<i>"Pilotos de corrida são apenas peças de um negócio"</i>
<b>Flávio Briatore, dirigente da Renault, equipe de Fórmula 1,
em frase a ele atribuída por Nelson Piquet, ex-piloto</b>
Semprei gostei de competições e lutas. Boxe, judô, caratê, muay-thai, aikidô, vale-tudo e até esgrima, não importa muito o estilo ou a origem histórica, o confronto entre dois oponentes de condições físicas semelhantes para saber quem é o melhor sempre me entusiasmou. A única exceção é a luta livre. Por esta, nunca tive qualquer interesse. Lutadores como Michel Serdan, Aquiles, Caveira, Belo, Trovão, Marinheiro Junior e Mário Boy, celebrizados no Gigantes do Ringue, programa exibido pela Record nos anos 70 e 80, foram ícones de um número considerável de garotos que viveram a infância e adolescência naquele período. Não para mim, apesar de pertencer à mesma geração. Nunca gostei da farsa explícita, do maniqueísmo óbvio, da previsibilidade absoluta. Nunca vi luta livre como um combate pelo simples fato de que não existe disputa. É tudo armação, combinado previamente entre seus participantes. Por isso mesmo, pelo menos para mim, luta livre não é esporte, é entretenimento. E seus lutadores não são atletas, são artistas. Não combatem, fazem performances. Não me interessam.
Também desde sempre gostei de automobilismo. Sou um entusiasmado fã de pilotos de corrida e suas máquinas. Nascar, Stock car, Dragster, Indy, Kart, Le Mans, Protótipos. E, claro, Fórmula 1. Alain Prost, Mario Andretti, Richard Petty, A. J. Foyt, Nigel Mansell, Nelson Piquet, Niki Lauda, Michael Schummacher e Ayrton Senna foram alguns dos meus heróis, homens capazes de controlar carros a mais de 300 km/h através de circuitos sinuosos, protagonistas de duelos memoráveis e emocionantes.
Durante um bom tempo acompanhei treinos, corridas, campeonatos, bastidores. Fui a autódromos, li biografias, torci muito pelos meus preferidos. Pelo menos, até quinze dias atrás.
Desde então, me sinto traído. As ruidosas circunstâncias que cercaram a demissão do piloto brasileiro Nelsinho Piquet no meio da temporada e a batalha campal travada entre seu pai, Nelson Piquet, e seu algoz, o dirigente da escuderia Renault, Flavio Briatore, expuseram chagas inacreditáveis da mais importante categoria do automobilismo mundial. E, tanto pior, lançaram dúvidas imensas sobre a legitimidade de vitórias e títulos, sobre a honestidade da disputa, sobre a própria natureza do que se acreditava, até então, ser uma competição justa, com regras conhecidas e, minimamente, respeitadas. De quebra, lança dúvidas até sobre os méritos que recheiam as biografias de alguns dos maiores pilotos da história do automobilismo, muitos deles meus ídolos.
Nelsinho fora contratado para correr na Fórmula 1 em 2008 pela equipe Renault. Seu chefe era Flavio Briatore, um dos mais prestigiados - e polêmicos - dirigentes de equipe de todos os tempos, um homem que havia comandado seu próprio pai em outros Carnavais. A primeira temporada foi regular. A segunda, que ainda está em curso, bem ruim para o piloto brasileiro. Nelsinho havia assinado um contrato com a Renault em que se obrigava a atingir pelo menos 40% - há quem diga 20% - dos pontos somados por Fernando Alonso, o espanhol que era seu companheiro de equipe e continua piloto número 1 da Renault. Ficou bem abaixo disso. Até agosto, Nelsinho não tinha marcado um único ponto na temporada. Alonso somava 11. Depois do GP da Hungria, o espanhol marcou mais 2 e chegou a 13. Nelsinho continuava sem marcar. Foi demitido no meio da temporada. Nada muito nobre, mas possível, especialmente se considerado o seu pífio desempenho no ano.
Humilhado e escorraçado, Nelsinho resolveu abrir a boca. Foi aí que a porca torceu o rabo. Como habitualmente acontece quando gente de princípios éticos um tanto quanto elásticos decide romper acordos, o fedor foi grande. A coisa toda é nada simples e muita suja. Segundo Nelsinho, na temporada anterior, a pedido de Flavio Briatore, deliberadamente bateu seu carro contra o muro no GP de Cingapura. Tudo era parte da estratégia da Renault para ajudar Fernando Alonso, que àquela altura ainda sonhava, remotamente, com a chance de disputar o título de campeão. A manobra fez com que o safety car entrasse na pista. Desta forma, os carros foram todos reagrupados. E Alonso, o único que - sabe-se agora, nada miraculosamente - havia já trocado pneus e reabastecido o carro, foi tremendamente beneficiado. Saiu da última posição para a vitória.
Na versão do piloto brasileiro, tudo havia sido combinado com antecedência. Por isso, até a hora em que Alonso parou para trocar pneus e reabastecer foi premeditada. Idem para o instante da batida “providencial”. O resultado da corrida foi o esperado pela Renault, mas surtiu pouco efeito na temporada. Alonso venceu o GP de Cingapura, mas terminou o Mundial de Pilotos em quinto lugar. O campeão foi o inglês Lewis Hamilton. Briatore nega tudo, mas o resgate dos relatórios da telemetria - conjunto de dados sobre o comportamento do carro captados por computadores durante as corridas - do GP de Cingapura de 2008 mostra que, pelo menos desta vez, Nelsinho fala a verdade. Seu acidente foi deliberado e intencional. Ele acelerou o carro abruptamente, depois freou, depois acelerou de novo até encontrar o muro. Patético. Imundo.
O efeito das declarações de Nelsinho foi imediato - e devastador. Ameaçada de ser expulsa ou duramente penalizada pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo), a Renault reagiu demitindo Briatore e o diretor de engenharia, Pet Symonds. Papai Piquet, que se regozija ao dizer que Briatore não volta à F-1 nem "pela porta dos fundos", negociou um acordo para o filho com a FIA. Em troca de falar toda a verdade, Nelsinho Piquet escapa de qualquer punição oficial. Está livre para, caso encontre uma equipe disposta, voltar a correr. Falta só encontrar alguém com estômago suficiente para contratar um jovem piloto capaz de fazer tanta besteira em menos de dois anos. Difícil imaginar algum interessado no passe de Nelsinho que, ressalte-se, não teve qualquer surto de consciência. Só denunciou a trapaça da qual foi protagonista porque foi demitido. Por quase um ano, conviveu com Briatore, Symonds e quem mais fez parte da farsa. Não pareceu a ninguém, durante todo este tempo, que tenha tido qualquer desconforto com a sujeira na qual se envolveu. Apenas quando seus interesses foram atingidos é que resolveu falar. Típico de bandido, que negocia delações para reduzir a pena.
Pior que a situação dos Piquet (pai e filho), de Briatore, de Symonds e da Renault, só mesmo a do torcedor. Como acreditar que há, de fato, competição na Fórmula 1? O que imaginar, de agora em diante, sempre que houver um acidente em condições estranhas envolvendo pilotos improváveis? Seria acaso ou armação pura? O que pensar de situações semelhantes ocorridas no passado? O próprio heptacampeão Michael Schumacher se envolveu em situações semelhantes no início de sua carreira, na Benetton, então comandada por Briattore. O que, de fato, aconteceu naquela época?
Pessoalmente, não vejo mais muita diferença entre Alonso e Aquiles, entre Nelsinho e o Caveira, entre Briatore e Michel Serdan. A partir de agora, a F-1 deixa de ser um esporte competitivo para se reduzir a espetáculo de gosto duvidoso, assim como a luta livre. Talvez já estivesse na nossa cara sem que a paixão pelo esporte nos permitisse enxergar. Afinal, faz tempo que nos referimos a "circo" para designar o palco de uma corrida de F-1, não a "arena" como convém e um esporte de verdade. A diferença é que na luta livre, como no circo, sabemos exatamente onde está o picadeiro e quem são os palhaços que divertem os espectadores. No caso da F-1, fico inclinado a imaginar que os palhaços são os milhões de torcedores que, como eu, costumavam acompanhar o circo da F-1 do lado de cá da televisão.
<b>CORRÊA NEVES JÚNIOR</b>
<i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br
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