Sentado em minha poltrona do voo DL 121, que nos trazia de volta ao País depois de quinze dias nos Estados Unidos, nada indicava o que estava por me aguardar ao pisar solo brasileiro pouco mais de dez horas depois. O embarque de volta ao Brasil, na noite de sábado da semana passada, havia transcorrido quase sem contratempos no “JFK”. A última etapa da viagem começara algumas horas antes, ainda na manhã de sábado, quando deixamos Washington rumo a Nova York. O trecho de 400 quilômetros, no carro que havíamos alugado, foi tranquilo.
Chegamos com tempo de sobra, devolvemos o carro à locadora no aeroporto mesmo e rumamos para o check-in sem grande pressa. Malas despachadas, fomos para a verificação de segurança, um dos piores legados do ataque talibã às torres gêmeas, o famigerado “11 de setembro”. Desde então, perdeu-se muito do charme de voar, da sofisticação e requinte que eram quase sinônimos de voos internacionais. Especialmente nos Estados Unidos, o tempo de permanência nos aeroportos é quase sempre marcado por filas, espera, boas doses de estresse e muita paciência para enfrentar as várias barreiras de segurança. Em cada uma delas, lá vai o viajante mostrar seu passaporte, submeter-se à inspeção dos documentos pelas autoridades, tirar notebook da mochila, tirar os sapatos e cintos, a carteiras e o celular, e colocar tudo numas cestas que passam pelo raio-x. Descalço e só com as roupas, é hora do viajante passar, ele mesmo, por outro raio-x.
O Rodrigo foi na frente. Tudo certo. Eu e o Éverton, quase juntos em duas filas lado a lado, também atravessamos sem problemas. Estava terminando de calçar o tênis quando me dei conta de que nosso grupo estava subitamente reduzido a três pessoas. Valdes havia desaparecido. Olhei para um lado, para o outro, e só então o vi ainda na barreira de segurança, gesticulando para o oficial à sua frente. Corri para entender o que se passava. Quando cheguei até o Valdes, o tal oficial já abria a mochila e começava uma inspeção. De repente, tira um frasco. E mais um. Outro. E o quarto. Perguntei o que era aquilo. “Cremes. Para minha mulher, filha...”.
Lembrei a ele que era proibido embarque com qualquer item que contenha líquidos ou cremes em volume superior a 100ml. “Pois é, me esqueci...”, lamentava diante do oficial, impassível. “Com isso, ele não embarca”, sentenciou a autoridade. “Mas não tem problema, é só um cremezinho...”, insistia. Inútil. Ou voltava no check-in e despachava a mochila como bagagem, o que além de trabalhoso e demorado, seria caro (teria que pagar uns US$ 200 por excesso de peso), ou perdia os cremes. Foi com o rosto transtornado que meu grande companheiro de jornada acompanhou o oficial jogar fora, um a um, seus cremes. “Mas será que não tem jeito?”, implorava, ante o terceiro pote jogado no lixo. Não, não tinha. O último frasco já tinha virado lixo.
Dentro do avião, tudo tranquilo. Já havia amanhecido quando a voz do comandante cortou o silêncio quase total na cabine, quebrado àquela altura apenas pelo som dos talheres dos passageiros que se dedicavam ao café-da-manhã. “Senhores passageiros, temos duas informações importantes. A primeira é que o tempo está bom em São Paulo e pousaremos no aeroporto internacional de Guarulhos 30 minutos antes do previsto. Tocaremos o solo às 8h20 e às 8h30 estaremos desembarcando”, disse. “A segunda é que de acordo com recomendações das autoridades de saúde do Brasil, passageiros com sintomas de gripe devem se identificar às equipes em terra...”.
Foram então mais cinco minutos de alertas e instruções sobre procedimentos a serem adotados pelos possíveis infectados pela gripe suína. Achei um pouco exagerado, mas só. Dez horas antes, num dos aeroportos mais importantes do mundo, que concentra voos de todos os continentes e de onde aeronaves partem para todos os cantos do mundo, nada parecido havia sido feito.
Quarenta e cinco minutos depois tocávamos solo brasileiro. Pontualmente às 8h30, começamos a desembarcar. Ao pisar fora da aeronave, representantes das autoridades sanitárias brasileiras nos recebiam vestidas com máscaras. Pequenos folhetos com instruções sobre a doença eram entregues para turistas que se dividiam entre os assustados e os perplexos. Na Polícia Federal, todos os agentes também usavam máscaras, o que parecia regra até para os rapazes que limpavam os sanitários na área de retiradas das bagagens. Insistentes avisos pelo sistema de som emitiam alertas contra a gripe suína. Até na alfândega, antes de deixar o aeroporto, as autoridades oficiais igualmente usavam as tais máscaras. O único lugar no desembarque onde os humanos pareciam humanos era no Free Shop. Foi ali que, diante de gente sem máscara, o Valdes pode comprar os creminhos que havia “perdido” em Nova York. Não sem alguma irritação. “Aqui, custam 70% mais caro”. Reclamou, mas garantiu o presente da família.
As pessoas com máscara me fizeram lembrar na hora as várias conversas que havia mantido com nossa equipe de jornalismo em Franca a partir dos Estados Unidos. Tínhamos ficado intrigados com a situação de quase pânico que, aparentemente, a gripe suína provocava no Brasil. Demos entrevistas para nosso pessoal, fizemos participações ao vivo na Difusora a partir de Nova York e da Filadélfia, sempre deixando claro que, por lá, a situação era de preocupação, mas longe de qualquer pânico. Ninguém usava máscara nas ruas e os restaurantes, bares, estádios e escolas funcionavam normalmente. A imprensa americana cobria tudo com atenção, mas nem sempre o assunto abria o noticiário. Nos jornais, tampouco era manchete todo dia, como estava acontecendo no Brasil, País que até então não havia registrado nenhum caso da doença.
A gripe suína é uma ameaça séria que precisa ser combatida. Mesmo assim, o terror associado à doença no Brasil é despropositado. Estatísticas nem sempre traduzem tudo com precisão, mas alguns números são autoelucidativos. Até a noite de sábado, eram 3.440 contaminados pela gripe suína em 29 países. No total, desde o início do surto, 52 pessoas morreram, 48 delas no México. Apenas como comparação, gripes comuns matam pelo menos 250 mil pessoas a cada ano, número infinitamente superior ao verificado pela gripe suína.
Além disso, um fato, lembrado pelo presidente americano Barack Obama na entrevista em que fez um balanço dos 100 primeiros dias de governo, há mais de uma semana, segue sistematicamente ignorado no Brasil. Os sintomas que atingem as pessoas infectadas pela doença no mundo todo são muito mais fracos do que se viu no México. Se é porque os mexicanos demoraram demais a se dar conta do que acontecia, porque as primeiras vítimas menosprezaram o problema ou em razão das condições sanitárias do país não dá para saber, mas o fato é que os infectados mundo afora conseguem se recuperar sem grandes problemas.
Cuidado, higiene e atenção são medidas recomendáveis, bem como, em alguma medida, alertas e avisos. Mas máscaras, ainda que em aeroportos, parecem um exagero difícil de entender. A medida, apesar de bem intencionada, é excessiva. De prático, a única coisa que consegue é assustar quem chega ao país.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca
jrneves@comerciodafranca.com.br
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