O fator Lula


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"A política não é uma ciência exata, mas uma arte" Otto von Bismarck, primeiro-ministro alemão Um bilhão de espectadores espalhados por dezenas de países de todos os continentes acompanharam a transmissão ao vivo, na última sexta-feira, da histórica reunião do COI (Comitê Olímpico Internacional) que escolheu a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Faltavam dez minutos para as duas da tarde quando o presidente do COI, o belga Jacques Rogge, fez o anúncio solene: contrariando a tradição, as bolsas de apostas e a opinião dos especialistas, o Rio de Janeiro fora escolhido para ter a hon-ra de sediar as Olimpíadas de 2016. A cidade brasileira chegou ao momento decisivo desacreditada. Disputava a indicação com Chicago, Tóquio e Madrid. A candidatura da cidade americana, apoiada pelo presidente Obama, era a favorita. O país tem tradição na organização de eventos de alcance global e nenhum problema para reunir os bilionários recursos financeiros necessários para a realização dos Jogos. Tóquio tinha a seu favor a infraestrutura já existente, bastante próxima das necessidades olímpicas, a tradição de disciplina e competência de sua gente e a experiência de ter sediado os Jogos de 1964. Madrid reunia forte apoio de sua classe política e empresarial. Além disso, sua localização na Europa era garantia de tranquilidade nos transportes públicos e segurança para atletas e a plateia, duas das maiores preocupações do Comitê Olímpico Internacional. O Rio de Janeiro não tem praticamente nenhuma das virtudes de suas adversárias. A segurança é bastante deficiente; o sistema de transporte público, precário; a experiência em organizar uma competição deste porte, quase nula; os equipamentos esportivos para sediar as principais competições simplesmente não existem e precisam ser erguidos do zero. O método adotado pelo COI para definir a sede dos jogos é curioso. São feitas sucessivas votações eliminatórias. O colégio eleitoral é mínimo e soma menos de 100 pessoas, todas integrantes do COI. A cidade menos votada em cada uma das rodadas é automaticamente excluída. A primeira eliminada foi a cidade americana de Chicago. Na rodada inicial, recebeu apenas 18 votos, contra 22 de Tóquio, 26 do Rio e 28 de Madrid. Dois integrantes do COI não votaram. Na segunda rodada, o Rio já passou a liderar. Recebeu 46 votos, contra 29 de Madrid e 20 de Tóquio. Até onde é possível deduzir, grande parte dos votos iniciais de Chicago migraram para o Rio. Na terceira e última rodada, restavam Rio de Janeiro e Madrid. O fenômeno ocorrido na segunda rodada parece ter se repetido na votação final e os eleitores que haviam escolhido a capital japonesa como sede migraram em peso para a candidatura carioca. O resultado foi incontestável: Rio de Janeiro, 66 votos, mais que o dobro dos 32 votos recebidos por Madrid. Uma vitória emocionante e absoluta. Muitos são os fatores que ajudam a explicar o sucesso da candidatura brasileira. A alegria de nossa gente, as belezas naturais do Rio, o competente planejamento elaborado pelo Comitê Olímpico Brasileiro, o fato dos Jogos Olímpicos nunca terem sido realizados na América do Sul e a escolha de Londres para sede dos Jogos de 2012 - duas Olimpíadas seguidas no mesmo continente seria demais. Nenhum destes, no entanto, foi tão determinante quanto o apoio explícito, incondicional e apaixonado do presidente Lula ao projeto olímpico brasileiro. Difícil acreditar que o Rio tivesse qualquer chance de acabar escolhido sem o engajamento de Lula, sem seu discurso emocionado, sem a campanha corpo a corpo com os delegados do COI. Lula teve coragem de dar a cara a tapa. Viajou a Copenhagen, na Dinamarca, onde seria decidida a disputa, para fazer campanha pelo Brasil. Conversou com muita gente, pediu votos sem pudor. Usou seu carisma incomum para, num discurso emocionado, defender a candidatura brasileira e apelar aos eleitores do COI para que fizessem diferença optando pelo Rio. Em suas palavras, disse que para qualquer uma das outras cidades seria "mais uma Olimpiada". Para o Rio de Janeiro, "uma oportunidade sem igual". Lembrou ainda que 30 milhões de brasileiros saíram da pobreza, que outros 21 milhões migraram para a classe média e comemorou a estabilidade econômica do país. Tudo para ressaltar aos eleitores a viabilidade brasileira. De quebra, levou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para assegurar aos membros do COI que o país tem a montanha de dinheiro - parte prevista para sair dos cofres públicos e outra parte da iniciativa privada - necessária para organizar os Jogos, uma quantia estimada em nada desprezíveis R$ 30 bilhões. A estratégia deu certo e Lula pode comemorar, com um choro emocionado, a vitória brasileira. O homem que disputou cinco eleições presidenciais - perdeu três, ganhou duas - não teve qualquer constrangimento em derramar lágrimas diante do mundo. E, sem cerimônia, fez questão de dizer que experimentava, naquele instante, um momento singular. "Hoje é o dia, talvez, da maior emoção da minha vida". A ousadia do presidente Lula foi recompensada com uma vitória espetacular do Brasil - e com uma projeção ainda maior de seu carisma, agora em escala global. Mostrou que é capaz, sim, de transferir popularidade, de maneira contundente e inequívoca. É preciso lembrar que Lula não pedia votos para si mesmo em Copenhagen. Sua militância foi em favor do Rio de Janeiro, cidade administrada por um adversário político - Eduardo Paes (PSDB). E que os frutos da escolha da cidade brasileira como sede dos Jogos de 2016 sequer serão colhidos por ele. Afinal, salvo mudanças históricas improváveis, é pouco plausível imaginar que seja ele o ocupante do Palácio Planalto quando a festa Olímpica ganhar as ruas do Rio de Janeiro dentro de sete anos. Tudo isso não impediu que sua extrema habilidade política convertesse em votos pró-Brasil membros do COI de todas as partes do mundo. Muitos deles, da Europa, continente que, com 46 membros, representa quase a metade do total de votantes. Começam agora duas contagens regressivas. Uma delas, para o Rio de Janeiro, que tem uma chance ímpar. A dinheirama que será canalizada para a construção e adequação da infraestrutura dos Jogos durante os próximos anos, se bem aproveitada, pode ser redentora para a antiga capital da República. É uma oportunidade de ouro para que o sistema de transporte seja reformulado; as favelas, reurbanizadas. A segurança pública, repensada. Haverá a geração de milhares de empregos - só o COB prevê contratar 5 mil pessoas para trabalhar diretamente na organização dos Jogos; o setor de turismo espera criar outros 18 mil novos postos de trabalho. Praças esportivas monumentais serão construídas e toda uma nova legião de atletas, se devidamente apoiados desde já, terão condições e estímulo para alcançar resultados expressivos nas competições previstas para acontecer dentro de sete anos, replicando os efeitos benéficos da prática esportiva para as futuras gerações. Tudo isso é possível, desde que a mesma organização que os brasileiros mostraram na disputa pela indicação de cidade-sede seja repetida na preparação para os Jogos. E, claro, desde que exista igualmente intensa e detalhada fiscalização dos recursos públicos destinados para os Jogos do Rio, quer seja pelo Ministério Público e Tribunais de Conta, quer seja pelos políticos ou pela imprensa. A segunda contagem regressiva é a que tem seu marco 0 em outubro de 2010, quando o povo brasileiro vai escolher quem será o sucessor de Lula. A julgar pela disposição para campanhas demonstrada pelo presidente Lula agora em Copenhagen, somada a sua intrínseca - e um tanto espetacular - capacidade de transferir popularidade e angariar votos, todos aqueles que julgavam natimorta a candidatura petista de Dilma Rousseff podem começar a rever, rapidamente, seus conceitos. A escolhida de Lula pode até não ganhar, mas que a disputa vai ser acirrada, isso vai. As derrotas de Chicago, Tóquio e Madrid estão aí para quem ainda duvida de quão decisivo - e importante - pode ser o apoio do presidente brasileiro. Especialmente se for uma disputa onde haja campanha e discursos, candidatos e eleitores. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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