Pitbull


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A Francal reservou a noite de segunda-feira, 11 de maio, para o tradicional jantar anual de lançamento da feira que leva seu nome. É um evento tranquilo, despretensioso, uma celebração entre parceiros que participam da maior feira calçadista do País. Ou, pelo menos, costuma ser. Mas o jantar desta última semana no Comfort Hotel, que apresentou em linhas gerais o que a organização prepara para a 41ª edição da feira, a ser realizada em julho na capital paulista, fugiu um pouco do script. Tudo obra e graça do prefeito Sidnei Rocha que, num discurso prá lá de ácido, capaz de provocar náuseas em espectadores mais sensíveis, partiu para o ataque com força máxima. Numa noite que deveria ser de confraternização, Sidnei bateu duro, sem dó. Foram 25 minutos de frases agressivas, quase sempre pontuadas por adjetivos pouco edificantes, tudo destinado a um segmento claro e específico: os empresários do setor calçadista que formavam a quase totalidade dos convidados da noite. O público que acompanhou Sidnei Rocha quase entrar em transe durante seu discurso, tão fartos e intensos eram os gestos que acompanhavam o áspero palavreado, poderia supor que o prefeito estivesse de péssimo humor. Não estava. Quem o viu antes ou depois pôde comprovar que Sidnei estava tranquilo, cordial. Logo não é demais concluir que nada houve de improviso em sua performance. Sidnei Rocha sabia muito bem o que - e, principalmente, para quem - dizer. Último a discursar, estava determinado a fazer com que o ouvissem com atenção. Conseguiu. Desde as primeiras palavras, todos o acompanharam atentamente. Alguns assustados, outros incrédulos, uns poucos assentindo afirmativamente. Todos, indistintamente, surpresos com a dureza de suas palavras. Não que Sidnei Rocha tenha dito qualquer absurdo. Sobre tudo o que falou, estava certo. Ao menos, em tese. Para começar, criticou duramente parcela do empresariado que sonega impostos e pratica concorrência desleal com os que agem dentro da lei. A muitos dos presentes, a generalização soou como ataque quase pessoal. Disparou contra a pouca atenção dada pelos empresários ao simbolismo embutido no lema “Franca, a capital do calçado”. Para o prefeito, uma marca tão forte é simplesmente ignorada pelos fabricantes, como se fosse irrelevante. “Nos anúncios que fazem em campanhas de abrangência nacional nunca vejo referência a Franca”, reclamou. “Deste jeito, é melhor parar de falar que somos a capital do calçado”, provocou. Por fim, definiu como inaceitável e vergonhosa a falta de interesse de muitos fabricantes em participar da Francal. Sidnei disse ter ficado decepcionado ao verificar o baixo interesse dos pequenos calçadistas da cidade em participar do estande coletivo de Franca. O espaço, mantido pela Prefeitura em parceria com a Francal, o Sindicato da Indústria e o Sebrae, oferece preços e condições subsidiados para facilitar a participação de indústrias de menor porte. O custo é pequeno, em média R$ 6 mil por empresa. Mesmo assim, apenas 60% dos quase 1.150 m2 disponíveis estavam reservados até segunda-feira. Daí, a ira do prefeito. “É um absurdo. O estande está lindo, em local nobre, privilegiado. Pagamos uma parte dos custos (...) e, quando a gente vai ver, tem só 20, 30 com espaços reservados”. A irritação do prefeito Sidnei Rocha é compreensível. Entender como pensa e age parcela significativa dos calçadistas francanos é um desafio e tanto. Alguns fatos, entretanto, ajudam a explicar, ao menos em parte, o comportamento deste grupo. O mais óbvio deles é que Franca tem fabricante de mais e empresário de menos. Nossos calçadistas se preocupam muito com a manufatura do calçado e quase nada com a criação de produtos de sucesso. Preferem produzir para terceiros colocarem suas marcas a desenvolver suas próprias identidades vencedoras. Parecem obstinados em produzir sapatos cada vez mais baratos, com margens de lucro cada vez mais estreitas, ao invés de apostar suas fichas em modelos mais caros, que remunerem melhor. E, para piorar, a grande maioria parece convencida de que só pode fazer sapato masculino, ignorando, com honrosas exceções, o segmento feminino, que não apenas remunera melhor como também responde por volumes significativamente maiores. Nem é preciso qualquer estudo mais profundo para se constatar que, em qualquer casa, por mais modesta que seja, a proporção é de pelo menos quatro sapatos femininos para cada par masculino no armário. Há ainda o problema da falta de métodos mais eficientes de produção e tantos outros entraves já esmiuçados por especialistas como o consultor Zdeneck Pracuch em suas colunas de terça-feira aqui no Comércio. Por tudo isso, participar de uma feira para expor a qualidade do que se fabrica parece fazer pouco sentido para tantos calçadistas, por mais que a lógica indique o contrário. Há um outro fator, subjacente, que também é relevante e igualmente segue sem mudança: a falta de um mínimo de senso de realidade por parte das principais lideranças do setor. O discurso do presidente do Sindifranca, José Carlos Brigagão, é um bom indicativo desta dificuldade. No mesmo jantar, Brigagão apresentou o que pretende ser uma campanha para “valorizar a produção local e difundir a imagem de Franca pelo mundo”. O nada modesto objetivo seria alcançado a partir do selo “O melhor do Brasil é de Franca”. A ideia não é ruim, mas suas pretensões são imensamente maiores do que os recursos disponibilizados para alcançá-los. Em pleno século XXI, tempo de internet, de comunicação instantânea, de mídias convergentes, a única peça publicitária apresentada foi um folder (uma espécie de folheto) que será enviado a alguns milhares de lojistas. Só. Nada de um portal de internet, de participação em comunidades sociais, de patrocínios esportivos, merchandising. Para não dizer, óbvio, de comunicação de massa: nenhum comercial de TV, anúncio de jornal, spot de rádio. Nem mesmo um outdoor básico. Nada, só o tal folder, cujo esboço é bonito mas que, por si só, não vai difundir coisa alguma. Vai para o lixo, como vão 90% das malas-diretas que qualquer um de nós recebe. Consolidar a marca Franca como centro de qualidade de produção de calçados é uma ótima ideia. Torná-la efetiva exige muito mais. Além de trabalho, dinheiro. As palavras de Sidnei Rocha foram um soco no estômago de muita gente. Terminado o discurso, o prefeito circulou pelas mesas e partiu para o debate com os que se aventuraram a cobrar explicações suas. O conteúdo do que disse foi preciso. O lugar e a hora que escolheu para dar seu recado, não. O prefeito poderia ter esperado oportunidade melhor. Ainda assim, apesar de errar na forma, Sidnei Rocha acertou no conteúdo. Menos mal. Também, se não fosse assim, quem disse que seria Sidnei Rocha? CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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