Uma criança de nove anos sentiu umas dores estranhas logo após o Carnaval. Pediu ajuda à mãe, que a levou a uma unidade de saúde. Foi só então que, após alguns exames, os vários capítulos de uma história sórdida e quase inacreditável por sua crueldade começaram a ser revelados para todo o mundo. Uma história que, tão absurda, simplesmente não deveria existir, mas que continua a tristemente se revelar, a cada instante pior e mais dolorida, como que para deixar incontestável a cada um de nós a torpeza e baixeza a que seres humanos - se é que o termo se aplica neste caso - podem chegar.
A personagem principal é uma menina de 9 anos. Junto com a irmã de 14 anos, a mãe e o padrasto, a menina é moradora de Alagoinha, cidade de Pernambuco distante 225 km da capital, Recife. Mais nova que minha própria filha, esta criança de 9 anos foi submetida a um dos maiores martírios que podem ser impingidos a um ser humano. Violentada sistematicamente há três anos pelo padrasto, aquele que junto da mãe deveria protegê-la e cuidar de sua integridade e desenvolvimento, a menina engravidou. Seu frágil corpo, ainda em formação, trazia no ventre gêmeos, consequência da violência indescritível a que foi submetida. Os médicos avaliaram a gestação como de alto risco e recomendaram um aborto. Interromper a gravidez de 15 semanas seria a única maneira de preservar, além da mínima paz de espírito, também a própria vida de uma criança inocente, vítima de uma besta cuja morte seria o único destino desejável.
A decisão, que deveria ser tomada pela mãe, encontrou um obstáculo surpreendente, poderoso - e incompreensível. Revestidos da autoridade de "representantes de Deus" na Terra, religiosos de Pernambuco pressionaram fortemente para que a gravidez da menina de 9 anos não fosse interrompida. Sob o esdrúxulo argumento de que "todo aborto é um assassinato", os religiosos desejavam que a menina, vítima desta monstruosidade, levasse adiante uma gravidez que colocava em risco a sua própria vida para dar a luz gêmeos, resultado não de um ato de amor, mas de uma brutalidade descomunal.
Imagino o drama desta mulher, mãe de uma criança violentada pelo homem com quem dividia a casa, diante de bispos vestidos com suas batinas a pressioná-la a seguir adiante com este absurdo, confrontada com suas próprias convicções religiosas, temerosa do "pecado" que poderia estar prestes a cometer. Porque, na opinião dos tais religiosos, a mãe não estava salvando ou protegendo sua filha, mas "assassinando" seus netos.
Ainda que fortemente pressionada, a mãe da criança violentada tomou então a decisão: autorizou o aborto. O procedimento foi realizado, a gravidez interrompida. Mas o martírio, se é que vai se encerrar um dia, ainda está longe do fim. Como se não houvesse nenhum outro problema para esta família enfrentar - além da menina estuprada, surgem indícios de que também a irmã mais velha, de 14 anos, era repetidamente violentada - os religiosos pernambucanos resolveram dar novas mostras de quão distantes os ensinamentos cristãos podem estar das práticas cotidianas.
Antes mesmo da alta médica da menina e sem qualquer respeito pelo sofrimento a que esta família está submetida, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, excomungou a mãe, familiares e os médicos que participaram da interrupção da gravidez. O padrasto, que está preso e já confessou seus crimes, foi poupado da fúria de dom José, que reservou ainda um requinte de crueldade final a esta tragédia sem limites. Disse que, aos olhos da igreja, "o aborto é pior que o estupro."
Me provoca asco imaginar que alguém que leu, estudou, viajou e conhece minimamente a vida possa dizer que exista qualquer coisa pior do que a situação vivida por esta menina. Além de insensível, dom José é hipócrita. Se agarra a um dos Dez Mandamentos - "não matarás" - para justificar sua tese ridícula e dizer que a interrupção da gravidez de uma menina de 9 anos violentada dentro de casa e que corria risco de vida é ato mais grave do que a violência a que foi submetida. Antes de abrir a boca, dom José deveria dar uma olhada na própria história da instituição da qual faz parte. Durante trezentos anos, a Santa Madre Igreja Católica matou 9 milhões de pessoas na inquisição.
Artistas, pensadores, homossexuais, mulheres - em sua maioria - e qualquer um que contrariasse os interesses do clero tinha como destino certo a fogueira da Inquisição. Muitos foram cozidos vivos em caldeirões ferventes, outros tantos enforcados, quase sempre sem direito a um julgamento justo, apenas por pensar diferente do que defendia a Igreja Católica.
Ainda hoje, contam-se em centenas os casos em que padres estão envolvidos em escândalos de abuso sexual, a maior parte deles com participação de crianças em relacionamentos homossexuais. A estes padres raramente resta alguma sanção além de um período de recolhimento para "purificação" e "redenção" espiritual. Ainda assim, dom José se vê no direito de condenar, sem qualquer pudor, uma mãe que defendeu sua filha, médicos que cumpriram com sua obrigação. Ao invés de amparar e proteger uma família atormentada, dom José amplifica o tormento, a dor, o flagelo.
Já me declarei agnóstico neste espaço e, portanto, acho que a questão sobre a existência ou não de Deus jamais será resolvida. Intimamente, tenho certeza de que, se Deus existe, anda bastante envergonhado com o que seus representantes têm feito aqui neste mundo. A começar por um certo dom José, o inclemente.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca
jrneves@comerciodafranca.com.br
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