O farol


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`Sucesso não é o final, falhar não é fatal: é a coragem para continuar que conta` Winston Churchill, estadista britânico A cada dois meses, mais ou menos, tenho um final de semana diferente. É sempre numa manhã de sábado que um grupo bastante eclético se reúne com diretores e jornalistas na sede do Grupo Corrêa Neves de Comunicação. Há na confraria médico, comerciante, sapateira, professora, bancária, dentista. Homens e mulheres, petistas e tucanos, liberais e conservadores, corintianos e palmeirenses - estes, normalmente, os únicos chatos -, jovens e outros nem tanto, gente que viaja sempre para o exterior e outros que quase nunca saem de Franca. São encontros longos, que se estendem por quatro, cinco horas, onde o grupo, tão rico quanto diverso, se dedica, com intensidade, a falar sobre o traço comum que os uniu: o jornal Comércio da Franca. Todos são leitores do jornal. Voluntariamente se inscreveram para participar do Conselho de Leitores, experiência pioneira do Comércio no interior paulista. Não ganham um centavo para a tarefa que se ofereceram para desempenhar. De quebra, ainda assumem o compromisso de dedicar entre seis e oito sábados por ano a debater a cobertura editorial do jornal. Tem assegurado o direito de convocar repórteres e editores para explicar como se deu a apuração de alguma matéria. Podem, livremente, manifestar suas opiniões e críticas e, quando desejam, suas considerações sobre quaisquer assuntos têm preferência de publicação na seção que abre espaço no jornal, diariamente, para o pensamento dos leitores. Basicamente, são estas as únicas prerrogativas do grupo, além da assinatura do Comércio a que todos têm direito. Dito isso, não seria injusto supor que as reuniões correriam grande risco de se transformar em encontros improdutivos por serem informais ou anárquicos demais. Ledo engano. Os sábados que marcam as reuniões do Conselho são momentos únicos, de intenso aprendizado, onde nós, editores, temos o raro privilégio de nos sentar diante daqueles para quem dedicamos tantas horas de trabalho duro. E deles ouvir, sem aparas, o que pensam de nosso trabalho, como avaliam o jornal que produzimos, o que temos feito de bom, o que precisamos melhorar. Muitas vezes, temos que receber também críticas, justificar erros que eventualmente tenhamos cometido. Explicar opções editoriais e o porquê das escolhas que fizemos. Não raro, ouvimos grandes sugestões, capazes de mudar o rumo ou a intensidade com que nos dedicamos a determinados projetos. A opção por uma extensa cobertura da disputa eleitoral de 2008 foi uma destas ideias, bem como a reformulação gráfica das seções Insight e Higininho e a ampliação dos espaços de opinião. A valorização das colunas temáticas de autores francanos e a aposta redobrada em belas imagens são outras destas sinalizações extraídas de nossos encontros bimestrais. Ontem foi sábado de reunião do Conselho. Desde que a experiência teve início, pouco mais de 3 anos atrás, só não estive presente em duas reuniões. Das outras mais de 20 participei, sempre, com grande empolgação. Mas para este sábado, pela primeira vez, meu ânimo não era dos melhores. Quinze dias de conversas com advogados e muito aborrecimento jurídico foram capazes de diminuir em mim o entusiasmo habitual com que me disponho a discutir quase qualquer assunto. Não tem sido fácil lidar com a leitura bastante particular que parte dos juízes de primeira instância faz do trabalho da imprensa. Porque, nos episódios recentes em que repórteres do Comércio foram indiciados criminalmente e ações indenizatórias propostas contra o jornal, ninguém disse em nenhum momento que o que escrevemos foi mentira. Não erramos. Publicamos a verdade. Ninguém questionou a veracidade de nenhum dos episódios que envolveram um delegado de polícia e um PM em pleno plantão. Nem mesmo a Justiça, que definiu os fatos narrados pelo jornal como “incontroversos”. Apesar disso, ao invés do Ministério Público ou das autoridades policiais instaurem procedimentos contra o delegado que xingou o policial militar, somos nós, que publicamos a história, que viramos réus. Xingar pode. Publicar, não. Aparentemente, os termos usados na reportagem é que são problema, não o fato de um delegado de polícia ter chamado um PM de “policialzinho de merda” dentro de uma delegacia. Difícil entender. Os conselheiros, como de resto, os leitores, não aceitam que um fato verdadeiro não possa ser estampado pelo jornal. Ficam inconformados com a liberdade que veículos da Capital tem para denunciar desvios de conduta que envolvem servidores públicos - delegados, fiscais, dirigentes de estatais - e se surpreendem com as restrições que nos são impostas. Os limites estabelecidos por uma interpretação radical dos direitos do indivíduo frente ao interesse coletivo nos levam, muitas vezes, a evitar a publicação de histórias que, em outras comunidades, estampariam tranquilamente as páginas dos jornais locais. Tanto esforço, às vezes, cansa. Ainda bem que existem os momentos redentores, como a bendita reunião do Conselho deste sábado. Bastaram uns poucos minutos na presença do grupo de dez conselheiros reunidos para afastar qualquer sinal de desânimo mais evidente. A paixão e o entusiasmo com que defendem e acreditam na importância do nosso papel são uma injeção de ânimo de dose cavalar. As múltiplas histórias de transformação provocadas pelo jornal no cotidiano de cada um são reveladoras da dimensão imensa que um veículo de comunicação tem, de sua importância na construção de uma sociedade menos injusta. As horas de reflexão com os conselheiros nesta manhã de sábado serviram como um farol na escuridão para reafirmar, em cada um de nós, dirigentes e jornalistas do GCN, os princípios que fundamentam nossa ação cotidiana. Continuamos firmes, prontos para os próximos desafios, com serenidade para assumir e reparar erros que porventura cometamos, mas também fortificados para enfrentar e lutar contra quaisquer obstáculos que coloquem em risco o fundamental direito - que para nós, é missão de vida - de informar a população de Franca e região. Como sempre, com ética, decência, responsabilidade e muita, muita coragem. CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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