Fio do bigode


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Minha geração nasceu já sob o império do papel assinado.
Minha geração nasceu já sob o império do papel assinado.
<i>"Nenhum homem tem o dever de ser rico, grande ou sábio; mas todos têm o dever de serem honrados"</i> <b>Rudyard Kipling, escritor britânico</b> Houve um tempo, historicamente nem tão distante assim, em que a palavra empenhada valia muito. Era suficiente para que o pacto acordado, qualquer que fosse ele, tivesse a força de lei. Combinou, está combinado. O acertado seria cumprido, custe o que custar, por quem acordou ou por seus descendentes. Ponto final. Não sou dessa época. Minha geração nasceu já sob o império do papel assinado. Combinar continuava relevante, havia vergonha em descumprir o estabelecido, mas para valer mesmo, tinha que ter contrato. De preferência, em três vias, com duas testemunhas e, claro, firma reconhecida em cartório. Pronto. Para alegria dos advogados e suas cláusulas protetoras, passamos a assinar papéis para tudo. Do casamento, que no Civil nada mais é que um contrato, às relações de consumo e de trabalho, tudo passou a ser regido por documentos formais e suas múltiplas páginas rubricadas. Claro que `formalizar a existência` dá um trabalhão. Um funcionário quer dividir suas férias de 30 dias em três períodos de dez? Não pode. E se for em duas etapas de 15 dias? Aí pode, mas só se assinar tudo direitinho. Também tem que assinar para mudar o horário de almoço, para sair mais cedo por causa de um curso, para debitar o cartão da farmácia no pagamento... Na vida fora da empresa, idem. Vai comprar um celular? Na hora, mas assine as cinco vias do contrato. Vai se internar para fazer uma cirurgia? Assine, peça para um parente assinar junto se responsabilizando e deixe um chequinho para garantir. Afinal, ninguém quer dor de cabeça se você morrer, não é mesmo? Nem problemas com a Justiça explicando o que deu errado no seu caso. Contratou uma consultoria para ajudar nos negócios? Assine e se prepare, porque até o custo dos telefonemas são seus. Vai fazer ginástica e precisa de um personal trainner? Assine e pague adiantado. Vai estudar? Assine também e, em alguns casos, arrume um fiador. Vai morar de aluguel? Além de ter a ficha limpa e assinar, precisa de dois fiadores. E de um cheque-caução. Além da chatice intrínseca, tanta burocracia tem uma consequência adicional. Rouba de nós tempo, precioso, com sua execução. Os números são imprecisos mas, seguramente, temos aqui no GCN (Grupo Corrêa Neves de Comunicação) pelo menos uns 30 termos diferentes que funcionários de setores distintos devem assinar. Na minha rotina há dias em que coloco mais de 100 assinaturas em documentos diversos. Como é impossível checar tudo, a burocracia avança. Áreas específicas, como o departamento jurídico, carimbam antes que os documentos sejam encaminhados para mim. É um sinal de que tudo foi visto e de que, pelo menos em tese, não há risco. Só então, assino. Alguns episódios acontecidos nas últimas semanas foram mais que suficientes para ligar o sinal amarelo e indicar que, depois do `fio do bigode` e do `império dos documentos`, vivemos já num outro tempo: o do `salve-se-quem-puder`, onde o combinado vale nada, a palavra empenhada menos ainda e contratos são descumpridos sem pudor, sem que ninguém se envergonhe, sem um pedido de desculpas sequer. O primeiro problema foi com um fornecedor de serviços de telefonia. De uma hora para outra, fomos avisados de que o preço acertado em contrato sofreria um `modesto` reajuste de seis vezes. O serviço pelo qual pagávamos R$ 0,24 o minuto passaria para R$ 1,30. Conversamos com o nosso contato na companhia, que se limitou a reforçar o que havia sido comunicado por correspondência. Apelamos então para o principal executivo por estas bandas. A resposta foi a mesma. A justificativa, inacreditável. "Tenho um prejuízo grande com esta operação e vamos descontinuar o serviço. Podem procurar outra empresa. Se quiserem o nosso, vai custar isso mesmo". Argumentamos, lembramos os anos de parceria. Nenhum efeito. Invocamos o acordo formal assinado. Nada. Com muito custo, conseguimos acertar um desconto em outros produtos que usamos, mais ou menos equivalente ao que gastaremos a mais com o "novo" serviço, que é exatamente o mesmo de sempre, mas com preço muito maior. Outro caso aconteceu com a empresa de quem compramos dois carros novos para a renovação de parte de nossa frota. O contrato estipulava pagamento à vista contra a entrega do veículo, estimada para 35 dias após fechado o negócio. Dinheiro suado reservado, era esperar. Sete semanas depois, muito além do prazo previsto, recebemos o aviso de que o primeiro veículo estava pronto. Lá foi nosso funcionário, com o cheque no valor correto, retirar o carro. Ao chegar à concessionária, foi informado de que precisávamos pagar R$ 200 a mais. A justificativa: a tabela da montadora havia subido e tínhamos que pagar o "extra". Argumentamos que o valor estava estipulado em contrato. A resposta, ridícula, foi de que não poderia fazer nada. Se a montadora reajusta, temos que pagar. Tentamos mostrar o absurdo da situação: e se o reajuste fosse, hipoteticamente, de R$ 5 mil, seríamos igualmente "obrigados" a pagar? A vendedora permaneceu inflexível. Nosso funcionário perguntou o que aconteceria se não pagasse os R$ 200 adicionais. "Você não leva o carro". De novo, apelamos ao gerente da loja em busca de bom senso. Em vão. Não ruborizou, não voltou atrás. Por R$ 200, colocava em risco um negócio de R$ 50 mil. Absurdo assim. Avisei que mandaríamos os R$ 200, retiramos um dos veículos, de que precisávamos com urgência, e cancelamos a compra do segundo, cuja entrega demoraria ainda uns dias. Nervoso, o gerente limitou-se a disparar impropérios. E ainda ameaçou retaliar o jornal e a rádio com corte nas verbas de publicidade. Não tenho a menor ideia de para onde as coisas vão caminhar neste mundo estranho e áspero, mas me recuso a aceitar que pessoas de bem descumpram deliberadamente o que combinaram, que não exista respeito aos pactos firmados, que a anarquia e o desrespeito sejam as práticas vigentes. Há que se ter, antes de tudo, decência, ética, princípios. Pode parecer antiquado mas, aqui no GCN, se combinamos que um de nossos produtos custa x reais, este é o preço. Para mudar, só na renovação dos contratos, mediante prévio aviso e consentimento. Durante sua vigência, nem pensar. Se a matéria prima sobe, se a lucratividade não é a que imaginamos, se tivemos um contratempo, o problema é nosso. Os custos, idem, não de quem negocia conosco. Assumimos o prejuízo e continuamos em frente. É o mínimo que se espera de uma empresa séria e idônea. É também o que se imagina, em qualquer relação, de gente de bem. Minha esperança, tênue, é a de que as pessoas de palavra e de princípios, ainda que raras, existem. São poucas, mas fazem diferença. Exemplo de gente assim é o dono da referida concessionária. Na manhã seguinte à confusão, ao se deparar com o documento - sim, tínhamos formalizado o cancelamento da compra do segundo carro - e ser informado sobre o acontecido, teve a decência de nos ligar, reconhecer o erro, desculpar-se e reafirmar que os carros seriam entregues pelo preço acordado, sem necessidade de nenhum real a mais. Disse também que o gerente imprudente ligaria para se desculpar - o que aconteceu - e que situações como aquela eram inadmissíveis. Pode parecer pouco, mas posturas como esta fazem diferença. Nem de longe significa sonhar com a volta do "fio do bigode", mas pelo menos dá para imaginar um ambiente onde o compromisso firmado tenha mínimo valor. No mundo do "salve-se-quem-puder", não é pouca coisa. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR</b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> jrneves@comerciodafranca.com.br

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