"Eu estava abandonado pelo MDB, abandonado pelo governo,
abandonado pela cidade. Eu estava abandonado por todos"
Sidnei Rocha, prefeito de Franca, em entrevista a um programa local de TV, em 1999; o desabafo era uma alusão ao
período de ostracismo que sucedeu sua renúncia à Prefeitura de Franca, nos anos 80, para assumir a presidência da Vasp
O prefeito de Franca, Sidnei Rocha (PSDB), está em estado de graça. Um ano após ser reeleito com votação esmagadora para um segundo mandato consecutivo, Sidnei não tem do que reclamar. Goza de altíssima aprovação popular, não enfrenta escândalos nos quais esteja diretamente envolvido, tem maioria absoluta na Câmara de Vereadores e oposição praticamente nula. A arrecadação caiu - resultado direto da retração econômica pós-crise global - e a capacidade para novos investimentos está reduzida, mas os cofres públicos cruzaram 2009 sem maiores problemas. Não há fornecedores sem receber nem salários de servidores atrasados. Sidnei governa sem dificuldades visíveis no horizonte próximo, com o apoio dos três deputados da cidade e não demonstra qualquer preocupação com seus adversários políticos. Até mesmo o PT, alvo preferencial de todas as horas, parece ter perdido a capacidade de atrair sua atenção. Perdeu a graça. São cada vez menos frequentes as referências de Sidnei Rocha a seus inimigos históricos.
Os índices da pesquisa Datalink sobre avaliação de governo publicados hoje pelo Comércio são capazes de traduzir a qualquer leigo em política, com precisão matemática e rigor científico, o atual cenário municipal. Os números são impressionantes para Sidnei Rocha - e devastadores para quem tem que disputar voto com ele. Nada menos de 93,6% dos francanos aprovam seu governo. Apenas 3% da população consideram sua administração péssima; e outros 3,2% a avaliam como ruim. No universo da população francana retratada na pesquisa, é como se apenas 13 mil eleitores - dos 212 mil, no total - rechaçassem o atual governo. Para os outros quase 200 mil votantes, o desempenho de Sidnei Rocha vai do regular ao ótimo.
O resgate de alguns dados da última eleição ajuda a dimensionar com mais precisão ainda o significado do resultado alcançado por Sidnei Rocha. Gilson Pelizaro, o candidato petista naquele pleito, terminou a disputa com 44.480 votos. Um simples cruzamento de dados permite concluir que, muito provavelmente, mais de 70% dos eleitores que fizeram sua opção por Gilson Pelizaro em outubro de 2008 hoje aprovam o governo do arqui-inimigo Sidnei Rocha. Parece incrível, mas o tucano ranzina, o radialista verborrágico que nunca fez questão de colecionar simpatias, conseguiu triscar a unanimidade. Conquistou, contra todas as possibilidades, a aprovação até mesmo de parcela significativa dos eleitores petistas. É um resultado quase inimaginável.
Tudo fica ainda mais impressionante se considerado onde estava o prefeito há exatos dez anos. O então radialista e empresário Sidnei Rocha, alijado da vida pública contra a sua vontade, amargava o desprezo da população e dos antigos aliados. Sidnei havia sido eleito prefeito de Franca mais de dez anos antes, em 1983. Quatro anos depois, tomou a decisão que por muitos anos estaria intimamente colada à sua imagem, como uma mancha indelével. Foi em 1987 que o prefeito Sidnei Rocha recebeu um convite do governador Orestes Quércia para assumir a presidência da Vasp, empresa estatal de aviação. Renunciou à Prefeitura de Franca para assumir o comando da gigante estatal. Não deu muito certo. Acabou saindo antes que fosse demitido por Quércia. Foi "fritado" no cargo pelo governador que o havia nomeado. Deixou a Vasp, retornou a Franca e encontrou um ambiente hostil. Ninguém queria estar ao lado do homem que havia "abandonado" a cidade. Por duas vezes, disputou a Prefeitura. Perdeu em 1992 e em 2000.
Um pouco antes desta sua última derrota Sidnei Rocha protagonizou um dos piores momentos de sua história política, capaz de rivalizar apenas com a própria renúncia à Prefeitura. Foi em 1999 que, numa melancólica entrevista ao radialista Paulo Roberto Verzola, que apresentava também um programa de TV na rede Record, Sidnei Rocha desceu ao fundo do poço da vida pública. Num depoimento onde aparece irreconhecível, Sidnei se queixa do povo, da cidade, dos aliados, dos correligionários. Parecia derrotado, para sempre. Um cadáver político, morto e sepultado, sem quaisquer esperanças de retomar a trajetória interrompida com a renúncia e a desastrada passagem pela Vasp.
Num desafio à lógica política mais elementar, Sidnei Rocha voltou. "Sou um defuntão político que ressuscitou". A frase, do próprio prefeito, foi dita numa antológica entrevista à Rádio Difusora, há pouco mais de dois anos. É absolutamente verdadeira. Sidnei conseguiu ressurgir da cinzas. Depois das derrotas de 92 e 2000, venceu a disputa pela sucessão de Gilmar Dominici (PT) com uma votação regular, na casa dos 60 mil votos, mas suficiente para reconduzi-lo ao paço municipal. Fez um primeiro mandato turbulento, ainda muito marcado pelos ataques ao antecessor, Gilmar Dominici, e com muita gritaria. Brigou com PM no meio da rua, xingou opositores e servidores, discutiu com empresários calçadistas, devolveu a gestão do sistema de saúde - mantendo apenas as unidades básicas sob sua responsabilidade - para o Estado e até "ameaçou" tomar as instalações da Sabesp e reassumir o serviço de abastecimento de água.
A "ameaça" foi apenas um blefe muito bem feito que exigiu nervos de aço mas que, ao final, reverteu generosos R$ 30 milhões para Prefeitura, dinheiro fundamental para a radical transformação visual de Franca. Foi importantíssimo para a autoestima da população, que gosta da cidade e quer vê-la bonita, por mais que o ideário esquerdista pense ser os cuidados com a aparência da cidade detalhes secundários. Também controlou as finanças com mãos de ferro, saneou os cofres públicos e conseguiu retomar a capacidade de investimento da Prefeitura. Embalado pelo bom momento econômico nacional, colheu os frutos de centenas de milhões de reais investidos por redes de varejo, supermercados, concessionárias e dezenas de empresas de outros segmentos que se instalaram na cidade. Teve sorte, que soube aliar à capacidade gerencial para transformar em resultados concretos, sentidos pela população.
Franca chega aos 185 anos em lua-de-mel com Sidnei Rocha. Seu governo não é perfeito, e a falta de espaços de discussão - e de mais abertura para os que pensam diferente - talvez seja seu maior ponto fraco. Mas é inegável que a população aprova e está bastante satisfeita com os resultados obtidos por ele à frente do governo municipal. Sua trajetória - do fundo do poço à aclamação popular - revela ainda um outro aspecto que segue ignorado por muitos políticos brasileiros. A discussão ideológica, até mesmo por questões culturais e educacionais, tem pouquíssima relevância.
Não que isso seja bom, muito pelo contrário. Mas é um fato. As pessoas querem resultados. Os eleitores esperam ação, não discursos. Pouco interessa se fulano é esquerda ou direita, se defende a privatização ou se sonha com o controle do Estado sobre os meios de produção, se quer um Banco Central independente, se o orçamento é participativo ou decidido sozinho, pelo prefeito, em seu gabinete. A ausência destas discussões é ruim, mas elas simplesmente não fazem parte do cotidiano dos eleitores. Que, por sua vez, estão muito mais interessados em fazer compras num supermercado bonito e com muitas ofertas, em não cair numa cratera quando trafegam com seus carros, em ser atendido sem muita demora no pronto-socorro, em viver numa cidade onde haja emprego. E onde o prefeito cuide, de fato, da condução do governo municipal, chamando para si a responsabilidade, sem se perder em discussões intermináveis e, no mais das vezes, infrutíferas. Neste jogo de sedução com o eleitor, Sidnei Rocha tem se revelado um mestre. Não há nas vizinhanças nome capaz de, no curto prazo, enfraquecer esta relação.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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