melhor, ainda que para isso tivesse que mudar de cidade. Foi viver em Caratinga para trabalhar na "Casa Bonfim". Aos dezoito anos, acumulava mais de uma década de trabalho e era reconhecido como exímio vendedor. Estava pronto para um passo decisivo. Abrir o próprio negócio, o que fez com a ajuda de um irmão, que lhe emprestou parte do capital. Nascia "A Queimadeira", uma loja que vendia chapéus, calçados, guarda-chuvas. Depois do primeiro, muitos outros negócios se sucederiam - de cerealista a fábrica de macarrão - em outras tantas cidades até que José Alencar chegasse aos anos 60 e à Coteminas, a Companhia de Tecidos do Norte de Minas Gerais. Fundada em Montes Claros em 1967, a Coteminas precisou de menos de dez anos para se transformar na maior tecelagem do Brasil. Neste instante, 1975, o garoto pobre de Muriaé já havia se convertido num homem de negócios respeitado. Rico aos 44 anos, já tinha feito muita coisa. Podia se orgulhar de sua trajetória e aposentar, se desejasse. Mas o teimoso mineiro queria muito mais. E seguiu em frente. Nos anos seguintes, fábricas da Coteminas se multiplicariam pelo Brasil, cruzariam as fronteiras e tornariam marcas como "Santista" e "Artex" familiares para consumidores de dezenas de países mundo afora. O conglomerado industrial chegou a fábricas que se contavam às dezenas; funcionários que somavam milhares e faturamento medido na casa do bilhão. Eram os anos 90 e o menino que nascera pobre há muito era um empresário de sucesso. Virou presidente da Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) e vice da CNI (Confederação Nacional da Indústria). As atividades empresariais de Alencar passaram cada vez mais a dividir espaço na agenda com sua atuação política. Candidatou-se a governador de Minas Gerais em 1994. Perdeu. Persistente, voltou à disputa eleitoral. Em 1998, com mais de três milhões de votos, foi eleito Senador da República. Quatro anos mais tarde, Alencar daria um novo salto. Numa improvável composição política, o homem filiado ao Partido Liberal acabaria eleito vice-presidente da República na chapa encabeçada pelo petista Luiz Inácio Lula da Silva. Seu jeito calmo e sereno de falar, mas sempre assertivo e firme na defesa de suas posições, tornou-se cada vez mais familiar aos brasileiros. A associação de seu nome a médicos, hospitais, internações, cirurgias e tumores, também. Conheci José Alencar pessoalmente no ano passado. Foi durante a 40ª Francal, realizada em meados de 2008 no parque de Exposições do Anhembi, em São Paulo, que tive o prazer de apertar suas mãos. Presidente da República em exercício - Lula viajara ao Exterior -, Alencar chegou um pouco atrasado ao Anhembi. Ao cumprimentar diretores da Francal, singelamente desculpou-se. "Não havia teto em Brasília para que a aeronave decolasse. Por isso, a demora...". Apesar de toda a pompa - ajudantes de ordem, seguranças, assistentes - que acompanha quem exerce a presidência da República, Alencar foi de uma simplicidade marcante. Cumprimentou a cada um dos presentes no espaço destinado à sua recepção com paciência e cordialidade. Aos de Franca, como eu, reservou sempre uma palavra de carinho com relação à cidade, o que repetiria instantes depois em seu discurso na solenidade formal. "Como mineiro, devo confessar que gostaria que Franca fizesse parte de Minas Gerais", brincou. Arrancou aplausos da plateia. Foi surpreendente constatar, de perto, como aquele homem de mais de 75 anos caminhava sozinho, passos firmes acompanhados pela tropa que o cercava. Parecia absolutamente à vontade, disposto, animado. E com muitos planos. Era difícil imaginar que aquele corpo que sustentava Alencar era o mesmo submetido até aquela data há mais de uma dúzia de diferentes cirurgias para extirpar tumores malignos distintos de seu corpo, num longo e doloroso processo que se estendia desde 1997. Alencar parecia indiferente a todo sofrimento, como se fosse capaz de sublimar a dor, a angústia, o medo e as incertezas de quem recebe um diagnóstico de câncer. Nos meses que se seguiram àquele encontro Alencar surpreenderia o país com novas demonstrações de força e coragem ilimitadas. Diagnosticado com uma recidiva - termo médico para designar o ressurgimento de tumores tratados ou extirpados - do câncer abdominal pela quarta vez, Alencar submeteu-se no início do ano a uma brutal intervenção cirúrgica, de altíssimo risco. No lugar do desânimo ou desolação compreensíveis, doses maciças de esperança. "Vamos à luta pela vida", resumiu o paciente Alencar antes de ser sedado. Durante 18 horas, foi operado por uma junta formada por diversos especialistas. Mais de uma dezenas de tumores foram extirpados e seu corpo "lavado" depois, internamente, com medicamento quimioterápico. Sobreviver a uma cirurgia destas já seria um grande feito. Sair dela curado, um pequeno milagre. Alencar confirmou a primeira premissa, mas não a segunda. Apesar da expectativa inicial de cura, o câncer não tardou e ressurgiu dois meses depois. Novas cirurgias foram descartadas pela equipe médica. Hora de desistir? Não para Alencar. Essa palavra simplesmente não traz significado algum para este homem que todos os brasileiros têm aprendido a admirar. Com impressionante serenidade, Alencar falou ao País sobre a doença, as perspectivas, sua fé. Mas avisou: desistir, nunca. E lá foi ele de novo em busca de tratamento. Como a medicina tradicional não oferecia mais respostas para sua enfermidade, o vice-presidente rumou para os Estados Unidos, onde aceitou submeter-se a um tratamento experimental. Otimista, como sempre, mas igualmente realista sobre suas chances. Nesta última semana, durante mais uma interinidade - Lula havia viajado à Itália para participar de uma reunião do G8 - na presidência da República, a saúde voltou a incomodar Alencar. O corpo, fragilizado por outros dezoito tumores diagnosticados na cavidade abdominal, reagiu com uma obstrução intestinal. O vice foi internado com fortes dores, melhorou, teve alta, saiu. Mas voltou dois dias depois. Direto para a sala de cirurgia, para desobstruir parte do intestino. O vice-presidente foi operado na quinta-feira, venceu mais uma batalha e já se recupera no quarto. Os médicos aproveitaram a nova cirurgia para extirpar mais um punhado de tumores - dez, nesta intervenção. Na sexta-feira, Alencar já conversava com sua família e despachava com assessores. No sábado, se inteirava sobre os detalhes dos escândalos de corrupção do Senado com políticos que o visitavam. Alencar tem uma vida da qual pode se orgulhar. Constituiu família, tem filhos e netos que podem confortá-lo. Construiu uma empresa sólida, gerou empregos e riquezas. Disputou e venceu eleições. Fez o que pode, de acordo com suas convicções, para melhorar o Brasil. Tudo isso, importante, fica pequeno diante do maior exemplo de Alencar. É sua coragem e o amor que tem à vida que o definem e o tornam especial. Principalmente porque ele não se ilude nem nega o tamanho do problema. Alencar sabe que tem uma enfermidade grave e que a luta é difícil. Apesar de tudo, segue em frente sem medo, com bravura, como se ainda tivesse 14 anos e vivesse em Muriaé, pronto para o próximo desafio. O tempo passou, o corpo acusa a idade, mas o espírito de José Alencar permanece o mesmo. E um grande exemplo para todos nós, muitas vezes hesitantes diante de problemas que, na dimensão de uma vida, são insignificantes. Que o exemplo de José Alencar possa, hoje e sempre, nos inspirar. Porque, não importa o que aconteça, Alencar é invencível. E seu legado, a importância de não se deixar abater. Nunca. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR</b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br

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