Há alguns sentimentos universais, que independem de credo, de gênero, de limites geográficos ou de época. Fazem parte desta categoria o amor, o ódio, a cobiça, a gula, a inveja. Poucos são tão abrangentes, no entanto, quanto aquela sensação que todo mundo tem, de vez em quando, de que nada dará certo naquele dia específico. É uma espécie de "inferno astral" compactado, doses cavalares de mau agouro num único período de 24 horas. A manhã é ruim, a tarde pior ainda e a noite chega com uma única certeza: a de que aquele dia nunca deveria ter existido.
E, como é inevitável, quase sempre nos penitenciamos por não termos tomado a única medida possível nestes casos. Ficar quietinho em casa, de preferência trancado no quarto, sem fazer nada, apenas contando as horas que nos separam do fim do infortúnio. Apesar dos sinais evidentes que o Cosmos envia desde as primeiras horas da manhã, por um destes mistérios da vida sempre teimamos em seguir em frente, indiferentes à infalibilidade da Lei de Murphy, que nestas ocasiões mostra toda sua precisão - e força. Pior para nós.
Foi diante de uma travessa de bacalhau nesta Sexta-feira da Paixão, ao contemplar a obra de arte em forma de comida executada por minha mãe, que tive um arrepio. As azeitonas espalhadas delicadamente sobre as postas de peixe, ao lado das batatas e dos pimentões, conferiam um aroma espetacular. E um calafrio na minha alma. Foi impossível olhar para as azeitonas e não recordar, imediatamente, do meu último dia de cão. E que dia.
Foi num domingo de campanha eleitoral, portanto mais ou menos seis meses atrás, que me confrontei pela última vez com o inevitável. Era o dia do debate entre os candidatos a prefeito de Restinga, transmitido ao vivo pela Difusora e com participação de boa parte da equipe de jornalismo do Comércio/Difusora. O confronto entre os candidatos de Restinga era o penúltimo de uma cobertura que havia nos levado quase à exaustão pela sucessão de sabatinas, entrevistas e debates com candidatos de 15 cidades. Na véspera, havia trabalhado até a madrugada. Já passava das 2h30 da madrugada quando mudei de 9 horas para 9h50 a hora de "despertar". Grande erro.
Cansados, nem eu nem minha mulher ouvimos o interfone tocar várias vezes a partir das 9h30. O telefone da casa até ouvimos, mas preferimos ignorar os toques, certos de que era um destes "enganos" de domingo. Quando finalmente acordamos, às dez para dez, estranhamos a quietude. O chuveiro não tinha água quente, nenhuma luz acendia. Só o interfone funcionava. Ligamos para o porteiro. O que ouvimos era o primeiro sinal do que nos aguardava. "Sr. Junior, vai ficar o dia inteiro sem força, para fazer manutenção na rede. Olha, e o elevador já está parado". Sem opção, tomei um banho frio e me preparei para enfrentar 12 andares escada abaixo até a garagem, no subsolo.
Chegamos ao auditório do GCN faltando minutos para o início do debate. O clima era tenso. Sentei na bancada ao lado de meus colegas jornalistas. Apesar do nervosismo, o debate transcorria sem maiores problemas. Ataques de um lado, contra-ataques de outro, nenhuma novidade. A não ser por um estranho fenômeno, que passava despercebido para os candidatos e suas assessorias: aos poucos, sem entender direito por que, parte da equipe do GCN presente ao estúdio desaparecia, um a um, como que por mágica. Primeiro uma secretária. Depois a equipe jurídica. O pessoal do marketing. Duas diretoras. Um fotógrafo. Todos entravam pelo corredor que dá acesso às áreas internas e não mais retornavam.
Fiquei intrigado. Imaginei que talvez o debate, tão interessante para nós, poderia estar modorrento para o público. Longe disso.
Terminado o debate, fui em busca dos colegas "sumidos". O primeiro susto foi topar com duas mulheres sem sapatos, calças dobradas na altura da canela, rodo na mão, empurrando toneladas de água escada abaixo. Ante minha pergunta sobre o que havia acontecido, a resposta foi evasiva. "Deu um probleminha na sala do Jurídico...". O resumo no diminutivo nem de perto descrevia o que ocorrera. Ao chegar na tal sala, uma visão do caos. Homens e mulheres de rodo na mão empurrando água. Outros ajudavam na retirada de móveis. Caixas de papéis com milhares de páginas de processos encharcadas.
Incrédulo, fui informado de que o teto da sala do departamento jurídico havia desabado. Milhares de litros d`água tinham inundado o andar superior do prédio. Nervoso, tentava descobrir como aquilo poderia ter acontecido num prédio novo, moderno. Fui obrigado a ouvir a genial explicação de um engenheiro da equipe que havia feito uma revisão no sistema de calhas e rufos "Não era para ter acontecido nada". Bidu! Irritado, insisti com o gênio da engenharia para que me explicasse como aquilo poderia ter acontecido. De nada adiantou.
Recebi a mesma explicação idiota de novo. Foi preciso que a equipe do seguro chegasse para descobrir quão simples pode ser um desastre. Sábado não choveu. Os rapazes que trabalhavam na limpeza das calhas concluíram, baseados em seus avançados conhecimentos meteorológicos, que não choveria também no domingo. Logo, porque razão terminar o serviço? Ao invés de cobrir as calhas e rufos decentemente, colocaram uma sacola plástica, destas de supermercado. "Uai, tava de sol", insistia um dos protagonistas do desastre, ante a cara de pasmado de seu engenheiro. Pois é, “tava”. Mas o tempo muda, o vento leva a sacola e a chuva, acumulada, derruba teto, sala, móveis e tudo o mais.
Não havia mais muito a fazer. Como não havia ainda energia elétrica no meu prédio, fomos almoçar com os colegas que nos ajudaram a limpar a bagunça. Do restaurante, fui embora direto para casa. "Vamos ficar quietinhos em casa, Milena". Bem que eu tentei. Mas nestes dias, por mais que tentemos, nossa paciência é sempre desafiada.
À noite, arrisquei um pequeno contato com o mundo exterior. Nada demais. Queria só pedir uma pizza. Simples, de mozarela. Com azeitonas. Nas últimas semanas que havia tentado pedir pizza, nunca me mandavam as benditas azeitonas. Desta vez, e considerando o dia murphiano, tentei ser absolutamente didático com a atendente. "Por favor, sem borda. Massa fina, bem torrada. Troco para R$ 50. E bastante azeitona, por favor. Não se esqueça das azeitonas, por favor".
Vinte minutos depois, toca o interfone. Chegou a pizza. Rápido. Animado, achei que a má sorte tinha ido embora. Desci para apanhar a redonda. No elevador, não resisti. Abri a embalagem. Claro, nada de azeitonas. Nem verdes, nem pretas. Nenhumazinha.
Resolvi reclamar. Minha mulher ainda tentou me demover da ideia.
Insisti. "Não é possível". Liguei. Reclamei com a mesma atendente do pedido. Lembrei que havia sido bastante claro. Que não era a primeira vez que aquilo acontecia, etc. Ela pediu desculpas, e só. Resignado, sentei-me à mesa para comer a pizza. Sem azeitonas. Xinguei a pizzaria. Queria mesmo era dormir. Que viesse logo a segunda-feira. Dez minutos depois, toca o interfone. Meio constrangido, imaginei que ou a pizzaria havia mandado uma nova pizza, com azeitonas, ou o dinheiro de volta, em sinal de reconhecimento pelo erro. "Milena, acho que eles perceberam que não se trata um cliente assim".
Mais uma vez, peguei o elevador rumo ao térreo. Ao chegar na recepção, percebi um risinho maroto na cara do porteiro. Perguntei pela encomenda. "Tá aqui, Sr. Junior". Nem pizza, nem dinheiro. Numa sacolinha plástica de supermercado, do mesmo tipo da que tinha entupido as calhas do jornal, a pizzaria havia mandado para mim uma dúzia de azeitonas. Só. E embrulhadas na maldita sacolinha.
Decididamente, há dias que não deveríamos sair da cama. Para mim, domingo, 21 de setembro de 2008, foi um destes. Sentiu um calafrio? Pois é, todo mundo tem o seu.
<b>CORRÊA NEVES JÚNIOR </b>
é diretor-responsável do Comércio da Franca
jrneves@comerciodafranca.com.br
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