Chegamos sexta-feira à noite a Nova York. Depois de quase uma semana em Las Vegas, cruzamos os Estados Unidos no sentido Oeste-Leste rumo à capital do Mundo. Não foi um voo lá muito confortável para o grupo formado por quatro intrépidos francanos.
Estão comigo nos Estados Unidos os colegas de GCN Éverton Lima, diretor da Rádio Difusora; o apresentador Valdes Rodrigues e o executivo de Contas Premium, Rodrigo Henrique de Oliveira.
Deveríamos ter decolado de Las Vegas às 6h55 da manhã. Mas, para desespero do Valdes - cuja familiaridade com o inglês é, por assim dizer, modesta, e a paixão por voar, duvidosa - o piloto anunciou, logo após fechar a porta de acesso ao avião, que alguma coisa estava errada. E que teríamos que aguardar alguns instantes. `Checagem padrão`, garantiu.
Quarenta longos minutos depois, a mesma voz, após se desculpar pelo atraso, anunciou que havia um problema com os sistemas hidráulicos, que uma equipe estava chegando para os reparos e que tudo seria feito ali mesmo, o que nos obrigaria a esperar outros 40 minutos. Ninguém podia descer. Ninguém podia sair do avião. Chorar podia, embora não tivesse visto ninguém chegar a derramar uma lágrima.
O que sobrou foi irritação. Não foram poucos os passageiros que protestaram. Também havia boas doses de nervosismo. Do grupo, Valdes era o menos confortável com a situação. Como estava sentado distante de mim, tomei um susto ao vê-lo se aproximar. “Júnior, tudo bem? O que está acontecendo?”, disparou.
Minhas explicações não foram suficientes. “Então tá... Mas isso de arrumar avião na pista dá certo?”, insistiu. Disse que dava. Ou que, pelos menos, acreditava que sim. O voo decolaria ainda quase uma hora depois. Ao deixar o solo, um forte estrondo fez com que parte dos passageiros ficasse um pouco mais apreensiva. Valdes, particularmente. “Eu falei que este negócio de arrumar avião na pista é esquisito. Quem garante que eles colocaram a peça certa?”, resmungou.
Não sei se tem a ver ou não mas o fato é que, segundo relatos do Rodrigo e do Éverton, que estavam próximo ao Valdes, nosso colega foi pelo menos cinco vezes ao banheiro durante o vôo. Em todas elas, fez levantar o pouco simpático casal de muçulmanos que estava ao seu lado. Valdes na janelinha, os dois no seu caminho até o corredor. Numa das vezes, apertado, Valdes esperava ansioso a mulher acordar.
Ao vê-la abrir os olhos, mandou ver, em português mesmo: “A senhora dormiu bem? Então, por favor, excuse-me que preciso ir no banheiro, viu?”. Funcionou. Das técnicas do Valdes que já vi em ação, esta é a mais impressionante, a mais improvável e, sem dúvida nenhuma, 100% eficaz.
Diálogos bilíngues com incompreensão mútua. Valdes fala em português, sorrindo. O interlocutor responde em inglês. Nenhum entende o que o outro fala, mas ambos conseguem o que querem. Valdes, normalmente, sua cerveja. E o interlocutor que fala inglês, o dinheiro. Nunca vi dar errado.
Por sorte, o problema no avião foi só um susto cuja maior consequência foi a chateação com as mais de duas horas de atraso. Cinco horas depois aterrissávamos no aeroporto JFK. Com os acréscimos do fuso, há era início da noite de sexta-feira em NY.
Para compensar, o sábado amanheceu esplendoroso, sol alto, temperatura agradável e céu muito azul neste início de primavera.
Optamos por um programa tipicamente novaiorquino: andar pelas ruas da cidade rumo ao Central Park, parando onde desse vontade, observando a multiplicidade étnica desta cidade descrita como a `esquina do mundo`, com direito a muita comida de rua.
Estamos hospedados na rua 42, ao lado da Grand Central Terminal, uma construção de mais de 100 anos em estilo Beaux-Arts que abriga a principal estação de trens e metrôs da cidade. Dali, caminhamos até uma Starbucks na Madison com a rua 44 para o café da manhã. Expressos, capuccinos, um cookie de chocolate e aquilo que o Rodrigo chama de “broa”. É uma definição ampla. Qualquer coisa doce e grande para ele é “broa”. A do dia era um croissant de manteiga.
Da Starbucks seguimos rumo à avenida Broadway e, dali, subimos na direção do Central Park. Doze quadras adiante, paramos na Carnegie Deli, uma instituição novaiorquina. No espaço mínimo, dezenas de clientes esperam por uma mesa. Ou, como nós, compram a comida “to go”. E levam as delícias, como o sanduíche de pastrami - um embutido que lembra Mortadela e na versão da Carnegie Deli é muito parecida com o clássico sanduíche do Mercado Municipal de São Paulo e reinterpretado em Franca pelo Buteco do Lu - e a cheesecake. Compramos dois sanduíches e continuamos nossa jornada.
O Central Park estava lotado. Gente caminhando, correndo, patinando, namorando, lendo, andando de bicicleta, passeando com o cachorro, fazendo piquenique com a família, almoçando sozinho, estudando. Foi ali, num gramado com rochas próximo aos campos de beiseball, que nos sentamos para almoçar. Aos dois sanduíches do Carnegie Deli somaram-se dois cachorros-quentes de uma barraca de rua, o bolota deles, que existem há décadas sem importunar ninguém. Nos pequenos carrinhos vendem-se pretzel, falafel e refrigerantes.
São parte da cultura americana, como os bolotas eram da nossa. Não há banheiro próximo, como hoje exige o Ministério Público em Franca, o que não faz com que a Vigilância Sanitária local interdite nenhum. E ricos e pobres, artistas e anônimos, políticos e cidadãos comuns, todos compram nas barraquinhas para comer ao ar livre, aproveitando o que a cidade oferece. Um privilégio que nós, francanos, estamos privados de usufruir em nossa cidade.
Claro que não há excessos. As tais barraquinhas tem tamanho padrão e não podem vender bebida alcoólica, cujo consumo na rua é proibido. Nos parques você também pode aproveitar à vontade, pisar e sentar na grama, jogar bola, brincar de frescobol, desde que não incomode ninguém. Lixo na grama não há. Som alto, também não.
Enquanto desfrutávamos o almoço, acompanhamos um jogo de beisebol de times amadores, mais ou menos como uma pelada entre o Formosa e o Santa Cruz aí em Franca. Baseados em nossos conhecimentos de beiseball, havíamos concluído que, certamente, o time de vermelho, que apelidamos de Formosa, era favorito. Durante o treino, pareciam rebater melhor. Erramos feio. O Santa Cruz deu show e venceu fácil.
No fim da tarde, depois de uma incursão na FAO Swarcz, a fantástica loja de brinquedos onde Valdes foi escolher presentes para os netos, resolvemos voltar para o hotel. As quase 20 quadras que atravessamos fácil no início do manhã pareciam menos convidativas àquela altura. Como os táxis nos ignoravam, resolvi que era hora de fazer aquilo que só turista tem direito. Pagar mico. E pagamos. Os quatro. Voltamos para o hotel em duas bicicletas triciclo. O “piloto” leva até dois passageiros por vez neste riquixá com direito a amortecedor. É uma aventura e tanto.
Pelo que deu para perceber, os tais riquixás tem autorização para usar as faixas de ônibus. Inclusive, na contramão. Também parecem acreditar que a preferencial é sempre sua. Difícil é acreditar nisso quando você desce a 5ª avenida com um ônibus em sua direção - no sentido oposto. Rodrigo, meu companheiro de riquixá, resumiu a aventura. “Isso aqui é muito louco”. De arrepiar. Mas valeu a pena. Chegamos ao hotel sãos e salvos. E prontos para o domingo, onde mais Central Park, comida de rua e Broadway à noite nos aguardam.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br
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