Orgulho


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<B>NASCIDO PARA SER JORNALISTA</B> - Cresci numa redação de jornal. Pouco aconchegante e confortável, mas altamente sedutora.
<B>NASCIDO PARA SER JORNALISTA</B> - Cresci numa redação de jornal. Pouco aconchegante e confortável, mas altamente sedutora.
<i>"Morei em palácio. Conheci presidentes. Jantei com reis. Mas nunca fui tão feliz como aqui, no Comércio"</i> <b>Corrêa Neves, jornalista</b> Meu pai teve uma vida singular. Nasceu em Itirapuã, nos anos 30. De lá, foi para São Paulo ainda adolescente, nos anos 40, sozinho, em busca de uma alternativa qualquer. Quis a vida que cruzasse o caminho do jornalista e advogado Francisco Carlos de Castro Neves. Político e intelectual influente - anos mais tarde, seria ministro do Trabalho de Jânio Quadros - Castro Neves foi quem primeiro introduziu Corrêa Neves numa redação de jornal. Começou como revisor de textos. Logo depois, viraria repórter. Do jornalismo foi para a política quase duas décadas depois. Acabou secretário de Estado. Teve o privilégio de ser um dos primeiros moradores do Palácio dos Bandeirantes, recém-convertido à condição de sede do governo paulista. Com o golpe militar, seu grupo foi alijado do poder e meu pai rumou para uma espécie de autoexílio na Europa até retornar ao Brasil, pouco mais de um ano depois. A partir de Franca, tentou retomar a carreira política. Acabou eleito vice-prefeito. Não chegou nem a pisar no paço municipal. Brigou com o prefeito antes da posse. Candidatou-se a deputado, perdeu. Desistiu da política. E viu, no Comércio da Franca, a chance de voltar ao jornalismo, na condição também de empresário. Era o início dos anos 70 e Alfredo Costa, então diretor e proprietário do Comércio, já estava um pouco cansado. O comunista que havia enfrentado a ditadura aqui em Franca - e que acabou preso alguns dias por isso - possivelmente achava que era hora de transferir o Comércio para alguém mais novo, que tivesse condições de desenvolver o jornal um tanto combalido naquele instante, mas que fosse do ramo. Penso que não queria, acima de tudo, que a história do Comércio chegasse ao fim nas mãos de alguém inexperiente. Fez negócio com Corrêa Neves que, enfim, tinha um jornal para chamar de seu. Nasci dois anos depois, em 1974, mais ou menos na mesma época em que a primeira rotativa - a máquina que imprime o jornal - chegava a Franca. Ao contrário do que muita gente pensa, estes primeiros tempos foram prá lá de difíceis aqui no Comércio. Meu pai se endividou até a alma para comprar o jornal e importar os equipamentos. Vendeu tudo o que tinha e, o que faltou, pegou emprestado no banco. Foi quase uma década de trabalho em doses insanas e nenhum espaço para luxo. Minha mãe ajudou muito, com seu salário de professora. O dinheiro do jornal mal dava para as despesas. E ainda havia a dívida com o banco. Foram muitas noites em claro sem que meus pais soubessem direito como quitar a parcela da dívida que venceria horas depois. Era com o dinheiro contado, com o valor recolhido da venda de cada exemplar, de cada pequeno anúncio, que as parcelas foram sendo pagas, a última delas quitada no final dos anos 70. A compra da Goss Comunity, a tal rotativa, foi o primeiro ato da revolução que, ao longo de três décadas, papai empreenderia à frente do jornal. Mas o simbolismo daquela máquina - uma das primeiras a usar a tecnologia off-set, que agregava qualidade e velocidade à impressão, no interior paulista - foi grande. Tão grande que, durante muitos anos, era na frente dela que meu pai gostava de tirar fotos, de registrar a presença de quem visitava o jornal. Era um troféu, o símbolo de uma vitória importante - e muito suada. É neste contexto que minha relação com o Comércio começou a ser construída. E meu caráter, a ser forjado. Cresci numa redação de jornal. Pouco aconchegante e confortável, mas altamente sedutora. Naqueles tempos, por redação entenda-se três mesas de madeira, duas máquinas de escrever, uma mesa grande inclinada para diagramação e nada mais. O prédio todo era escuro, cheirava a madeira velha, a construção um tanto castigada pelo tempo, o calor beirando o insuportável. Tudo era improvisado. O depósito de bobinas de papel ficava do lado da redação. A gráfica era embaixo, separada por uma folha de madeira do escritório improvisado, tudo um pouco lúgubre, soturno. Não tínhamos ar-condicionado, nem bebedouro, muito menos refeitório ou o que quer que fosse. Conforto para nós, naquela época, era uma garrafa com café quente. Reportagens, fazíamos a pé. Ou de ônibus. Ninguém reclamava. Ainda assim, o clima, o ambiente, as conversas e a excitação permanentes foram fundamentais para que a vida não me desse outra opção a não ser a carreira jornalística. Deixei a adolescência e entrei na fase adulta dentro do jornal. Vi pequenas reformas se sucederem, briguei muito para convencer meu pai a implantar mudanças que julgava fundamentais, ainda que pequenas - como, por exemplo, separar os classificados por seções. Aceitei desafios imensos, como fazer o Caderno de Domingo, desde que não ocupasse um único funcionário na empreitada. Teríamos que fazer tudo sozinhos (eu, minha mãe e o Sidnei Ribeiro, hoje editor de Brasil) ou nada feito. E, se não houvesse repercussão, acabaria no terceiro número. Mais de quinze anos depois, o Caderno de Domingo continua aí. Saboreei cada vitória, comemorei, chorei muito. Com os erros, com os projetos que não deram certo, com a saída de colegas que tomaram outros rumos, com as traições e a baixeza humana. Vibrei com a garra e a capacidade de união que demonstramos a cada vez que a máquina quebrava e era preciso um exercício de guerra para colocar o jornal na rua. Às vezes, cortando os exemplares um a um, na tesoura, enquanto saíam vagarosamente da rotativa quebrada. Outras tantas, transportando chapas e filmes em viagens sucessivas, hora após hora madrugada adentro, até Ribeirão, onde imprimiríamos o jornal. Tudo para que o Comércio não deixasse de sair um dia sequer. Não sou um caso isolado. Não sei se é a felicidade de poder colher imediatamente o resultado do trabalho realizado no jornal impresso que é entregue em cada casa. Talvez seja a capacidade de modificar as coisas, de melhorar a comunidade, de reparar injustiças. Ou, ainda, a necessidade imperativa de contar aos outros o que descobrimos e achamos importante, que possa fazer a diferença na vida de muitos. Impossível saber. O fato é que muitos outros colegas do Comércio foram afetados, em algum ponto de suas vidas, de forma semelhante. Minha mãe, por exemplo, abandonou sua carreira de professora e dois cargos concursados para se dedicar integralmente ao jornal. Outros tantos, como o Sidnei Ribeiro (quase trinta anos de Comércio), a Dulce Xavier (vinte e quatro anos de jornal), a Sandra Lima (vinte anos), o Rodrigo Henrique e o Walter Ferraro (quinze anos), a Joelma Ospedal (doze anos), o Dirceu Garcia e o Tiago Brandão (dez anos cada), para ficar apenas nos casos de quem tem pelo menos uma década, dedicam parte importante de suas existências ao projeto de fazer do Comércio um jornal de alto nível, ético e decente, forte e independente. Todos também são, sem dúvida alguma, exemplos de como esta estrutura tão singular é capaz de nos fisgar. Somos - todos os componentes deste grupo e muitos dos que estão aqui há bem menos tempo - apaixonados pelo Comércio, por seus valores, pela relação com a comunidade. E por você, leitor. Somos descendentes diretos do espírito de Corrêa Neves, de Alfredo Costa e daqueles que os antecederam. Os tempos são outros, os recursos, bem maiores e, as condições de trabalho, perto das ideais. Mas o espírito continua o mesmo. Devotamos, sem demagogia nenhuma, o melhor de nossas vidas para fazer um bom jornal e atingir suas expectativas. Não há doença ou problema, cansaço ou irritação que nos tire daqui, de nossa rotina, de nosso desafio cotidiano. A única exceção são os filhos - e quase sempre, apenas o tempo necessário para socorrer a emergência e voltar para cá. E tudo isso fazemos com prazer, com entusiasmo e com imenso orgulho. Porque para nós, fazer do Comércio um bom jornal e levá-lo até você, a cada dia, é muito mais do que uma atividade profissional. É uma missão de vida. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR </b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br

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