Hachi


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<i>"Se você pega um cachorro faminto e o torna próspero, ele não morderá você. Esta é a principal diferença entre um cachorro e um homem"</i> <b>Mark Twain, escritor americano</b> Um filme com uma estrutura improvável, apesar do apelo fácil, estreou no circuito comercial brasileiro na sexta-feira de Natal (em Franca não há previsão de exibição; em Ribeirão, entra em cartaz na semana que vem). Sempre ao seu lado é um drama sobre homens, animais, sentimentos e valores protagonizado por um cão (na verdade, três animais de diferentes idades foram utilizados durante as filmagens) akita. Seu "dono", interpretado por Richard Gere, é mero coadjuvante, um personagem secundário cujo caráter ganha força e densidade apenas a partir da relação estabelecida com o cão. Sem ele, o professor Parker, vivido por Gere, seria insosso, quase anódino, e sua história não valeria muito mais que as palavras contidas neste parágrafo. O enredo é baseado em fatos reais acontecidos no Japão. Na versão adaptada agora para as telas, a história foi transposta para Rhode Island, próximo a Nova Iorque, nos Estados Unidos. Parker é um pacato professor universitário de música que vive numa casa aconchegante com a mulher e a filha adolescente. Para trabalhar, Parker toma o trem todos os dias. O trajeto entre sua casa e a estação é percorrido sempre a pé, no mesmo ritmo, não importa o horário ou época do ano. É numa noite fria e chuvosa que Parker, ao voltar da universidade, encontra o pequeno cão perdido na estação. O professor o acolhe e o leva para casa. No início, sua mulher é refratária à idéia - fica sugerido, de forma sutil, que a morte de um outro cão da família, em tempos anteriores à narrativa da história, deixou marcas que a mulher prefere esquecer - e Parker tenta localizar quem seria seu dono. Em vão. Ninguém sabe para quem o animal, que fora despachado do Japão para Rhode Island, seria destinado. Seduzida pelo charme de Hachi - palavra que designa o número oito em japonês e que, inscrita na coleira do animal, é uma das poucas pistas sobre sua origem - a mulher de Parker acaba cedendo e permite que o cão viva com eles. A partir daí, a relação entre o professor e seu pequeno akita ganha intensidade progressiva. Fiel e extremamente leal, o cão passa a acompanhá-lo todos os dias até a estação de trem. Só depois que Parker embarca é que o cão volta para casa. Semanas depois, Hachi surpreende e passa a também esperar Parker chegar na estação no final da tarde. Não há nenhum condicionamento ou treinamento, nenhuma recompensa oferecida. Hachi age assim porque quer, porque decide, porque se sente bem desta forma. Segue o professor até a estação pela manhã; espera o seu retorno pontualmente no final da tarde. Na rotina diária repetida caprichosamente, Hachi estabelece conexões afetivas com todos que interagem com Parker. O açougueiro, o vendedor de cachorro-quente, o chefe da estação, todos se tornam cúmplices e, em grande medida, partícipes da íntima e bela relação estabelecida entre o professor e seu cão. A vida segue, as semanas se sucedem, os meses se transformam em anos, a filha do professor se casa, e Hachi é parte integrante da família. Mas, numa manhã qualquer, Hachi sente que o mundo está diferente, que estranhas vibrações pairam sobre a casa onde vive feliz. Subitamente, tenta impedir o professor de ir trabalhar. A todo custo, procura evitar que ele embarque no trem. Não adianta. Parker segue para a faculdade, para as suas aulas. É no meio de uma delas que sofre um infarto. Morre na hora. A tarde chega e Hachi está na estação no seu posto habitual, à espera do professor que não vai mais chegar. Hachi fica lá, imóvel, resoluto, inflexível à espera do amigo. Já é noite quando o genro de Parker consegue recolhê-lo. A partir daí, sem Parker/Gere, o que se vê é uma admirável demonstração de lealdade, companheirismo, carinho. A viúva se muda da casa, o cão é levado a viver com a filha de Parker, mas nada o anima ou alegra. Hachi quer Parker. Dia após dia, o akita segue para a estação de trem, no fim da tarde, para esperar a chegada do amigo que não vem mais. Outra vez, a rotina se repete. Os dias se multiplicam até se contarem às centenas, meses viram anos, e Hachi segue firme na sua triste e inútil espera. Os mesmos personagens que fizeram parte da vida da dupla acompanham a separação forçada pela morte. Assistem o cão, desolado, no que é possível, e são privilegiados espectadores desta história que, obviamente, só termina quando o único evento possível torna a reuni-los: a morte de Hachi. Não há bruto que não saia do cinema com lágrimas nos olhos. Na segunda parte do filme, após a morte de Parker, praticamente inexistem conversas. Há grandes sequências de imagens entrecortadas por uma frase ou outra. A falta de diálogos, neste caso, não implica dizer que o silêncio impere na sala de cinema. Muito pelo contrário. O choro e os soluços dos espectadores, quase convulsivos no caso de alguns, intensificam a carga emotiva de uma história que, se restrita apenas a uma sinopse, perderia muito de sua força dramática. É incrível como um enredo tão simples, tão linear, tão desprovido de suspense, de altos e baixos, de reviravoltas, de conflitos, possa emocionar tanto. Por isso mesmo, a narrativa contada em detalhes, como nesta coluna, em nada atrapalha o espectador, nem mesmo aquele que detesta saber previamente o desfecho de uma história. O filme lembra um haicai, o típico poema japonês. O começo e fim não são decisivos, não há nenhum mistério a ser desvendado. Vale a maneira como a história é contada - e a força de seu conteúdo. No mundo real, a história de Hachi - ou Hachiko, como originalmente se chamava o cão - aconteceu nos anos 20. O cãozinho era parte de uma ninhada de sete. Durante dois anos seguiu seu dono, o professor do Departamento de Agricultura da Universidade de Tokyo, Hidesaburo Ueno, todas as manhãs, de casa para a estação de trem de Shibuya. À tarde, aguardava seu retorno, pacientemente. Ueno morreu de infarto em 1925. Durante os dez anos seguintes, Hachiko seguiu todas as tardes para a estação, leal e fraternalmente, à espera do dono que não voltaria jamais. Após a morte de Hachiko, uma estátua em bronze foi construída em sua memória na estação de Shibuya, no mesmo lugar onde ele, pacientemente, por mais de uma década, aguardou o professor. A dedicação do cão por seu dono virou lenda no Japão, onde o exemplo de Hachiko segue cultuado. No Brasil de hoje, onde exemplos de lealdade, companheirismo e dignidade são raros, acompanhar a história de Hachiko pode ser redentor, um sopro de esperança num mundo de relações cada vez mais superficiais, descartáveis, efêmeras. Numa nação acostumada a valorizar a "lei de Gérson" - a desgraçada vantagem que se impõe sobre quaisquer preceitos éticos ou morais - e onde corruptos e bandidos de toda sorte sequer se envergonham por seus atos, zombando descaradamente de todos nós, sem nenhum pudor, acompanhar uma sala inteira de cinema emocionada com a história de companheirismo de um cãozinho por seu dono é um pequeno começo, uma tímida fresta de luz. Podemos manter nossas esperanças de um futuro melhor. Nem que para isso tenhamos que depositar nossas fichas, por enquanto, no exemplo de amor e lealdade de um cachorro e seu dono. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR</b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br

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