O sujeito do título não é personagem da série de filmes sobre o lutador de boxe de sobrenome Balboa nem tem qualquer parentesco com Sylvester Stallone. O Rocky é um jornal. Ou melhor, era. Até esta sexta-feira, o <a target="_blank" href="http://www.rockymountainnews.com"><u><b>Rocky Mountain News</u></b></a> foi o principal jornal de Denver, capital do Estado americano do Colorado. Circulou ininterruptamente por 149 anos. A 55 dias de completar seu 150º aniversário, encerrou suas atividades.
Sediado na capital de um estado mais familiar aos brasileiros pelas estações de esqui do que pela qualidade de sua imprensa, o Rocky Mountain era um diário com circulação bastante respeitável 210 mil exemplares em dias úteis e mais de 450 mil nos finais de semana e qualidade inquestionável. Fosse editado no Brasil, seria um dos maiores jornais do país, com circulação semelhante à da Folha de São Paulo. Apenas na última década, ganhou quatro prêmios Pulitzer, o principal do jornalismo americano.
A decisão de fechar o jornal foi comunicada por Rich Bohene, diretor-executivo da E. W. Scripps, editora controladora do Rocky, na manhã da última quinta-feira. No meio da moderna redação, Bohene informou editores, repórteres e fotógrafos sobre a decisão, lamentou a falta de compradores e, sem alternativas, avisou a todos que a edição do dia seguinte seria a última. "Denver não suporta mais dois jornais (...) Este é nosso último tiro", sentenciou sobre a edição que seria publicada no dia seguinte.
O Rocky Mountain News teve um fim digno após alguns anos de agonia. Somente em 2008, o prejuízo foi de R$ 38 milhões. A manchete da derradeira edição de sexta-feira, "Tchau, Colorado", é uma despedida emocionada. "É com grande tristeza que damos tchau a vocês hoje. Nosso tempo reportando a vida em Denver e no Colorado, na nação e no mundo, está terminado. (...) Adeus e muito obrigado por tantos anos memoráveis juntos". O epitáfio abre caminho para uma série de reportagens em que os grandes momentos da história do Rocky são resgatados. Jornalistas e colunistas dão seus depoimentos emocionados. Políticos lamentam o fim do jornal, num pesar compartilhado até pelos editores do seu principal concorrente, o Denver Post. "Hoje é um dia muito triste. Um dia muito triste porque o Rocky é um jornal muito bom", disse William Singleton, vice-presidente da MediaNews Group, controladora do Post, agora o único jornal de Denver.
O fim do Rocky Mountain News está longe de ser um caso isolado. É apenas o episódio mais recente de uma série de falências que solapa empresas de mídia em todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos. O drama não é novo, mas seus efeitos mais dramáticos, sim. Apenas nos últimos seis meses, quatro diferentes empresas que controlavam 33 jornais diferentes foram à falência nos Estados Unidos, incapazes de competir num ambiente onde farto conteúdo gratuito é disponibilizado na internet. Tudo ficou ainda mais insustentável diante da crise econômica global, que fez escassear as verbas publicitárias, fonte vital de receita de qualquer jornal. O resultado é uma crise sem precedentes no negócio de mídia como um todo e no de jornais, particularmente.
O drama do conteúdo gratuito na internet afeta especialmente três grandes setores. Além da mídia, as indústrias da música e do cinema enfrentam o mesmo problema em doses semelhantes. A grande questão é como tornar sustentáveis no mundo real produtos oferecidos de graça no ambiente virtual da internet. CDs, por exemplo, são produto em extinção. Ninguém mais compra música, baixa-se tudo da internet. Não fosse a genial invenção do Ipod e do Itunes, a loja de música virtual, por Steve Jobs e a situação estaria ainda muito pior para gravadoras, estúdios, produtores e, em última instância, os próprios músicos. A dupla Ipod/Itunes é um ambiente onde, de alguma forma, as pessoas pagam pelas músicas que ouvem. Mas ainda é uma iniciativa isolada, que funciona apenas para a indústria da música e, mesmo assim, em alguns lugares. No Brasil, por exemplo, inexiste.
Cinema e Mídia têm mais problemas. Filmes com produções grandiosas são baixados na internet quase simultaneamente ao seu lançamento comercial nas salas de cinema. Muito bonito do ponto de vista da praticidade e da liberdade de uso, mas um desastre do ponto de vista da engenharia financeira do negócio. Afinal, se conseguem de graça, quem remunera atores, diretores, produtores e estúdios pelo trabalho? Em última instância, é razoável supor que o número de produções de bom nível tende a diminuir, já que ninguém trabalha de graça. O mesmo pode se dizer da música caso o modelo Itunes/Ipod não se transforme numa regra geral. Porque banda nenhuma terá trabalho consistente se não for, em alguma medida, remunerada. É divertido fazer um vídeo ou uma música e disponibilizar de graça na internet, mas no médio e longo prazo todos os envolvidos nas indústrias da música e do cinema precisam comer, pagar o aluguel da casa, a escola dos filhos. Se ninguém remunera por seu trabalho, baixado de graça da internet, como farão para sobreviver?
A mesma dúvida aflige hoje os executivos de mídia de todo o mundo. Agregadores de conteúdo como o Google oferecem de graça acesso a informações no mundo inteiro. Mas se ninguém paga, como estes negócios vão se sustentar no mundo real? Num mundo onde notícias são disponibilizadas, quem pagará o salário de repórteres, editores, colunistas e demais profissionais dos jornais, além dos custos operacionais? E quando outros jornais como o Rocky Mountain News quebrarem, quem estará em cada comunidade reportando o que acontece para que ferramentas como o Google as agregue e ofereça, de graça, na internet?
A questão é muito complexa e mesmo empresas que trabalham em nível de excelência podem sucumbir. Para nossa sorte e relativa tranquilidade, no Brasil a situação é menos grave e o ambiente virtual da internet ainda não afeta de maneira tão direta os negócios do mundo real. É um alívio, mas momentâneo. Se ninguém encontrar uma solução para a questão conteúdo gratuito na internet x conteúdo pago no mundo real, os negócios de música, cinema e mídia serão simplesmente extintos. Nada de seleção natural ou da sobrevivência dos mais aptos ou melhores. Todos estes setores correm risco. O fim do Rocky Mountain News, com seus 150 anos de história e reputação irretocável, é apenas uma triste prova disso.
<i>Assista ao documentário que narra o fim do Rocky Mountain News (em inglês):</i>
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<i><b>Este vídeo foi indicado pelo leitor Gilmar D. da Silva Mattos. Para participar das pautas do Comércio e da Difusora, enviando vídeos, áudios, textos ou imagens, basta deixar um comentário ou enviar um e-mail para <a target="_blank" href="mailto:falecomocomercio@comerciodafranca.com.br"> Fale com o Comércio </a> ou <a target="_blank" href="mailto:blogsgcn@gmail.com">Blogs GCN</a></i></b>.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca
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