Psy-techno-trance


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Detesto música eletrônica. Desde sempre. Do resto, gosto de quase tudo. Rock, heavy metal, MPB, música clássica, jazz. Blues, meu preferido. Samba. Até sertanejo, gênero do qual nunca fui fã, hoje encaro numa boa. De U2 e Dave Mathhews a Zeca Pagodinho e Bruno & Marrone, passando por Billie Holliday e Paralamas do Sucesso, ouço tudo, com prazer. Tudo menos música eletrônica, bem entendido. Devo confessar, entretanto, que até ontem minha implicância era quase gratuita. Como nunca fui a uma rave e há muitos anos não frequento boates, templos por excelência deste tipo de música, minha irritação com a música eletrônica derivava dos poucos trechos que tinha ouvido num ou noutro churrasco, em alguma demo enviada à Difusora ou nos sites de música que visito porque o assunto, de modo geral, me interessa. Ainda assim, tinha sido o bastante para revelar minha incompatibilidade com o gênero. Nunca entendi que prazer ou beleza pode haver numa música desrritimada, sem harmonia, cujos sons podem variar do ruído-de-britadeira-de-construção ao chiado-de-giz-que-risca-a-lousa. Há ainda o martelo-que-bate-madeira e o rodo-que-bate-o-chão-de-casa-sem-parar. Sou ainda menos capaz de entender músicas que não se distinguem umas das outras. Tanto faz qual você ouça, dá praticamente na mesma. Um ouvinte menos atento poderia supor, inclusive, que ouviu a mesma música durante a rave inteira, sem espaço entre elas. Faria todo sentido. Mas desde a noite desta sexta-feira, mudei de patamar. Depois de passar este final de semana numa rave, posso declarar, sem medo de errar ou de parecer excessivo: de verdade, tenho horror a música eletrônica. Sem qualquer sombra de dúvidas, detesto a música, o ambiente e, acima de tudo, a duração dos tais eventos. Devo o privilégio da minha descoberta a um grupo que resolveu inovar. Deviam ser uns 50 jovens divididos em mais de 20 carros. Trocaram as chácaras de Franca por uma pacata pousada em Rifaina. Para meu azar, estavam decididos a transformar o paraíso em inferno. Tinham energia, paciência, champagne e uísque de sobra para perseguir seu objetivo. Conseguiram. Entre sexta e domingo, fizeram de um dos “bicos” da represa da Rifaina a própria residência de Lúcifer na Terra. Que fique claro. Não fui convidado ao evento. Nem precisava. O tal evento veio até mim, com toda sua força. E invadiu rancho, piscina, casa, quarto e qualquer ambiente localizado a bons quilômetros de distância. Para mim, cujo rancho de nossa família é vizinho à pousada, a sensação era de estar no meio do inferno, sem que tenha pedido para entrar e sem ter como ir embora. Preso no inferno com vista para o paraíso. Até agora, 20h30 de sábado, completamos 21 horas de terror quase ininterrupto. Houve apenas uma pequena pausa, entre 3 e 8 horas, quando foi possível dar algum descanso ao cérebro. De resto, não houve madrugada, noite, manhã ou tarde sem o som irritante e perturbador. Até tentei apelar ao bom senso de meus vizinhos de final de semana, como se ali houvesse resíduo de algum. Nem bem o telefone tocou e já atenderam, na pousada, preparados. “Temos alvará”. Naquele instante, tive certeza de que não só os organizadores tinham consciência do distúrbio que provocavam como também estavam muito pouco preocupados com isso. Apesar de reduzir o som por alguns instantes, foi um alívio apenas momentâneo. Logo, o som voltou ao padrão normal, ensurdecedor. E o repertório, claro, seguia o padrão habitual. Ruído-tortura em doses homéricas. Desesperados, houve outros vizinhos que tentaram reagir à altura. Literalmente. E com música sertaneja. Foi surreal. Psy-trance na rave, Theodoro & Sampaio no vizinho. Tudo na mesma altura. De enlouquecer. Foi neste instante que achei ter ouvido as trombetas do apocalipse. Se eram os sons das próprias não tenho certeza, mas que os gritos que ouvi na sequência eram de bestas saídas do inferno descrito por Dante Alighieri, disso não tenho qualquer dúvida. Urros, berros e todo tipo de grunhido em dolby surround. Confesso ao leitor que não sei direito o que esperar das próximas horas. Segundo os organizadores, o “evento” segue firme até a tarde de domingo, non-stop. Pobres de nós. <b>CORRÊA NEVES JÚNIOR</b> <i>é diretor-responsável do Comércio da Franca</i> <a target="_blank" href="mailto:jrneves@comerciodafranca.com.br"><u>jrneves@comerciodafranca.com.br</u></a>

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