<b>`CTL RUD TRV LIM FAULT`</b>
<i>Mensagem automática enviada pelo computador do Airbus A330</i>
Há uma semana milhões de pessoas acompanham mundo afora, com atenção e tristeza, as buscas pelo Airbus A330 da Air France que desapareceu sobre o Atlântico quando fazia o trecho Rio de Janeiro - Paris. É pouco provável que nos últimos anos tanto se tenha falado sobre um assunto do qual se sabe tão pouco quanto as circunstâncias que levaram ao desastre do voo AF 447. Especialistas em aviação, em meteorologia e tempestades, em desastres aéreos, terrorismo, correntes marítimas, resgate de sobreviventes e em tantos outros tópicos relacionados quanto se é possível imaginar multiplicaram-se nos veículos de comunicação.
Todos em busca de uma explicação plausível para o que teria acontecido ao avião que decolou às 19 horas do Rio de Janeiro tranquilamente, sobrevoou grande parte do litoral brasileiro, até Natal, sem reportar nenhum problema, e desapareceu dos radares sobre o Oceano Atlântico minutos após passar sobre Fernando de Noronha, sem que seu comandante e os dois co-pilotos tivessem tido tempo de enviar uma única mensagem de socorro. O que quer que tenha acontecido foi brutal e, tanto pior, irreversível.
Uma das poucas coisas que se pode afirmar categoricamente, neste instante, é que nada seria capaz de indicar às 228 pessoas que embarcaram no início da noite de domingo, no aeroporto do Galeão, que o voo AF 447 jamais chegaria ao destino previsto. Tudo conspirava a favor do voo, a começar pela companhia aérea. A Air France é a maior do mundo. Tem 100 mil funcionários, 620 aeronaves e um histórico de acidentes praticamente irrepreensível. O Airbus é uma aeronave muito segura. O modelo que desapareceu sobre o mar, um A330, é um gigante de 58 metros com capacidade para transportar quase 300 pessoas a uma distância de 12,5 mil km, autonomia suficiente para ir de São Paulo a Moscou sem escalas. Produzido em série desde os anos 90, 343 aeronaves do tipo já foram entregues para 60 companhias aéreas diferentes. Do total, 341 estão em operação regular com uma marca respeitável: até a noite de domingo, nenhuma delas havia protagonizado acidentes com mortes.
O avião desaparecido era novo. Entrou em operação em 2005 e passou pela última revisão em 16 de abril, há menos de dois meses. A tripulação, igualmente, estava acima de qualquer suspeita. Onze franceses e um brasileiro estavam a postos para servir aos 216 passageiros de 32 nacionalidades diferentes. Brasileiros e franceses predominavam, mas havia também americanos, espanhóis, italianos, chineses, alemães... O comandante, de 58 anos, tinha 21 anos só de Air France. No currículo, 11 mil horas de voo, o que equivale dizer que ele já havia percorrido o equivalente a 916 vezes o trecho Rio de Janeiro - Paris na cabine de um avião.
Ainda assim, alguma coisa terrível aconteceu durante o voo AF 447. Os últimos registros são de 23h14. Até 23h10, o voo tinha sido absolutamente tranquilo, o que permite supor que, como acontece em qualquer viagem deste tipo, os passageiros já tinham a esta altura jantado e se preparavam para dormir, poltronas rebaixadas em busca da posição mais confortável para repousar à espera do amanhecer em Paris. Alguns, certamente, liam um jornal ou livro, outros tentavam se distrair com um filme qualquer, uns poucos bebericavam um uísque, casais conversavam sobre seus planos para os dias na cidade que é símbolo de romantismo, sofisticação, beleza. Ninguém poderia supor o que estava por vir.
O comandante conversou pela última vez com o controle do tráfego aéreo na região nordeste, o Cindacta 3, às 22h33. Era o penúltimo contato previsto com o Brasil. Não fez qualquer comentário sobre problemas a bordo. Não demonstrou preocupação com a zona de turbulência que estava à frente, já prevista nos mapas meteorológicos do dia, nem deveria. Diversos outros voos, de variadas companhias aéreas, cruzaram o mesmo trecho, nos dois sentidos, sem dificuldades. Minutos depois, ao deixar o espaço aéreo sob responsabilidade do Brasil, deveria contactar o Cindacta 3 e, às 23h20, se reportar já ao controle de tráfego da Ilha do Sal, na África. Nenhum destes contatos viria a acontecer.
O pouco que se sabe até agora é suposição baseada nos alertas automáticos disparados pela aeronave, via satélite, para os computadores na sede da companhia, na França. O primeiro, enviado às 23h10, indicava que o piloto automático, que mantém o avião na rota, havia sido desligado. Ninguém sabe se foi uma ação voluntária dos pilotos na tentativa de controlar o avião ou uma reação dos equipamentos automáticos a algum problema. Mas o intervalo que separa 23h10 de 23h11 foi certamente aterrorizante. Nestes sessenta segundos, outros treze alertas foram disparados com indicações de múltiplos problemas: pane no gerador principal, falha nos computadores e sistemas auxiliares, discrepância nas leituras de velocidade, etc. O pior de todos foi o aviso de sigla confusa e significado aterrador: `CTL RUD TRV LIM FAULT` são os códigos que informam que o Airbus perdeu o leme, o equipamento pelo qual é possível dar direção ao avião, quebrado ou arrancado do corpo da fuselagem.
É de arrepiar imaginar o que passou na cabeça dos pilotos neste instante, tentando controlar um avião em pane, voando no escuro e sem direção sobre o mar, a centenas de quilômetros de terra firme, em meio a uma tempestade e, muito provavelmente, sem a mínima chance de uma manobra qualquer, de um pouso de emergência. O mais provável é que tenham ficado tão apavorados com o cenário que se desenhava à sua frente que sequer tenham tido tempo de informar qualquer coisa aos passageiros. Se tivessem tido esta condição, é provável que também pedissem socorro ao controle de tráfego aéreo, o que não aconteceu. Outros dez alertas foram emitidos automaticamente nos três minutos seguintes até o derradeiro aviso, às 23h14, que indicava "velocidade vertical na cabine", o mergulho descontrolado nas águas do Atlântico.
Nestes quatro pavorosos minutos, 228 pessoas acompanharam sua vida se esvair, prestes a serem interrompidas sem qualquer preparação, sem tempo para se despedir dos que lhes eram caros, sem poder minimamente se acostumar com a ideia da morte, o que quer que ela signifique para cada um de nós. É brutal demais, triste demais. As buscas por corpos - apenas dois foram encontrados até agora - continuam e, por certo, haverá explicações para o que provocou este acidente. Nenhuma delas, por mais racional e lógica que seja, suficiente para nos fazer entender e aceitar a fragilidade e a fugacidade de nossa própria existência.
<b>CORRÊA NEVES JÚNIOR </b>
<i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br
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