Bandidagem democratizada


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Um grupo de cinco vereadores de Igarapava ganhou notoriedade esta semana por uma razão bem pouco edificante. Acusados por formação de quadrilha e concussão, definição jurídica para chantagem, quatro deles - José Laudemiro Alves, o “Zé Bola” (DEM); José Eurípedes de Souza, o “Zezinho da Boate” (PT); Sérgio Augusto de Freitas, o “Serginho” (PP); e Roberto Silveira (PSDB) - foram presos em flagrante. Saíram de uma sala de reunião na prefeitura de Igarapava direto para a cadeia de Pedregulho. O presidente da Câmara Municipal e quinto integrante do bando, Alan Kardec de Mendonça (PSDB), protagonizou um fenômeno que seria capaz de impressionar até o Allan Kardec original, a grande figura que consagrou os fundamentos da doutrina espírita no célebre O Livro dos Espíritos. Alan Kardec, o de Igarapava, desapareceu da sala de reuniões sem deixar vestígios. O “nobre” parlamentar foi encontrado, quase 24 horas depois, “materializado” dentro de uma caixa de papelão nos fundos de um armário da prefeitura. Covarde, passou a noite escondido. Felizmente, foi encontrado antes que tivesse oportunidade de fugir, ainda a tempo de ser reunido a seus “colegas” numa cela da cadeia de Pedregulho. O esquema do grupo era simples, direto, sem qualquer requinte ou sutileza, absolutamente imoral. Igarapava tem nove vereadores. Os cinco votos do grupo seriam suficientes para garantir a aprovação, por maioria, de qualquer projeto de interesse do prefeito. Ou, no sentido inverso, capazes de barrar qualquer iniciativa, por melhor que fosse. O pacto proposto era do tipo toma-lá-dá-cá. Por R$ 20 mil mensais, os cinco vereadores garantiriam fidelidade absoluta ao prefeito Francisco Molina (PSDB). Numa gravação telefônica autorizada pela Justiça, “Zé Bola”, espécie de porta-voz da quadrilha, dá mostras de como a atuação parlamentar do grupo levaria em conta os princípios ideológicos de cada um e os interesses do eleitor. “O que nós queremos é que o senhor (o prefeito) chegue e fale assim: ‘Zé, isso aqui é o que nóis conversô, na continha, tal dia’. Cabou!”, promete, sem cerimônia, ao prefeito Francisco Molina. “Ou é parceiro ou não é”, argumenta. Pagou, levou. Triste. E verdadeiro. Companheirismo não existia nem entre correligionários. Roberto Silveira, filiado ao mesmo PSDB do prefeito Francisco Molina, é ainda mais direto e rude do que seu colega “Zé Bola”. Avisa Molina que se não fechassem acordo, tudo “seria perdido”. Ou seja, os projetos estariam condenados a derrotas sucessivas. Molina tenta dissuadi-lo usando argumentos também pouco louváveis. Reclama que não seria fácil desaparecer com R$ 20 mil da prefeitura e oferece cargos no lugar de dinheiro. Roberto Silveira se mostra irredutível. Sem pudor, ameaça Molina: “Não adianta dar uma de durão porque vai sofrer”. A falta de vergonha sem limites abriu espaço até para um “saldão de votos”. Para fechar acordo, ofereceram uma espécie de “desconto promocional”. Aprovariam as contas da prefeitura relativas ao ano de 2006 por módicos R$ 16 mil, uma redução de 20% no valor do “contrato”. A “oferta” era por tempo limitado, válida apenas para fevereiro e março. A partir de abril, tabela cheia. R$ 20 mil mensais ou derrota certa. A indecência de Igarapava foi descoberta graças à rápida e firme atuação do Gaerco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado), que reúne promotores de Justiça de Franca. A partir de uma denúncia anônima de alguém que conhecia o nojo dos bastidores políticos de Igarapava, os promotores de Justiça começaram a investigar. Não precisou nem muita análise para que concluíssem que, onde havia fumaça, havia fogo, e dos grandes. Os indícios de crime eram flagrantes. Solicitaram e conseguiram autorização judicial para grampear e gravar as conversas dos suspeitos. Bastaram três semanas de monitoramento para que fosse tudo descoberto, com cinco vereadores presos e muita lama para limpar. O prefeito Francisco Molina terá também muito a explicar, já que não denunciou, ele mesmo, a corja que o chantageava. Por enquanto, é testemunha. No futuro, pode virar réu. Mas não é só. A atuação firme e rápida dos promotores de Justiça do Gaerco desnudou muito mais que a sordidez humana do bando de Igarapava. Mostrou também como podem ser “criativos” e “ideologicamente desprendidos”, quando convêm, certos tipos de homens públicos brasileiros. PSDB, PT, DEM, PP e outros partidos tentam há anos se entender, nos mais diversos níveis de governo, sobre graves e importantes dilemas brasileiros. Na presidência da República, em governos estaduais, nas prefeituras e nos vários Legislativos, ora um partido no governo ora na oposição, as principais legendas têm enormes dificuldades para concordar sobre qualquer coisa. Quase sempre, a visão particular de mundo de cada legenda prevalece, emperra o debate, barra o avanço. Tudo em nome de “convicções” muitas vezes ultrapassadas. Quando a questão envolve o bolso, entretanto, é surpreendente como pode haver “convergência” de propósitos e unidade de ação. A quadrilha de Igarapava reúne petista, tucano, democrata, pepista. Seguidores das legendas de Lula, FHC, ACM e Maluf reunidos, solidariamente, com o único propósito de forrar os próprios bolsos. Democracia plena a serviço da canalhice, com criatividade e coragem de sobra para extorquir, chantagear e ameaçar quem quer que seja. Até agora, o único partido político a se manifestar sobre o caso foi o PSDB. O presidente nacional, senador Sérgio Guerra, prometeu no sábado expulsar da legenda os dois tucanos envolvidos, Roberto Silveira e Alan Kardec Mendonça. É pouco, mas já é alguma coisa. DEM e PP permanecem em silêncio, assim como o PT. Espera-se para os próximos dias algum posicionamento destas legendas. No caso do PT, que costuma agir com admirável rapidez quando as denúncias envolvem território alheio, seria importante que se manifestasse não apenas com relação à participação do “companheiro” Zezinho da Boate nas atividades do bando, mas também sobre a maneira peculiar escolhida pelo vereador para guardar suas economias. Na casa de Zezinho, a Polícia Militar encontrou R$ 865 mil em dinheiro e cheques, além de um revólver e munição de variados calibres. Zezinho mantinha uma pequena fortuna em casa. O dinheiro ficava ali, perto do colchão. Desconheço a realidade de cada leitor, mas posso falar pela minha. Raramente tenho, nas propriedades que frequento ou usufruo, a milésima parte do que Zezinho armazenava consigo, literalmente. É de desafiar a criatividade imaginar a origem do dinheiro que fez Zezinho trocar a segurança e praticidade do sistema bancário pelo despojamento de sua propriedade em Igarapava. Fiquei até tentado a supor se a tal ‘Boate’ do nome do vereador é algum empreendimento de sua propriedade. Se o dinheiro for a féria do mês, ouso supor que os ‘negócios de entretenimento’ de Igarapava estão entre os atividades mais prósperas do mundo. Muito mais até que as atividades políticas pouco ortodoxas que levaram Zezinho para as celas de Pedregulho. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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