<i>"A ação política é cruel; baseia-se numa competição animal, é preciso derrotar, esmagar, matar, aniquilar o inimigo"</i>
<b>Otto Lara Resende, escritor brasileiro</b>
O presidente Lula caminha rapidamente para o crepúsculo de seu governo. Na chefia do Estado brasileiro desde 1º de janeiro de 2003, Lula já completou mais de 85% do tempo de mandato que lhe foi conferido pelo voto popular. Deveria estar agora preocupado com seu legado, analisando as perspectivas e possibilidades que se abrirão quando encerrar seu mandato. Poderia também estar recompondo laços de amizade rompidos nos intrincados meandros do poder, muitos deles desfeitos nos momentos solitários das decisões mais difíceis. Ou, quem sabe ainda, Lula poderia estar cuidando pessoalmente da preparação do conjunto de medidas - e das condições necessárias à sua viabilização - que, mais cedo ou mais tarde, deverão ser implantadas no Brasil, mas que teimam em retardar como resultado direto do casuísmo de nossos políticos. Temas como reforma tributária, trabalhista, política - de fato - e tantas outras que não saem do campo da disputa eleitoral poderiam receber neste instante um pouco de atenção do carismático líder sindical que o destino transformou em presidente da República, um homem com muitas habilidades e que faria ainda mais pelo Brasil se preparasse terreno para que seu sucessor, independente de nomes ou legendas, tivesse melhores condições de tornar realidade as tais "reformas".
Lula não faz nada disso. Muito pelo contrário, mostra-se umbilicalmente apegado ao poder, como se muito em breve não fosse deixar o cargo que ocupa. Mais grave ainda, atirou-se de corpo e alma desde já na disputa eleitoral que vai definir seu sucessor. Sem nenhum pudor, transformou o projeto "Dilma Presidente" em assunto de Estado e colocou a campanha de sua ministra na agenda do governo. Não há dia ou discurso que Lula não aproveite para enaltecer as virtudes de sua "companheira", alçada pelos sábios do PT à condição de "mãe do PAC", o discutível Programa de Aceleração do Crescimento que despeja bilhões de reais em obras públicas Brasil afora. Onde vai Lula, Dilma segue junto. Colada, literalmente, como se fosse possível transferir por osmose atributos como carisma e popularidade.
A estratégia é clara, sem sutilezas, ainda que o discurso oficial negue o que a simples observação expõe de forma flagrante. Lula e Dilma estão em campanha. Descarada. Aberta. Nesta semana, durante a caravana organizada a pretexto de "fiscalizar" o andamento das obras da transposição do rio São Francisco, no árido sertão brasileiro, não houve instante em que Lula e Dilma tenham sido flagrados desgrudados. Se Lula pescava, Dilma segurava sua própria varinha ao lado do presidente. Se Lula discursava, a ministra da Casa Civil era a primeira a bater palmas. Se o quarto do presidente no alojamento improvisado às margens do São Francisco tinha sala e banheiro conjugados, o de sua candidata era igual, como que para criar uma simbiose. Todos os outros participantes da caravana, fossem eles ministros ou assessores, tinham acomodações muito diferentes - e um tanto mais despojadas. Idêntico ao de Lula, só mesmo o de Dilma.
Lula parece tão à vontade em seu papel de forjar o próprio sucessor que, em duas oportunidades durante a visita às obras da transposição do São Francisco, usou a expressão "comício" ao invés de "discurso" para definir o que fazia naquele instante. Sem constrangimentos de quaisquer espécies. Questionado por repórteres se teria cometido "ato falho", Lula não se fez de rogado. Disse que não era ato falho - e que fazia comício mesmo. O único problema é que, nesta altura do campeonato, "comício" não é permitido. "Discurso" o presidente pode fazer quantos quiser. Mas "comício", não. Pelo menos, é o que diz a legislação eleitoral. Que, ao que tudo indica, não preocupa nem um pouco o presidente da República, absolutamente confortável e seguro de si. E de seu comportamento um tanto, digamos, heterodoxo.
Mas a apologia descarada à candidatura de Dilma e o uso de suas funções de Estado para antecipar a campanha eleitoral não são os piores trechos dos capítulos finais de seu governo. Fazer campanha abertamente em favor de um "companheiro" em pleno exercício do mandato não é prerrogativa exclusiva de Lula - e muitos que o antecederam, na presidência ou em outras esferas de poder, já agiram tão mal quanto, sejam eles petistas ou membros de outras legendas, tucanos inclusive.
O que difere Lula tristemente neste instante é a forma hostil e violenta com que ele ataca aqueles que pensam diferente. Lula bate forte, sem dó, sem contemporizar, obcecado em vencer. O resto, não conta. Integridade e a história de vida do adversário, os valores e princípios de cada um, as noções mínimas de civilidade. Nada disso parece ter relevância. O presidente dá mostras de acreditar que quem não está a favor dele, está automaticamente contra. Portanto, em sua lógica simplista, deve ser atacado, com a máxima força possível e com todas as armas disponíveis. Sobra então bordoada para todo mundo, seja ele político, empresário, jornalista, religioso ou qualquer um que não reze pela cartilha do presidente ou de sua candidata.
Já no lançamento do pré-sal, há poucas semanas, Lula deu mostras de como seu estômago pode ser forte. Depois de se reunir horas antes privativamente com José Serra e insistir com ele para que participasse do lançamento do programa de exploração de petróleo, Lula conseguiu garantir a presença do governador paulista. Era uma armadilha. Durante a cerimônia formal, a plateia formada por políticos e empresários assistiu Lula fazer intensos autoelogios - e pesados ataques a Serra e, especialmente, ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a quem chamou de "exterminador do futuro". A educação elementar ensina que não se ataca quem convidamos à nossa casa. É grosseiro e deselegante. E, neste caso, gratuito.
Agora, durante a visita às obras do São Francisco, Lula acionou sua metralhadora para valer. Foi uma saraivada de petardos. Chamou a imprensa de "azeda", porque os jornais apresentaram números que mostravam apenas 11% das obras do PAC concluídas. Disse que os contrários à transposição são "ociosos". "Um bando de homens sem ter o que fazer é uma desgraça", atacou o presidente, numa pouco sutil indireta ao governador paulista José Serra, crítico do projeto, e ao bispo Luiz Flávio Cáppio, que chegou a fazer 23 dias de greve de fome em protesto contra a transposição. Sobrou ainda para o Tribunal de Contas da União, cujas ações de fiscalização em obras federais têm irritado o presidente, e ao Judiciário, classificado pela maior autoridade do País como "irresponsável".
É legítimo que o presidente queira fazer seu sucessor. É aceitável, apesar de não desejável, que se envolva diretamente na disputa. É compreensível que Lula não goste de receber críticas, porque se trata de uma condição humana. Mas é inconcebível que o detentor do mais alto cargo da República comporte-se de forma tão destemperada e maniqueísta. Recorrendo às parábolas futebolísticas que tanto encantam Lula, seu comportamento lembra o do garoto chorão que, ao ser sacado do time, leva a bola embora para casa. Ou ao jogador desleal que, driblado pelo adversário, reage com um chute na canela.
Fossem as eleições presidenciais de 2010 uma partida de futebol, Lula estaria até agora muito mais para Serginho Chulapa e Edmundo do que para Zico e Ronaldinho. Para nossa sorte, a partida está só começando. Ainda há tempo para que Lula mude seu estilo de jogo e carimbe sua passagem pela presidência da República com a marca de um verdadeiro estadista. Seria muito ruim para um homem de trajetória tão singular permitir que o calor de uma disputa apertada comprometa a sua própria biografia. Está na hora de Lula decidir se quer ser lembrado como Pelé ou como Maradona. Seus atos, gestos e palavras, independente de quem vença a disputa eleitoral, é que vão definir o resultado desta partida.
<b>CORRÊA NEVES JÚNIOR </b>
<i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i>
jrneves@comerciodafranca.com.br
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