Sentido nenhum


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<b>INEXPLICÁVEL</B> - A diferença entre todas as mortes ocorridas ao longo da semana e o assassinato brutal e covarde de Joaquim e Abadia é a torpeza do ato e a falta de sentido das existências dos próprios en
<b>INEXPLICÁVEL</B> - A diferença entre todas as mortes ocorridas ao longo da semana e o assassinato brutal e covarde de Joaquim e Abadia é a torpeza do ato e a falta de sentido das existências dos próprios en
<i>"Nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida"</i> <b>José Saramago, escritor português</b> Sei quase nada sobre as existências de Joaquim Correia, 52, e Abadia das Dores, 62. Só que seus apelidos eram Quincas e Bigail, que moravam num casebre tão minúsculo quanto precário no Jardim Brasilândia, que sobreviviam de catar papelão, latinhas e outros recicláveis pelas ruas de Franca, que ela tinha pelo menos um filho e que toda a família, o que inclui os parentes mais próximos, enfrenta muitas dificuldades para pagar as contas no fim do mês. Infelizmente, sei bem mais sobre as circunstâncias da morte do casal. Joaquim e Abadia foram brutalmente mortos na madrugada de sexta-feira, enquanto dormiam, a golpes de machado. O assassino é Jéfferson dos Santos, um vagabundo de 19 anos também conhecido pelo apelido de Bill. Vez por outra, como na noite daquela quinta-feira, Bill atua como "flanelinha" em festas e eventos da cidade. Pelo pouco que se pode depreender de seu caráter - se é que esta definição se aplica a sua personalidade - é razoável supor que Bill não seja do tipo que se oferece para "vigiar" o carro em troca de uma "gratificação". Combina mais com seu estilo uma espécie de extorsão odiosa praticada hoje nas ruas de Franca - ou você paga o que exigem ou alguma coisa vai acontecer com seu carro. Sou capaz de apostar que ele pertence a este segundo grupo. Ainda assim, é muito pouco para explicar minimamente o que aconteceria horas depois. No meio da madrugada, depois de tomar "umas cervejas" com parentes e um amigo que moram com ele numa espécie de cortiço também no Brasilândia, o que Bill fez coloca em xeque sua condição humana. Após seus companheiros decidirem dormir, Bill se levantou, pegou um machado numa edícula próxima e, sem mais nem menos, sem que nenhuma discussão pudesse sugerir uma explosão de violência, rumou para o casebre de Joaquim e Abadia. Bill invadiu o barraco e foi direto na direção da cama da mulher. Abadia ainda acordou a tempo de identificar o invasor e xingá-lo. Não houve como fazer mais nada. Bill acertou duas machadadas em Abadia. A primeira, no rosto. A segunda, no crânio. Joaquim despertou mas não conseguiu nem se levantar. É possível que sequer tenha conseguido entender o horror que acontecia a sua volta. Foi atingido, ainda deitado na cama improvisada sobre tijolos, por um golpe fatal. Joaquim e Abadia morreram na hora. Bill arrastou os corpos, um de cada vez, até um buracão na mata do Brasilândia, sem se importar se seus passos eram acompanhados por alguém. Desceu e subiu, mais de uma vez, para desovar os cadáveres. Assustadoramente calmo, Bill nem se preocupou em recolher a calça de Joaquim, desprendida do corpo arrastado por mais de 300 metros desde o casebre. Preferiu ir direto para o cortiço. Para dormir. Antes de se deitar, apenas tirou a roupa e o tênis marcados de barro e sangue e os colocou no tanque, como se fossem as vestes sujas após um dia de trabalho. O machado, deixou no quintal mesmo. Foi dormindo que a polícia o encontrou às 8h45 da manhã de sexta-feira. Uma denúncia anônima, minutos antes, havia informado a polícia sobre os assassinatos. Muito provavelmente, feita por alguém que assistiu a caminhada macabra de Bill, arrastando cadáveres na madrugada de sangue pelas ruas do Brasilândia. O assassino ainda tentou negar a autoria dos crimes, mas só por alguns instantes. Diante do machado e das roupas tingidas de barro e sangue, confessou os crimes e narrou em detalhes como havia assassinado os dois. Não demonstrou qualquer sinal de arrependimento. A justificativa de Bill é tão torpe quanto sua natureza. Num depoimento de mais de três horas, Bill disse que estava irritado com Abadia porque, meses antes, ela havia prestado queixa contra ele por tentativa de "estupro". Depois, havia mudado a versão para tentativa de agressão. Durante o inquérito, acabou desistindo da queixa. Disse à polícia que Bill havia parado de perturbá-la. É certo que Abadia tinha um temperamento difícil, piorado por uma relação descontrolada com o álcool. Relatos da vizinhança apontam para uma mulher perturbada, mas inofensiva. Passava os dias na calçada, alcoolizada, à espera do companheiro que saía sempre nas primeiras horas da manhã para catar papelão e recicláveis. Mexia com um ou outro que passava por ali. Nada que, minimamente, pudesse despertar a ira de alguém. Muito menos, a reação violenta e doentia protagonizada por Bill. O brutal assassinato de Joaquim e Abadia marca o epílogo de uma semana triste para Franca. Depois de quase três meses sem mortes violentas, o fim de junho pôs fim à tranquilidade relativa dos últimos tempos. Outro crime, no início da semana, já sinalizava para um período turbulento. Uma discussão dentro de uma boate terminou num assassinato cometido a sangue frio por um garoto de 15 anos. Houve ainda acidentes, atropelamentos, muitas famílias entristecidas e uma cidade atônita. A diferença entre todas as mortes ocorridas ao longo da semana e o assassinato brutal e covarde de Joaquim e Abadia é a torpeza do ato e a falta de sentido das existências dos próprios envolvidos. Joaquim era de Restinga e deixou sua família para trás. Nenhum parente sabia direito por onde andava. Há um ano e meio em Franca sobrevivia, no barraco de menos de 10m², dos recicláveis. Foi ali que Abadia acabou acolhida. Originária de Delfinópolis, a mulher que carrega "dores" no sobrenome passou um tempo razoável como andarilha pelas ruas de Franca. Nenhum dos dois tinha documentos ou bens. Joaquim ainda tinha plano funerário, o que lhe garantiu um sepultamento com mínima decência. Abadia quase teve destino pior. Seu único filho localizado, residente em São Paulo, disse não ter condições financeiras para vir a Franca. Nem mesmo para enterrar a mãe. Foi uma parceria das funerárias da cidade, que fazem um revezamento nos casos de famílias muito pobres, que impediu que Abadia fosse sepultada como indigente. É uma sepultura modesta, mas adequada. A falta de perspectiva que marcou as vidas de Abadia e Joaquim os une dramaticamente à trajetória de seu próprio algoz. Como os dois, Bill tem um passado esquisito, um presente atormentado e nenhum futuro. Depois do que fez e daquilo que o aguarda, não há diferença estar vivo ou morto. Como as vidas de Abadia e Joaquim, também a existência de Bill chegou ao fim. Não importa o que aconteça daqui para frente, não há redenção possível. De um jeito ou de outro, a vida de Bill, que um dia já foi Jéfferson dos Santos, também terminou na madrugada de sexta-feira. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR </b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br

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