"Quando a morte vem chegando, parece que as pessoas ficam em paz. Param de lutar contra ela e se entregam com uma docilidade quase incompreensível"
Zevi Ghivelder, jornalista e escritor brasileiro
Sei umas poucas coisas sobre a vida de um certo sr. Angelino. Tinha 51 anos. Passou 34 deles ao lado de dona Sônia, sua mulher, de quem cuidava com zelo e atenção. Nesta longa jornada conjunta, nunca ficou distante dela por uma noite sequer. Passou a vida trabalhando na roça. Ultimamente, colhia laranjas numa fazenda em Pedregulho para garantir o sustento da casa. Criou três filhos e mais alguns afilhados, todas pessoas simples mas, aparentemente, de bom caráter, muito amorosos e cuidadosos uns com os outros. Gostava muito de cuidar de horta, de música sertaneja, de observar a beleza da natureza. E de comer ovos mexidos.
Sobre a morte do sr. Angelino, sei muito mais. A começar pelo local, dia, hora e circunstâncias. Sr. Angelinho morreu no rancho Bela Vista, em Rifaina, no último dia 13 fevereiro, em pleno sábado de carnaval. Passava pouco de uma da tarde. Foi vítima de um fulminante ataque cardíaco, destes tão definitivos que sequer reservam oportunidade para a mínima reação ou pedido de ajuda. Caiu na varanda da casa para a qual tinha se mudado 22 horas antes. Estava feliz com o novo emprego, com as pespectivas que se abriam, com os rumos que sua vida tomava. Tinha falado com os filhos, pela manhã, várias vezes. Queria que todos fossem até sua nova casa no domingo conhecer o lugar onde moraria e trabalharia. Duvido que por um único instante tenha imaginado que, ali mesmo, morreria, ainda antes de completar as primeiras 24 horas naquele lugar.
Sr. Angelino foi meu caseiro. Durante menos de um dia, mas foi. Minha mulher o havia contratado duas semanas antes para substituir a família que, por quatro anos, cuidou do nosso rancho em Rifaina. Selecionado por nossa equipe de Recursos Humanos, havia passado pelo exame médico demissional ao desligar-se de seu emprego na fazenda de Pedregulho e recebera avaliação positiva também no exame admissional feito poucos dias antes de sua morte. Segundo seus filhos, tinha "saúde de ferro". Era doador de sangue e, nesta condição, submetia-se a exames laboratoriais frequentemente. Não era diabético, hipertenso nem tinha qualquer outro problema crônico. Não deveria ter morrido precocemente. Mas morreu.
Quis o destino que, por algum de seus muitos mistérios indecifráveis, fosse eu - ao lado de um amigo e do soldado PM Nery - o responsável por velar o cadáver do sr. Angelino enquanto os incompreensíveis procedimentos burocráticos que cercam o ato de remover um corpo do seu lugar de falecimento se multiplicavam. Passei quase sete horas - tempo transcorrido do momento em que o encontramos caído ao chão e rumamos desesperados em busca de socorro até a hora em que a equipe da funerária chegou ao local - ao lado do corpo inerte do sr. Angelino, muito mais tempo do que pude estar com ele em vida. Durante todo este tempo, acompanhei o trabalho do médico, da PM, do perito, da funerária.
Pude testemunhar também a tristeza da família diante do inexplicável, a dor ao retirar alguns pertences do pai falecido instantes antes. A preocupação de todos com D. Sônia, a viúva que, transtornada com a perda súbita do marido, precisou ser socorrida no pronto-socorro de Rifaina. Os surreais chamados insistentes feitos por alguém para um celular que, até horas antes propriedade de um ativo sr. Angelino, agora permanecia atado num cinto ao seu cadáver, indiferente ao destino que roubara a vida de seu dono, repetindo os toques como se esperasse um "alô" impossível de acontecer.
Me entristeci diante do desespero de um afilhado que, inconformado com a morte do padrinho querido, me questionava em busca de uma explicação para a qual, obviamente, não tinha qualquer resposta. "Como é que pode, moço? Logo agora que ele tava tão feliz...". Caminhando sem parar de um lado para o outro, como se os passos rápidos pudessem aliviar a dor no coração, o afilhadado, que nunca fitava o corpo por mais do que alguns segundos, e ainda assim, sempre de forma incrédula, filosofava. "É uma desgraça, mesmo... Pobre não tem direito de ser feliz nem por 24 horas. O padrinho passou a vida trabalhando na roça, catando laranja no sol quente, criou tudo a gente... Quando arruma uma coisa que presta, um emprego em que tava feliz, morre no primeiro dia. Ficou só 22 horas aqui, moço. Por que, moço?"
Não tinha - nem tampouco tenho agora - resposta, não me arvoro explicações. Humildemente acredito que exista, de fato, nas vidas de cada um nós, muito de um mistério que está inúmeras vezes além de nossa capacidade de compreensão, milhões de quilômetros de distância de qualquer possibilidade de análise ou explicação. Faço coro à estupefação do afilhado do sr. Angelino diante do que não pode ser comprendido nem explicado. Discordo apenas na questão de classe social. Ricos ou pobres, bonitos ou feios, gordos ou magros, felizes ou infelizes, homens ou mulheres, nenhum de nós está imune, nem há qualquer proteção possível para esta trama que a vida traça independente de nossas vontades, anseios ou expectativas. Uns podem chamar isso de Deus, outros de força cósmica ou de destino. Não importa. O que quer que seja, age completamente alheio a nossa vontade, totalmente independente de nossos projetos ou aspirações.
Na manhã desta última terça-feira, o mesmo caminhão que na tarde de sexta levara para o rancho Bela Vista a mudança de um casal que tinha no sr. Angelino o cônjuge-varão, ali estacionava para retirar os pertences da agora viúva Sônia. Nove parentes cuidavam da retirada cuidadosa de tudo. Cama, TV, geladeira, cômoda, mesas, roupas. E do sofá, novinho, comprado em 14 parcelas numa rede de varejo e que será, agora, devolvido. Um dos filhos, ainda atrás da explicacação que buscamos mesmo sabendo que não existe posibilidade de resposta definitiva, arriscou: "Ele morreu de felicidade". Pode ser. Quem sou eu para duvidar?
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.