Cedo demais


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As justificativas apresentadas pelo comitê para agraciar Obama com o prêmio são pouco convincentes sobre seus méritos. O comunicado oficial sustenta que o presidente americano foi o escolhido por ter criado um novo "clima&qu
As justificativas apresentadas pelo comitê para agraciar Obama com o prêmio são pouco convincentes sobre seus méritos. O comunicado oficial sustenta que o presidente americano foi o escolhido por ter criado um novo "clima&qu
<i>"Eu mataria por um prêmio Nobel da Paz"</i> <b>Steven Wright, comediante americano</b> O presidente americano Barack Obama está no poder há nove meses. Eleito com a missão de recuperar o país após os tristes anos Bush e disposto a revolucionar a forma como os Estados Unidos se relacionam com o resto do mundo, Obama pouco conseguiu até agora. Falou muito e discursou mais ainda, mas os resultados, que são o que de fato importa, foram escassos e bastante discretos. Não que os desafios fossem desconhecidos. Especialistas dos partidos republicano e democrata, legendas que se alternam no poder nos Estados Unidos, tinham mais ou menos o mesmo diagnóstico para os problemas que aguardavam o sucessor de Bush. Internamente, a prioridade do eleito deveria ser recuperar a combalida economia americana, promover uma ampla reforma no sistema de saúde e combater o monstruoso déficit público. No campo internacional, as principais prioridades eram encontrar uma solução para a presença de tropas americanas no Iraque e no Afeganistão, duas guerras inacabadas que, além de milhares de vidas ceifadas, geram enorme constrangimento para os Estados Unidos e sangram sem parar o bilionário orçamento da defesa. Como se não bastasse, havia ainda a complexa relação com Irã, Coréia do Norte e Cuba a resolver. Ninguém ignora o tamanho dos desafios que aguardavam o sucessor de Bush, qualquer que fosse o eleito. Tampouco podem ser definitivos julgamentos ou balanços de um governante que sequer atingiu seu primeiro quarto de mandato. Ainda assim, para a grande caminhada que praticamente todo o mundo deseja ver Obama liderar, os passos iniciais foram demasiadamente tímidos e, muitas vezes, um tanto cambaleantes. Fora o anúncio do fechamento da prisão de Guantánamo - aberração jurídico-militar encravada de forma surreal na ilha não menos bizarra comandada a ferro e fogo pelos irmãos Castro - cuja efetivação ainda se encontra no campo das intenções, nenhuma outra surpresa positiva pode ser creditada ao governo Obama. As tropas americanas continuam no Iraque e serão ampliadas no Afeganistão; o embargo a Cuba segue sem solução; a Coréia do Norte insiste em provocar o mundo e o Irã não demonstra qualquer intenção de interromper seu programa nuclear que ameaça a precária estabilidade no Oriente Médio. O sistema de saúde ainda é o mesmo, o déficit público continua medido na casa dos trilhões de dólares. E a economia, que se recupera lentamente, deve sua melhora muito mais a ações globais de múltiplos governos do que propriamente a qualquer medida específica de Barack Obama. Pouco mais de seis meses separaram a euforia da eleição do primeiro negro presidente dos Estados Unidos da decepção com a falta de avanços e conquistas. A frustração da população americana com seu presidente é evidente. Ao tomar posse, 83% dos americanos o apoiavam. Cem dias depois, o índice havia despencado para 60%. Em outubro, Obama viu a aprovação ao governo reduzida a menos da metade da população de seu país, índice inferior à média histórica dos governantes americanos no mesmo período, sempre na casa dos 55%. Obama parece perdido, sem foco, incapaz de definir e atacar as prioridades e, tanto pior, aparentemente sem ter a menor ideia de como vai transformar em realidade suas muitas promessas de campanha. Neste contexto, foi com muita surpresa e algum espanto que o mundo recebeu a notícia de que o Comitê do Prêmio Nobel, formado por integrantes nomeados pelo parlamento norueguês, resolveu conceder a Barack Obama o Prêmio Nobel da Paz de 2009, considerado a maior honraria que alguém pode receber no mundo. Exatas 205 pessoas tinham sido indicadas ao prêmio. Obama estava entre elas mas sua escolha era tão improvável que seus assessores mais próximos sequer sabiam que o presidente americano fazia parte do grupo. A própria declaração de Obama após ser oficialmente comunicado de que fora agraciado com o Nobel da Paz, um tanto quanto constrangida, é bastante reveladora do tamanho da surpresa que a escolha provocou. "Para ser honesto, eu não acho que mereço estar em companhia de tantas figuras transformadoras que foram honradas com este prêmio, homens e mulheres que nos inspiraram e ao mundo inteiro por sua corajosa busca pela paz", disse o presidente americano para depois, mais à frente em seu pronunciamento, se autorresignar. "E eu vou aceitar este prêmio como um chamado à ação, um chamado a todas as nações que enfrentam os desafios em comum do século XXI". As justificativas apresentadas pelo comitê para agraciar Obama com o prêmio são pouco convincentes sobre seus méritos. O comunicado oficial sustenta que o presidente americano foi o escolhido por ter criado um novo "clima" na política internacional, enfatizando o papel da ONU (Organização das Nações Unidas) e de outros organismos multilaterais como foro para solução de conflitos. "O diálogo e as negociações são preferidos como instrumentos para resolver até os mais difíceis dos conflitos externos", diz o comunicado oficial do Comitê do Nobel. Pode até haver boa intenção em Obama, mas seus méritos estão circunscritos, até agora, exclusivamente ao plano das ideias. Na prática, os Estados Unidos continuam ativos em duas guerras e não são protagonistas de qualquer movimento rumo a um processo de paz ou coisa que o valha com qualquer nação hostil ou beligerante. Não houve qualquer programa de desarmamento levado a cabo pelo governo de Obama, nenhuma conferência de paz mediada pelos Estados Unidos, e muito menos existe qualquer expectativa de curto prazo de redução da ostensiva presença militar americana nos mais diversos pontos do globo. Alfred Nobel, químico e inventor da dinamite morto no final do século XIX, legou parte de sua fortuna para a criação do prêmio que leva seu nome. Até hoje, é do fundo criado por Nobel que sai o dinheiro entregue aos premiados, mais de R$ 2 milhões para cada uma das seis categorias (Química, Física, Fisiologia/Medicina, Literatura, Economia, Paz). Nas suas próprias palavras, o Nobel da Paz deveria ser uma distinção para "a pessoa que tivesse feito a maior ou melhor ação pela fraternidade entre as nações, pela abolição e redução dos esforços de guerra e pela manutenção e promoção dos tratados de paz". Ao premiar o nada e reconhecer apenas a intenção de fazer alguma coisa, os membros do comitê reduziram enormemente a dimensão e importância do prêmio que, há mais de um século, é sinônimo de distinção e honraria máxima. Resta a esperança de que, de alguma forma, o Nobel da Paz conferido a Obama sirva de estímulo para que o presidente americano transforme em realidade as imensas expectativas que o mundo deposita em seu governo. Se for bem sucedido, conseguirá corrigir esta patética distorção em sua biografia - o recebimento da máxima distinção possível antes dos méritos que a justifiquem - e escreverá para sempre seu nome na galeria dos grandes estadistas de todos os tempos, além de honrar a memória de tantos que, antes deles, receberam meritoriamente o Prêmio Nobel da Paz. Neste caso, a precipitação do comitê que o escolheu será, paulatinamente, relegada a segundo plano. Caso contrário, além do espectro do fracasso, Barack Obama terá ainda o dissabor adicional de conviver até o fim de sua existência com o constrangimento de ter recebido o maior prêmio de consolação de todos os tempos. Muito pouco para quem, há menos de um ano, parecia predestinado a ser um importante protagonista da história contemporânea. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR </b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br

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