Fogo alto


| Tempo de leitura: 5 min
<i>"É nos momentos de decisão que seu destino é decidido"</i> <b>Anthony Robbins, escritor americano</b> Só não vê quem não quer. A frigideira, no primeiro escalão da prefeitura de Franca, está acesa. O óleo, farto, esquenta rápido e frita depressa. No comando das panelas, nenhum auxiliar sem expressão ou ajudante desconhecido. O chef da vez é o próprio prefeito Sidnei Rocha. Que, sem muitas sutilezas, como é típíco de sua personalidade, parece disposto a finalizar rapidamente o prato. O ingrediente principal, escolhido pessoalmente pelo próprio Sidnei Rocha, foi lançado vivo à panela e, aparentemente, ainda não se deu conta de que seu destino está traçado. Pior para ele. A interlocutores com quem troca impressões com alguma frequência, o prefeito garante que as chances de mudar o menu são, simplesmente, nulas. Agora, tudo é questão de tempo. E pouco tempo. O destino do pobre ingrediente já foi traçado. É morrer ou morrer. Até bem pouco tempo uma das estrelas mais vistosas da constelação que circunda o governo municipal, o prato principal da fritura hoje comandada por Sidnei Rocha chegou a ser cotado para sucedê-lo. Disputava atenções, holofotes e afagos com uns dois ou três outros "candidatáveis". Publicamente, admitiu que sonhava em ocupar a cadeira de onde hoje o prefeito despacha. Apareceu muito, circulou mais ainda e, mesmo que involuntariamente, tentou eclipsar o chefe. Disse coisas erradas, em horas erradas, nos lugares errados. Deu azar. E, em política, quem não tem sorte, não vence. Nem sobrevive. Ainda assim, a fritura em curso não é exatamente uma surpresa. Diz o ditado popular que "peru não morre de véspera". Fosse nosso ingrediente um peru, jamais poderia reclamar da falta de avisos. O perigo que o rodeia tem sido sinalizado há tempos, e com clareza. O próprio prefeito Sidnei Rocha, há pelo menos três meses, cortou de seu discurso qualquer adjetivo positivo dirigido à vítima da vez. A ausência de elogios foi sucedida por críticas duras. Primeiro, internas, no ambiente das reuniões com secretários realizadas, vez ou outra, no paço municipal. Depois, públicas, em cerimônias ou entrevistas concedidas pelo prefeito, diante de qualquer platéia e sem muita preocupação com o tamanho do estrago. Por fim, começou a execração, com Sidnei invadindo, sem pedir licença, o ambiente de trabalho de onde o peru, teimosamente, ainda despacha, como se negar a realidade fosse capaz de mudar o seu destino. Metáforas à parte, o peru em questão é, sim, um dos secretários municipais. Por enquanto, pois a sua continuidade entre os titulares da equipe que se reporta diretamente ao prefeito Sidnei Rocha é, a cada dia, mais improvável. Desde que a fase da execração pública começou, reduziram-se praticamente a zero os espaços de mínima cortesia na convivência chefe-subordinado. "Se fosse comigo, tinha apresentado minha demissão imediatamente", disse Sidnei Rocha, segundo este mesmo interlocutor, ao analisar a reação do tal ocupante do primeiro escalão após receber uma dura crítica pública. Quem não tem por hábito acompanhar os bastidores dos governos de todo o mundo pode até classificar como cruel o método empregado por Sidnei Rocha para se desfazer de um comandado, mas política não é uma ciência cartesiana nem costuma ser ambiente propício a extrair das pessoas o que elas têm de mais cândido e pueril. O método pode não ser delicado, mas está longe de ser inusual. Fritura é o jeito clássico de político se desfazer de subordinados indesejados, independente da esfera de poder. Ministros de Estados, secretários estaduais e municipais, chefes de estatal, líderes de bancada, não importa. Quanto se transformam em problema para quem os nomeou, começa a fritura. Que só termina quando cai a ficha da vítima. É hora, então, do célebre "exonerado a pedido". E, na sequência, da mais clássica desculpa para quem foi vítima de uma fritura, a declaração final. Raramente foge do "saio por motivos pessoais". Balela. O sujeito queria mesmo era continuar no governo. Não teve jeito. Fritado, recorreu à desculpa esfarrapada de sempre para preservar o que fosse possível de dignidade. Porque, no ambiente político, nada pior do que ser demitido publicamente. Pedir para sair, ainda que de mentirinha, soa melhor. Para o político e, principalmente, junto ao eleitorado. Vi isso acontecer de perto, pela primeira vez, em meados dos anos 80. O presidente da República era José Sarney. Tinha estado com meus pais em São Paulo para passar o fim de semana. Na volta, papai havia parado para um lanche no rancho Empyreo, o restaurante de beira de estrada localizado próximo a Limeira que, comandado por imigrantes suíços, é refúgio perfeito para saciar aquela fominha que sempre surge quando vencemos de carro os 400 km que separam São Paulo de Franca. Sentados, esperávamos nossos croquetes e os churrasquinhos com queijo. Num canto, sozinho, vi um homem cuja imagem parecia conhecer. Perguntei a meu pai se ele sabia quem era. "É o Roberto Gusmão, ministro da Indústria e Comércio. Deixou o governo ontem. Lembra que assistimos no Jornal Nacional?". Meu pai deu mais alguns detalhes e disse que o conhecia de longa data. Perguntei se ele não iria cumprimentá-lo. Papai disse que era melhor continuar sentado ou pareceria bajulação. E que, se desejasse conversar, Roberto Gusmão faria algum sinal. Não deu outra. Instantes depois, o homem que até 24 horas antes era Ministro de Estado estava sentado conosco. Abatido, resumia o que houve. "Pois é, Corrêa... Fui convidado a pedir demissão. Você sabe como são essas coisas..." E, na sequência, fez um breve desabafo. Hoje no comando da frigideira, o próprio prefeito Sidnei Rocha já foi vítima de uma fritura dramática. Era final de 1988 e ele ocupava a presidência da Vasp. Já tinha enfrentado alguns embates com secretários do governador Orestes Quércia, a quem era subordinado. Fez ouvidos moucos. Ignorou uma ordem para comprar alguns aviões que, em sua opinião, eram inadequados à Vasp. Fritado, viu-se sem espaço e sem respaldo. Na véspera do Natal, pediu demissão. Foi aceita na hora. O episódio deixou sequelas no prefeito. Sidnei detesta demitir no final do ano. Acha triste a perda do posto na época das festas. Talvez seja essa a única explicação para a sobrevida do indigesto "peru" que resiste à própria sorte e teima em continuar secretário. Sidnei Rocha vai esperar um pouco, mas não muito. Se o fritado da vez não pedir para sair, será demitido publicamente. Queira ou não, goste ou não. Pode apostar: este secretário não vai muito além da quarta-feira de Cinzas. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR</b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários