Foi-se o tempo em que os artefatos utilizados para ornamentar o corpo humano se restringiam a brincos, piercings e tatuagens. A cada dia surgem novidades no que diz respeito à técnica chamada body modification (modificações do corpo). No início dos anos 90, um adereço que até então era utilizado quase que exclusivamente por indígenas caiu no gosto do "homem branco": o alargador de orelhas. Geralmente fabricados em madeira, acrílico, aço cirúrgico e até mesmo bambu, os alargadores possuem várias medidas, que vão desde 5 milímetros até impressionantes 100 milímetros de diâmetro, desafiando inclusive os limites de elasticidade da pele humana.
Especificamente em Franca, o alargador ainda não atingiu o mesmo status de piercings e tatuagens, que já são usados em larga escala pela juventude há vários anos. Justamente por tratar-se de uma "novidade", é que o alargador ainda assusta. É comum um estranhamento quando as pessoas se deparam com o adereço.
Adepto da moda há mais de cinco anos, quando começou a alargar suas orelhas com um pequeno brinco, o guia turístico Rogério Martins, 37, sente na pele quase que diariamente, mesmo que de maneira indireta, o preconceito por usar joias de 25 milímetros nas suas orelhas. "Tem gente que fica olhando torto, achando que é coisa de outro mundo. Alguns se contentam em usar brincos e maquiagem. Eu uso alargadores", simplificou.
Um exemplo claro do preconceito sofrido por Rogério por conta de seus ornamentos ocorreu na Igreja Matriz de Franca no ano passado. Na ocasião, ele aguardava sua namorada. "Cheguei adiantado e fiquei esperando ela chegar sentado em um dos bancos. Foi impressionante porque todos olhavam para minhas orelhas e ninguém tinha coragem de se sentar ao meu lado", disse o guia, que tem o hábito de fabricar as próprias joias, principalmente em bambu.
O fato de trabalhar como guia de ecoturismo dá a Rogério a "liberdade" de exercer suas funções usando o alargador. Mas em outras ocasiões, como entrevistas de emprego, ele diz já ter se sentido preterido por outro candidato por conta do adereço. "Certamente fui descartado da concorrência pela vaga porque estava usando (alargador). Mas nem por isso vou mudar meu estilo de vida. Se meus filhos um dia também quiserem furar a orelha, não vou ser contra", esclareceu.
Rosângela Baldini Silva, responsável pelo setor de recrutamento de uma agência da cidade disse que os alargadores, entre outros objetos, podem ser determinantes na escolha de candidatos que concorrem a uma vaga de emprego (leia mais no apoio).
<b>CUIDADO</b>
Para o tatuador e body piercer Ricardo Lineatti, o uso do alargador é quase que uma "consequência natural" para as pessoas que já possuem outros objetos pelo corpo. "Geralmente quem coloca alargador gosta de tatuagem e piercing e opta por isso para mostrar um estilo de vida alternativo", explicou.
Mesmo para as pessoas habituadas a ornamentar o corpo, Lineatti lançou um alerta. "Não aconselho ninguém a fazer algo extremo pois as consequências podem ser desastrosas. Já vi pessoas com o lóbulo (orelha) rasgada e gastando mais de R$ 5 mil com cirurgias plásticas para corrigir o problema", disse o tatuador, que costuma implantar cinco pares de alargadores por semana em seu estúdio. O custo do implante fica entre R$ 50 e R$ 150, dependendo da joia utilizada.
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