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“Errar é humano. Culpar outra pessoa é política” Hubert H. Humphrey, político americano O humor do prefeito Sidnei Rocha azedou. Menos de dois meses depois de ser empossado para um novo mandato à frente da Prefeitura de Franca, o homem que recebeu a maior votação de todos os tempos na cidade e foi chefe de um governo que concluiu os primeiros quatro anos com aprovação invejável não tem economizado na intensidade com que destila irritação e mau humor em seus interlocutores. Se o infeliz for repórter, tanto pior. As doses podem ser quase letais. Se ninguém é capaz de adivinhar por quanto tempo o azedume vai se estender, identificar o ponto zero da atual fase é fácil: 1º de janeiro de 2009, Teatro Municipal de Franca, cerimônia de posse do prefeito, vice e dos vereadores eleitos em outubro. Quis o eleitor que a delegada Graciela Ambrósio, antiga aliada e membro do PP, legenda que sofre forte influência do prefeito, fosse a vereadora mais votada e tivesse a honra de presidir a primeira sessão legislativa. E o dever de empossar o eleito para comandar a cidade. O clima entre os dois, que já não era bom há tempos porque Graciela cometera um pecado mortal ao "rochismo" - discordar publicamente de seu líder máximo - piorou de vez. Tudo porque a vereadora fez um discurso bastante independente no teatro, elogiou algumas pessoas - a mim, entre elas - e "ousou" fazer alertas ao prefeito. "Franca está ficando para trás e nossas autoridades precisam reagir", disparou Graciela. Pronto. Bastou para que Sidnei Rocha se sentisse, aparentemente, ultrajado. A quem pôde, o prefeito não economizou nos adjetivos para criticar a postura de Graciela Ambrósio. A partir daí, a coisa só piorou. Repetindo um expediente padrão de seu governo, o prefeito encaminhou à Câmara, em regime de urgência, pedido para remanejar R$ 1,7 milhão em verbas do orçamento. Sidnei Rocha queria gastar para um fim dinheiro originalmente previsto para custear outra despesa. Para variar, sem muito tempo para discussão pelos vereadores. Os três vereadores do PTB, outro partido da base aliada, não gostaram do pedido sem explicações detalhadas. Queriam mais prazo para analisar. A liderança do prefeito insistiu em colocar o projeto em votação. Perdeu. O prefeito não assimilou o golpe. No dia seguinte, botou a cavalaria em campo. Secretários começaram a insinuar que a postura dos vereadores petebistas, liderados por Vanderlei Tristão, o Tico - que foi membro do primeiro escalão do governo Sidnei Rocha no mandato anterior era "chantagem". Segundo esta versão, Tico queria cargos na prefeitura e, como tinha dificuldade em conseguir as nomeações, havia partido para a retaliação e votado contra o projeto do Executivo. O contra-ataque do "rochismo" não parou aí. A assessoria de imprensa da prefeitura passou a divulgar que, por "culpa" dos vereadores, não haveria mais o asfaltamento do entorno do City Petrópolis nem a construção da creche do Jardim Palestina. A reforma do Estádio Municipal "José Lancha Filho", a construção de uma nova pista de atletismo no poliesportivo e até a destinação de verbas para a Sociedade dos Cegos foram cancelados. Reapresentar os projetos, com tempo para discussão dos vereadores, nem pensar. Muito melhor, na lógica do "rochismo", é transformar em demônio quem pensa diferente, ainda que sem radicalismos. No meio disso tudo, sobrou até para uma assistente social que dava expediente na Delegacia de Defesa da Mulher. A funcionária, emprestada pela prefeitura, trabalhava na DDM há dez anos. Atravessou governos petistas e tucanos, desempenhando suas funções. Sidnei Rocha, sem nenhuma indicação prévia, a chamou de volta para desempenhar suas funções na prefeitura. Deixou a DDM e quem precisa da assistente social à míngua. É verdade que a obrigação de fornecer a profissional é do Estado, mas parcerias como as que existiam são comuns. Agora, sofre a população. A titular da DDM é a vereadora Graciela Ambrósio. Há quem ache tudo coincidência. Também há quem acredite em anões de jardim. O caldo entornou de vez com a criação, pela Câmara dos Vereadores, de uma Comissão Especial de Inquérito. Foi a segunda CEI instalada para investigar o governo Sidnei Rocha. O motivo são supostas irregularidades na Usina de Compostagem de Lixo. Durante semanas, material que deveria ser reciclado foi depositado junto com lixo comum. A prefeitura disse que a medida, provisória, era necessária para uma reforma. A Câmara quis a investigação. Suspeita da tal reforma, à qual jornalistas não tiveram acesso. O Ministério Público aceitou os argumentos da prefeitura e são escassas as chances de que a tal CEI dê qualquer resultado positivo. Mas que incomodou, incomodou. O desconforto foi tamanho que, desta vez, o "rochismo" apoiou-se em seu líder máximo. Há dias o próprio prefeito Sidnei Rocha tem abusado de pronunciamentos para atacar todo mundo que ele enxerga como "inimigos". Não importa o cenário, o tom é um só. Pau em todo mundo. Nem as solenidades sem conotação política passam ao largo do mau humor do prefeito. Na inauguração do novo prédio da Hidromar, na última quinta-feira, violentos ataques à imprensa, classificada pelo prefeito como "negativista". Na manhã de sexta-feira, durante a entrega da reforma da tal Usina de Lixo, foi quase brutal em seu discurso. "Vocês (Jépy Pereira e Marco Garcia, vereadores da situação) estão dando muito valor às imbecilidades de pessoas que, no passado, foram coniventes com tantas falcatruas, com tantos desmandos e com tantas besteiras feitos nesta cidade". Ao responder a uma pergunta de repórteres do jornal, fato raro nas últimas semanas, adotou um tom perigoso. "O pessoal precisa descer do palanque e entender que já perdeu duas (eleições) e vai perder a terceira. Então, desce do palanque. Não adianta ficar no palanque", disse Sidnei Rocha, para depois aumentar o tom da provocação. "Já perderam duas (eleições) e vão perder todas as próximas. Enquanto eu estiver vivo, vão perder. Então, sai do palanque e vai trabalhar". Para Sidnei Rocha, quem não é a favor, é contra. E quem não segue suas ideias sem questionar é porque age "contra os interesses da cidade". Maniqueísmo puro, sem qualquer sutileza. Tão simples quanto errado. A vida é muito mais complexa e há sutilezas e nuances que precisam ser entendidas. A primeira delas é que Sidnei Rocha é prefeito de todos os francanos, não apenas daqueles que votaram nele. E mesmo os milhares que votaram em Sidnei Rocha necessariamente não concordam com todas as suas ações, indistintamente. Discordar pontualmente não transforma ninguém em opositor. Pedir explicações tampouco. É parte do processo democrático. Pior ainda é sua arrogância ao bater no peito e dizer que não perderá eleições enquanto for vivo. Alguém como Sidnei Rocha conhece bem as consequências que posturas arrogantes podem trazer. Durante 17 anos, Sidnei perdeu todas as disputas nas quais se meteu, banido dos mandatos eletivos pelo voto popular. O castigo foi a dura reação a uma única decisão sua: renunciar à prefeitura de Franca para assumir a presidência da Vasp, em 1987. Sidnei Rocha gosta muito de falar, quase nada de ouvir e parece achar que diálogo é quando uma plateia silenciosa ouve o que ele tem a dizer. Pode até se achar imbatível, mas o eleitor já deu mostras de que, desta decisão, não abre mão. Gilmar Dominici foi eleito, reeleito e hoje convive com um desconfortável ostracismo. O mesmo eleitor que o conduziu a dois mandatos o rechaçou nas urnas depois. Sidnei Rocha precisa entender que quem escolhe o próximo prefeito não se conjuga na primeira pessoa do singular. Muito pelo contrário, é uma escolha da primeira pessoa do plural. Somos "nós", eleitores, que decidiremos esta questão. Goste ou não Sidnei Rocha. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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